segunda-feira, 29 de abril de 2013

A Costa do Exílio

 A Costa do Exílio
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Introdução 
Para os milhares de europeus em fuga devido à II Guerra Mundial, Portugal era um país mítico. O único destino possível. Estava em paz, era barato, cercado pelo Atlântico, era a ponte ideal para o Novo Mundo, os Estados Unidos da América. 
Dentro de Portugal, a Costa do Estoril foi o local mais procurado e abrigou personalidades europeias, realeza e artistas carismáticos

Tal como para Ilsa no filme Casablanca, que apanha um avião no meio das brumas em direcção a Lisboa, para os milhares de europeus em fuga devido à II Guerra Mundial, Portugal era um país mítico. O único destino possível. Estava em paz, era barato, e cercado pelo Atlântico, era a ponte ideal para o Novo Mundo, os Estados Unidos da América.

Dentro de Portugal, a Costa do Estoril era o local mais procurado. Fausto Figueiredo, um empresário visionário, tinha criado a Riviera portuguesa em 1935, e conseguira espalhar o charme deste pequeno pedaço de território português por toda a Europa. Praias, hotéis de luxo, casino, espectáculos... além de paz, segurança e tranquilidade.
 Não admira que os europeus empurrados pelo terror da guerra começassem a chegar em massa ao Estoril, a partir de 1939
Entre este ano e 1946 fixaram-se ou passaram pela Costa do Sol mais de 20 mil estrangeiros, segundo a Divisão de Segurança Pública da Câmara Municipal de Cascais. Exilados, chegaram reis, rainhas, princesas e duquesas. Com o estatuto de refugiados, escritores, pintores, realizadores de cinema, e todos os anónimos em busca de um canto pacífico e de um local de passagem seguro para recomeçarem a sua vida na terra prometida. 
A acompanhar todo este êxodo, a habitual escolta de jornalistas, espiões, diplomatas e polícias, em busca de notícias e informações. A "Linha" virou um local cosmopolita, movimentado e com muito charme, acima de tudo porque a guerra passava a ser um acontecimento longínquo. 
Para dar só um exemplo, o Sud Express, o comboio que ligava Paris a Lisboa, fazia escala final no Estoril, tendo Cascais inaugurado a sua estação ferroviária em 1946, altura em que se davam os últimos retoques à Estrada Marginal.
 
 
As famílias reais e os nobres da Europa não ficavam em hotéis. Procuravam mansões existentes nas encostas do Monte Estoril, do Estoril, ou de Cascais e aí fixavam residência. 
Carlota do Luxemburgo e a sua família chegaram logo em Junho de 1940, instalando-se na vila de Santa Maria, no Estoril. A grã-duquesa tencionava ficar por pouco tempo, mas por razões políticas acabou por permanecer vários anos em casa da família Posser de Andrade.
A Operação Willie
Também em Junho chegou um dos mais trágicos casais da realeza britânica, Eduardo de Windsor e Wallis Simpson, mulher por quem Eduardo abdicou do trono. O casal, que passou algum tempo em casa da família Espírito Santo e esteve hospedado no Hotel Atlântico, no Estoril, construído num rochedo a umas escassas dezenas de metros do oceano, viveu em Portugal episódios totalmente rocambolescos.
 O hotel, na altura, era dominado pelos alemães, que utilizavam a sua privilegiada posição geográfica para controlar o tráfego naval no mar. 
Quanto à trama que envolveu Eduardo, a história ainda hoje é pouco conhecida, mas sabe-se que um agente do III Reich, Walter Schellenberg, juntamente com o japonês Kijuro Suzuki, tentaram aliciar Eduardo, na vetusta sala de jogo do Atlântico, para uma caçada em Espanha, para concretizarem o objectivo de raptar o príncipe, transportando-o posteriormente para Berlim
No entanto, os ingleses, bastante activos a nível de espionagem, tomaram conhecimento do plano, e anteciparam-se, enviando o herdeiro do trono inglês para as Bahamas. O paquete britânico Excalibur veio de propósito a Lisboa para levar Eduardo para o exílio dourado.
Também Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português em Bordéus que deu o visto a milhares de judeus , conseguiu dar a liberdade a algumas figuras reais europeias. Otto e José de Habsburgo-Lottringen, arquiduques da Aústria-Hungria, receberam o seu visto em Bordéus, juntamente com os banqueiros Rotschild, que eram procurados pelos nazis. Otto permaneceu pouco mais de duas semanas no Estoril, tendo obtido rapidamente visto mas José ficou para sempre.
Nota - A História dos vistos que Aristides de Sousa Mendes, e muito bem, concedeu a milhares de judeus salvando-lhes a vida, tem sido sempre intencionalmente muito mal contada, principalmente pelos descendentes dos esquerdistas que pelas suas asneiras históricas colocaram democraticamente no poder na Alemanha, um doido como Hitler !.
 
Se Salazar quisesse, obedecendo aliás às exigências de Hitler, teria atirado ao mar todos os refugiados judeus que chegaram a Portugal ou tê-los-ia devolvido aos alemães que os teriam aceite e eliminado com todo o gosto. Mas não o fez, afirmando que os refugiados não eram cidadãos alemães, mas sim apátridas. 
E a injusta demissão de Aristides foi apenas pela desobediência e  pelo perigo em que colocava Portugal das represálias alemãs, pois Lisboa poderia ter ficado como Londres, só com a diferença de que os lisboetas não teriam tido um "metro" para se abrigar das bombas nazis !
Também não consta na história que os inúmeros judeus ricos que Aristides ajudou a salvar , tenham contribuído economicamente para o ajudar nos momentos de penúria que passou com a família depois da sua demissão!
 
Inicialmente, os Habsburgos foram acolhidos por Maria Benedita D'Oriol Pena, mas acabaram por comprar casa em Carcavelos, no Casal da Serra. Durante a permanência dos Habsburgos, o regime nazi tentou por várias vezes obter a sua extradição, mas o " malvado" Salazar nunca consentiu.Em Maio de 1941, quando se dá no Estoril o homicídio da inglesa Mabel Prince, crime que nunca foi resolvido, chega o rei Carol II da Roménia, que comprou uma casinha discreta no Estoril, a Mar e Sol. O único pormenor excêntrico foi oenorme cofre que Carol mandou construir no seu quarto, para guardar as jóias do seu reino e alguns documentos importantes.
 Após a morte do rei, em 1953, a sua amante, a bailarina Magda Lupescu, tentou vender todas as jóias, mas o governo romeno interveio imediatamente. A disputa quase deu origem a um incidente diplomático, e os romenos só conseguiram reaver a Coroa Real. As restantes jóias, documentos e obras de arte foram transportados para o Reino Unido, tendo sido leiloados na Sotheby´s.

O mais discreto membro da realeza europeia acolhido no Estoril foi a princesa Joana da Bulgária, que chegou no fim da década de 40. Joana ainda hoje vive isolada na sua casa do Estoril, saindo apenas para eventos de caridade. Dela apenas se sabe que chegou ao Estoril quase sem nada.
Também discretamente, mas altamente respeitados e acarinhados por tudo o que era "gente de bem" da Linha, viveram no Estoril, na Vila La Giralda, a partir de 1946, Don Juan de Battenberg e Bórbon, conde Barcelona, e o seu filhoJuan Carlos, que viria a recuperar o trono real de Espanha, pois para isso tinha sido escolhido e preparado por ordens de Franco. 
Juan Carlos estudou algum tempo no Estoril, e o seu pai, cujo grande prazer na vida era velejar, mas que apesar disso teve bastante tempo para promover várias reuniões com monárquicos espanhóis para recuperar a Coroa real castelhana, tinha em tão grande consideração o acolhimento dispensado pelos portugueses, que chegou um dia a dizer: "Nunca abandonarei nos maus momentos o país que me acolheu nas boas horas."

Humberto II de Itália chega ao exílio em 1946, deixando para trás um país em escombros, e adquiriu uma imponente casa em Cascais. O rei foi uma das presenças estrangeiras mais visíveis para as gentes da zona, tendo participado numa série de iniciativas de caridade. 
Um dos seus primeiros actos em Portugal foi uma visita à colónia balnear de "O Século", em S. Pedro do Estoril, onde se alojavam crianças refugiadas, na sua maior parte judias. 
Por outro lado, o rei entrou rapidamente no circuito de luxo do Estoril, sendo presença assídua em festas e outros eventos. Tal como todos os outros exilados de sangue azul ou com fortuna, Humberto, que diariamente assistia à missa, tirou alto partido da indústria de hotelaria e lazer da Linha, que sofreu um boom fortíssimo na altura.

O mar e a praia eram o pano de fundo permanente, tendo o biquíni ( o biquini foi inventado em 1947 ) sido introduzido nesta altura, perante um certo escândalo dos locais, ainda muito agarrados à cultura saloia. Ainda hoje se conta a história do almirante Horthy, regente da Hungria, que perdia todas as tardes no paredão Estoril-Cascais, a olhar para o mar. 
Um costume que ganhou tradição. A nível de hotéis, o "must" eram o Palácio, o Grande Hotel de Itália e o Albatroz.O Seteais na misteriosa Sintra. O Casino era o grande centro de atracção, principalmente porque promovia quase semanalmente grandiosos bailes, que rivalizavam com os do Palácio. A combater a hegemonia do Casino na vida nocturna, foi inaugurada nos anos 40 a discoteca Palm Beach, em Cascais, que oferecia a música de uma imponente orquestra.
 A nível de restaurantes, Muxaxo, Pé-Leve e Choupana davam cartas, acompanhados pelas pastelarias Faz-tudo e Casa Laura, em Cascais, e Garrett e Deck, no Estoril, que ainda hoje estão abertas.

Intelectuais, escritores, realizadores de cinema e artistas eram também presença assídua na vida social do Estoril, nos anos da guerra. Max Ophuls chegou em 1941, juntamente com a família, e ficou na casa Bela Vista, no Estoril. No entanto, o homem que foi para Hollywood realizar vários filmes de sátira social, não ficou muito tempo na costa, tendo partido rapidamente para a América. 
O mesmo se passou com os seus camaradas de profissão Jean Renoir e René Clair, que andaram pelo Casino e pela praia durante a sua estada, mas na primeira oportunidade voaram para a terra prometida. Antoine de Saint-Exupéry, esse eterno vagabundo, autor de O Principezinho, chegou em 1940 e ficou bastante mais tempo, tendo conhecido toda a zona do Estoril e Sintra, e frequentando todos os locais que valia a pena frequentar, sempre com um pequeno bloco de notas no bolso. Saint-Exupéry começou por se alojar no Palácio, mas preferiu depois a intimidade de uma vivenda perto do Casino. 
Saint-Exupéry o ingrato - que pelos vistos não sabia ser reconhecido para quem o acolhia salvando-lhe a vida -  acabará também por partir para a os Estados Unidos, mas não sem antes cunhar Portugal de o : "O paraíso triste."  
Com ele cruzou-se o sociólogo romeno Mircea Eliade, que começará a escrever na Rua da Saudade, 13, em Cascais, o seu Tratado da História das Religiões. 
Maurice Maeterlinck, Nobel da Literatura, bem como o conhecido guru da economia, John Keynes, estiveram igualmente no Estoril na altura, mas a história ainda não recuperou os seus dias estorilenses. No meio do oásis de paz e tranquilidade que o Estoril era na altura, aconteceram algumas tragédias. 
O campeão mundial de xadrez, o russo Alexander Alekhine, que só descia do seu quarto no Palácio para comer e jogar, suicidou-se numa manhã sem história. Leslie Howard, actor inglês, morreu a bordo de uma avião da BOAC que descolava de Cascais para novos destinos.

Fervilhando de figuras e acontecimentos sociais, bem de como de conjuras, num regime que atingia o seu expoente máximo em termos de totalitarismo, a Costa do Sol assistia ainda à presença de diversos agentes de espionagem, sempre de uma forma dissimulada.

Worthus, o alemão que construiu o Hotel Atlântico, e que diversas vezes hasteou a bandeira nazi, era obviamente um deles.

Tal como a alemã Emily Nolte, que fundou em 1939 a Escola Alemã na Vivenda Pilar, Estoril, palco de diversas operações de espionagem. José António Barreiros, no seu livro A Lusitânia dos espiões, dá-nos conta de casos como o do jugoslavo Dusko Popov que, operando no Casino, servia alemães e ingleses ao mesmo tempo. 
Agente duplo até ao final do conflito, Popov só chamaria as atenções sobre si uma vez, quando se envolveu numa cena de pugilato nos jardins do Casino com um agente alemão que o pretendia revistar, procurando informações sobre as actividades dos ingleses. 
Um outro caso citado por Barreiros é o de Nubar Gulbenkian, filho de Calouste Gulbenkian, que trabalharia para o MI9, um dos departamentos de informação britânicos. 
Nudar seria encarregue de organizar as redes de passagem dos refugiados chegados a Lisboa via Espanha, que depois seriam transportados para Londres. 
Todos se vigiavam uns aos outros, e a PVDE, antecessora da PIDE, tentava vigiar portugueses e estrangeiros. Se todos estes casos e figuras são os mais sonantes, por representarem instituições e países, não se pode deixar de mencionar um outro tipo de exilados que chegaram à Costa do Estoril durante a II Guerra: os refugiados anónimos.


 

Sem dinheiro, estatuto social ou político, chegavam aos montes a Vilar Formoso, a maioria de origem judaica, e com um visto passado por Aristides de Sousa Mendes ou por outros diplomatas que, obedecendo às leis do coração e contrariando as ordens de Salazar, davam-lhes o carimbo que simbolizava a vida e a esperança. Eram checos, polacos, alemães, austríacos, e fugiam da morte certa.
Salazar, por diversas razões, nomeadamente de índole diplomática com receio das represálias alemãs, tentava ao máximo evitar a sua entrada. No início, tentava-se separar os refugiados por nacionalidades, colocando-os em diversas zonas do país, mas o fluxo era de tal forma que depressa se desistiu desta estratégia. 
E, logicamente, o Estoril, até pela sua proximidade em relação a Lisboa, ponto fulcral de comunicações aéreas ou marítimas, era um dos locais preferidos. A Colónia Balnear de "O Século" foi um dos locais de refúgio de muitas crianças que puderam, assim, atingir a vida adulta.

Após o final do conflito, com a Europa em reconstrução, Portugal, e a Costa do Estoril em particular, deixa então de ser um palco fervilhante de acontecimentos. Mas os anos da guerra tinham deixado a sua marca para sempre, e muitos dos que pensavam ser esta zona apenas um local de passagem, tinham-na agora escolhido como local de permanência. 
( Condensado de artigo na Internet de José Vegar/Luís Villalobos)

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