terça-feira, 15 de outubro de 2013

Quem eram os Lusitanos?


Origem dos Lusitanos

Hoje é simples, lusitano é sinónimo de português e denomina todo aquele que seja cidadão de Portugal.



Mas esclarecer a origem dos lusitanos, que viviam há 2.300 anos na Hispânia ou Península Ibérica, parece não ser tarefa fácil. A.H. de Oliveira Marques diz na sua História de Portugal, que quando os romanos conquistaram e civilizaram a Península Ibérica para sempre ( século II AC até século I) encontraram vários povos indígenas, entre os quais os Lusitani e os Celti que não tinham grande diferença entre si e que os primeiros eram com toda a probabilidade povos indígenas celticizados.

A Enciclopédia Britânica, diz que os lusitanos eram um povo ibérico e que no território que hoje é Portugal, resistiram à penetração romana até século II DC. mas que não se tem a certeza se os Lusitanos eram povos iberos celticizados, ou estavam relacionados com os Celtas Lusões do Nordeste da Península Ibérica.

O Dicionário de História de Portugal, de Joel Serrão, dedica várias páginas ao assunto e esclarece um pouco melhor. Aparentemente foi Estrabão, geógrafo e historiador grego dos

começos da nossa era, quem primeiramente se referiu aos lusitanos como « a maior das tribos ibéricas, com a qual muitos anos lutaram os Romanos». Plínio e Ptolomeu, assim como outros escritores antigos também se referiram aos "celtici".

Num recente estudo sobre a etnologia dos lusitanos, o Dr. Scarlat Lambrino, partilhando a opinião de Schulten, procurou demonstrar com argumentos bastante convincentes, que tanto os Lusitanos como os Lusones eram povos de origem céltica, talvez procedentes dos Alpes Suíços, entrados na Península quando das migrações célticas, tendo-se os Lusones fixado na região das nascentes do Tejo e os Lusitanos continuando a marcha, seguindo o vale desse rio até ao Atlântico, possivelmente em busca de melhores terras.

Parece também que a palavra Lusos foi uma criação literária empregada pelos humanistas dos séculos XVI e XVII, baseados num passo mitológico de Marco Varrão ( Plinio, III, 8) que filia o topónimo Lusitânia em Lusus ou Lysa, filhos de Baco.

Inspirado nesta fantasiosa lenda, deu Camões à epopeia nacional o título de Lusíadas ( A Britânica diz que Camões chamou Lusíadas ao seu poema épico, derivado de Lusitânia - Província Romana ), com o significado de filhos ou descendentes daquele Luso da mitologia.


Alexandre Herculano, por outro lado, colocou-se porém num ponto de vista exageradamente oposto e recusou-se a aceitar qualquer relação étnica entre os antigos lusitanos e os Portugueses actuais. No entanto esta sua opinião é insustentável pelo ponto de vista dos conhecimentos actuais.


Mais detalhes sobre os Lusitanos ( Ver Dicionário de História de Portugal - de Joel Serrão )

Os lusitanos

Os lusitanos constituíram um conjunto de povos ibéricos pré-romanos de origem indo-europeia que habitaram a porção oeste da península Ibérica desde a Idade do Ferro. Em 29 a.C., na sequência da invasão romana a que resistiram longo tempo, foi criada a província romana da Lusitânia nos seus territórios, correspondentes a grande parte do actual Portugal.

A figura mais notável entre os lusitanos foi Viriato, um dos seus líderes no combate aos romanos. Outros líderes conhecidos eram Punicus, Cæsarus, Caucenus, Curius, Apuleius, Connoba e Tantalus.

Os lusitanos são considerados, por antropólogos e historiadores, como um povo sem história por não terem deixado registos nativos antes da conquista romana. As informações sobre os lusitanos são-nos transmitidas através dos relatos dos autores gregos e romanos da antiguidade o que por vezes causa diversos problemas ou conflitos na interpretação dos seus textos.

Origem

Os antepassados dos lusitanos compunham um mosaico de diferentes tribos que habitaram Portugal desde o Neolítico. Miscigenaram-se parcialmente com os invasores celtas, dando origem aos lusitanos. Não se sabe ao certo a origem destas tribos celtas, mas é muito provável que fossem oriundas dos Alpes suíços e teriam migrado devido ao clima mais quente na península Ibérica.

Entre as numerosas tribos que habitavam a península Ibérica quando chegaram os romanos, encontrava-se, na parte ocidental, a dos lusitani, considerada por alguns autores a maior das tribos ibéricas, com a qual durante muitos anos lutaram os romanos.

Supõe-se que a zona do centro de Portugal era habitada pelos Lusis ou Lysis que teriam dado origem aos Lusitanos. Os Lusis eram provavelmente povos do Bronze Final, linguística e culturalmente de origem indo-europeia e pré-céltica que numa época posterior vieram a sofrer influências hallstáticas e mediterrânicas, isto ao longo dos séculos VIII e VII a.C.

Os Lusis foram referidos pela primeira vez no Ora Maritima de Avieno onde foram chamados de pernix, que significa ágil, rápido e é o adjectivo que se aplicava ao praticante de jogos de destreza física.

Etnia segundo os autores da Antiguidade

Os escritores da Antiguidade identificaram duas etnias na península Ibérica, a ibera e a celta, e qualificavam os seus habitantes como sendo iberos ou celtas ou uma mistura das duas etnias. No entanto o conceito de ibero podia ser usado num sentido geral, isto é, num sentido geográfico, referindo-se ao conjunto dos seus habitantes, num sentido restrito a um conjunto de tribos com a mesma etnia, ou mesmo podia variar consoante o conceito da época, e o mesmo se pode considerar relativamente ao conceito de celta da Ibéria ou celtibero.

Diodoro Sículo considerava os lusitanos um povo celta: "Os que são chamados de lusitanos são os mais valentes de todos os cimbros"Estrabão diferenciava os lusitanos das tribos iberas. Viriato foi referido como líder dos celtiberos. Os Lusitanos também eram chamados de Belitanos, segundo Artemidoro.

Indícios arqueológicos e pesquisas etnográficas relativamente recentes sugerem que os lusitanos estejam ligados aos lígures, possivelmente através de uma origem comum. No entanto, a religião, a onomástica, nomes próprios e topónimos, e escavações nos castros lusitanos revelam tratar-se de um povo celta. Entre os autores modernos não existe consenso, são considerados iberos, lígures ou celtas.

Os guerreiros ibéricos

Os guerreiros ibéricos são citados como tropas mercenárias na batalha de Hímera em 480 A.C.. Os mercenários ibéricos aparecem nos principais confrontos bélicos do Mediterrâneo, tornando-se num dos pilares dos exércitos do Mediterrâneo central. Estão presentes na batalha de Selinute, Agriento, Gela e Calamina. 

Capacete de Lanhoso
Surgem em outros conflitos na segunda guerra grego-púnica, na Sicília, em Siracusa, em Atenas e estão presentes na defesa de Esparta na batalha de Krimios, na Primeira Guerra Púnica, e com os púnicos no norte de África. 

Tito Lívio (218 a.C.) descreve os Lusitanos pela primeira vez como mercenários ao serviço dos cartagineses na guerra contra os romanos.

Os lusitanos foram considerados pelos historiadores como hábeis na luta de guerrilhas. Eram indivíduos jovens na plenitude da sua força e agilidade e seleccionados entre os mais fortes. Neles recai a defesa da comunidade quando está ameaçada. 

A preparação militar dos jovens guerreiros tinha lugar nas montanhas em lugares específicos.

"Em tempo de guerra eles marcham observando tempo e medida; e cantam hinos (paeans) quando estão prontos para investir sobre o inimigo" 6 batendo nos escudos à maneira ibérica.

Falcata Ibérica
Segundo Tito Lívio, os lusitanos eram pacíficos quando não eram acossados.

Mulheres guerreiras

Apiano relata que quando o pretor Brutus, ao perseguir Viriato, atacou as cidades da Lusitânia as mulheres lutavam e morriam valentemente lado a lado com os homens. Depreende-se que de alguma forma o treinamento militar também era dado às mulheres a quem recaia também a defesa dos castros.

Segundo Tito Lívio, são as seguintes as armas utilizadas pelo exército lusitano:

Armamento ofensivo usado na luta corpo a corpo

Punhal de fio recto e antenas atrofiadas ou afalcatado.

Espadas tinham um esmerado processo metalúrgico, com uma resistência e flexibilidade fora do comum para a época. Usavam a espada do tipo La Tène, a espada de antenas atrofiadas e a falcata.

Lança de ponta de bronze - segundo Estrabão, estas lanças eram de uma época antiga e supõe-se que a sua presença se devia a ainda serem usadas em rituais que teriam origem nas tradições das fraternidades guerreiras da idade do bronze.

Labrys, machado de dupla lâmina que aparece em moedas romanas da lusitânia não parece que era usado pelos lusitanos mas pelos cântabros.

Competições Guerreiras

Os guerreiros lusitanos realizavam competições entre si, em que tomava parte a cavalaria e a infantaria; competiam em boxe, luta livre, corridas, faziam combates de grupo e combates entre esquadras. Estrabão reconhecia que os lusitanos lutavam como peltastas, e eram organizados e eficientes a posicionarem-se na linha de batalha ou a movimentarem-se concertadamente para posições estratégicas.

As lutas dos lusitanos contra os romanos começaram como mercenários no exército púnico e depois reacenderam em 193 a.C.. Em 150 a.C. o pretor Sérvio Galba, após ter infligido grandes punições aos lusitanos, aceitou um acordo de paz com a condição de entregarem as armas, aproveitando depois para os chacinar. Isto fez lavrar ainda mais a revolta e, durante oito anos, os romanos sofreram pesadas baixas.

As guerras lusitanas acabaram com o assassínio traiçoeiro de Viriato por três aliados tentados pelo ouro romano. Mas a luta não parou e para tentar acabá-la Roma mandou à península o cônsul Décimo Júnio Bruto Galaico, que fortificou Olisipo, estabeleceu a base de operações em Méron próximo de Santarém, e marchou para o Norte, matando e destruindo tudo o que encontrou até à margem do Rio Lima. Mas nem assim Roma conseguiu a submissão total e o domínio da Lusitânia. A tomada de Numância, na Celtibéria, pelos romanos, foi vista como um símbolo da resistência dos aliados dos lusitanos.

Estruturas dos Povoados

As casas de pedra tinham forma redonda ou rectangular; eram cobertas de palha e ficavam situadas no alto de morros ou colinas, agrupando-se em aldeias - os castros citados pelos historiadores antigos.

As casas eram dispostas ordenadamente e formavam algo semelhante a bairros, organizados por famílias e subdivididos em diversos núcleos habitacionais que distribuíam-se em torno de um pátio, de acordo com a sua função. Incluíam cozinha com lareiras a forno, local de armazenagem de géneros, zonas de dormida, recinto para guarda de animais.

A decoração das casas, em relevo e gravura, era feita com motivos geométricos, em forma de corda, de espinha, com círculos encadeados ou sinais espiralados, tríscelos e tetrascelos, cruciformes e serpentiformes.

Castro da Cárcoda junto à localidade de Carvalhais (São Pedro do Sul)
Nos castros destacava-se um grande edifício de planta circular, para reuniões do conselho comunitário, com bancos ao redor. Havia ainda os balneários públicos para banhos frios e de vapor. As ruas eram calcetadas com pedras regulares.

Encontram-se dois tipos de castros: fortificados, cercados com muralhas defensivas feitas de grandes pedras, chegando a alcançar um quilómetro de perímetro; e abertos, sem estruturas de defesa visiveis. Outros tipos de povoamentos eram os chamados de casais agrícolas. Verifica-se uma relação estreita entre a fortificação dos povoados e a exploração de metais, encontrando-se frequentemente conheiras e minas de filão perto de castros fortificados.

Os instrumentos musicais incluíam a flauta e a trombeta, com que acompanhavam seus coros e danças, de que os romanos deixaram algumas descrições. Homens e mulheres bailavam em danças de roda, de mãos dadas.

A Sociedade Lusitana

sociedade lusitana essencialmente guerreira denotava a presença de uma hierarquia social em que o guerreiro ocupava uma importante posição. Era uma sociedade aristocrática, na qual a maior parte da riqueza estava nas mãos de um grupo reduzido de pessoas. A presença de jóias e de armas nos túmulos indica a presença de uma elite guerreira.

A organização da família lusitana revela uma estrutura gentílica da sua sociedade, era referida nas fontes epigráficas com a designação de gentes ou gentiliates. Os lusitanos encontravam-se unidos entre si por laços de sangue ou parentesco e não pelo território ocupado.
Lunula Ibérica

O tipo de governo era a chefia militar, na qual o líder era eleito em assembleia popular, escolhido entre aqueles que se distinguiam pela coragem, valor, capacidade de liderança e vitórias obtidas em tempo de guerra. 

Os autores gregos referiam-se a estes chefes militares como hegoumenos, isto é, líder, chefe, e os romanos dux. No entanto, o nome de regnator (rei), e principe,também foram referidos. O hospitium, em que adoptavam-se estranhos na comunidade, é também considerado um costume dos lusitanos.

Apiano revela a existência de uma propriedade comunitária, que para além de terras incluía cavalos, produtos agrícolas e diversos outros bens comunitários incluindo um tesouro público, do qual fala Diodoro. Esta propriedade comunitária deveria de coexistir a par da propriedade privada. Os lusitanos eram um povo autónomo (grego: αὐτονόμων), com leis próprias.

Os lusitanos tinham o hábito de frequentar salas onde iam untar o corpo com óleos duas vezes ao dia, tomavam banhos de vapor que emanavam de pedras aquecidas. Lançavam água sobre pedras ao rubro e tomavam em seguida um banho frio. Os balneários eram decorados com gravuras em baixo relevo, como indicam os monólitos Pedra Formosa encontrados em sítios arqueológicos castrejos. Estrabão comenta que viviam de uma maneira simples e limpa semelhante à dos lacedemônios.

As refeições em que os Lusitanos se juntavam, apenas uma vez por dia, tinham lugar numa sala onde sentavam-se em bancos móveis, encostados à volta das paredes da sala. A disposição dos bancos obedecia a uma hierarquia que colocava na frente os de mais idade e seguia uma ordem consoante a posição social.
Motivos Castrejos
O alimento mais característico era o pão de bolota ou glande de carvalho; bebiam leite de cabra e cerveja de cevada, reservando o vinho para as festas, com uma produção desde a época pré-romana.

Caça, pesca (usavam barcos feitos de couro ou pirogas de madeira para navegação dos rios), produção de gado bovino e equino, produção de mel e lã, assim como trigo, cevada, linho e mineração, eram actividades referenciadas.

O custo de vida era muito barato, no século II A.C., os produtos de pesca, ovinos, caprinos e agrícolas abundantes e as peças de caça eram dadas de graça a quem comprava alguns destes produtos.

O escambo era usado nas regiões do interior, onde também usavam peças cortadas de prata batida como dinheiro. Os homens vestiam-se de preto e usavam capas simples, as mulheres capas compridas e vestidos de cores vivas. Os homens usavam os cabelos compridos, como as mulheres, mas que prendiam à volta da testa quando combatiam. Eram tipicamente monogâmicos, casavam-se em cerimónias com rituais semelhantes aos dos gregos.

Culto Religioso

Os lusitanos praticavam sacrifícios humanos e, quando o sacerdote feria o prisioneiro no ventre, faziam-se vaticínios segundo a maneira como a vítima caía. Sacrificavam a Ares, deus da guerra, não só prisioneiros, como igualmente cavalos e bodes. Os sacerdotes, a quem Estrabão chama dehieroskópos, segundo a hipótese de alguns autores, fariam parte de um grupo de pessoas reconhecidas pelo seu prestígio, sabedoria e experiência.

Cabeça Cortada Castreja
Os locais de culto funerários, de grande interesse para os arqueólogos, encontram-se por todo o território da antiga Lusitânia. 

Do período paleolítico, conhecem-se cemitérios onde os corpos estavam dispostos com restos de alimentos, utensílios e armas; do megalítico abundam os dólmens, conhecidos em Portugal como antas ou mamoas - porque os montículos de terra que se acumularam sobre eles criaram essa forma arredondada.

Os santuários eram erigidos nas massas rochosas de locais com certo domínio da paisagem, à beira de cursos de água ou junto a montes. 

Nestes santuários encontram-se cadeirões de pedra, pias e altares, como no Castelo do Mau Vizinho, no Santuário da Rocha da Mina, no Cadeirão da Quinta do Pé do Coelho, ou no Penedo dos Mouros.

Também na área lusitana verifica-se a presença de estátuas chamadas berrões, que assume-se terem sido utilizadas para fins de carácter religioso. Supõe-se que seriam animais sagrados.

Mapa dos Povos Pre-romanos
Os lusitanos eram um povo guerreiro e agrário. A minas no território hispânico davam-lhes o ferro que servia para os seus instrumentos de guerra, sobretudo as compridas lanças, que não poupavam o inimigo. Foi assim, como um povo guerreiro e agrário, que conseguiram dominar a quase totalidade da Península Hispânica.

Era gente aguerrida, formando tribos sem coesão política e que escolhia povoações fortificadas, vivendo do pastoreio e da agricultura. Cultivavam o vinho, o trigo e a cevada, dedicando-se também à pesca. Fabricavam o pão com landes torradas, obtinham a cerveja com base na cevada, alimentavam-se de carne de cabra, usavam a manteiga em vez de azeite.


Estrabão escreveu que os lusitanos eram "a mais poderosa das nações ibéricas e que, entre todas, por mais tempo deteve as armas romanas". Disse também que os lusitanos eram sóbrios e frugais, bebendo só água, cerveja de cevada e leite de cabra. Dormiam deitados no chão. Usavam cabelos compridos como as mulheres, untavam-se com azeite e celebravam jogos vários de destreza física. Fabricavam pão de farinha de glandes de carvalho. Só bebiam vinho em festins. O vestuário dos homens era preto e de lã grosseira ou pelo de cabra.

Sacrificavam aos deuses e consultavam as entranhas humanas em prisioneiros, aos quais cortavam muitas vezes a mão direita. Os criminosos condenados à morte eram despenhados em precipícios, os parricidas lapidados. Casavam à maneira dos gregos. Tito Lívio escreveu que os lusitanos fizeram parte do exército cartaginês de Aníbal que invadiu a Itália ( 218 A.C. ). Diodoro, Possidónio, Plínio, Apiano, Plutarco, etc., escreveram sobre os lusitanos.


(Condensado da Enciclopédia Portuguesa-Brasileira) 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A figura de Viriato




Viriato Herói Ibérico

«Quando ainda não existiam os reinos medievais com as suas peculiaridades nem os Estados modernos com a sua história nacional, Portugal e Espanha constituíam um todo, uma paisagem e uma mesma gente capaz de fazer da Península a sua casa e de enfrentar junta as intempéries e formas de vida extremamente duras. à margem de fronteiras, estabelecidas ao acaso com o passar dos séculos ou o esquadro da política, a história portuguesa e espanhola era então - e foi até à entrada na Idade Média - uma única história peninsular.»


( História de Espanha por Fernando G. de Cortázar e José Manuel G. Vesga ) 

Quem era Viriato?



Viriato é citado por Diodoro ( XXXIII ) que diz que Viriato "nascera na Lusitânia, cerca do Oceano", talvez na região de Estremadura, entre o Tejo e o Douro, e, como pastor que era, filho da montanha, possivelmente oriundo da Serra da Estrela ( Mons Herminius ). Dizem os seus antigos biógrafos, como Orósio, Diodoro, Lívio e outros, que Viriato, na sua mocidade, apascentara rebanhos e fora caçador,

Em seguida fizera-se bandoleiro; depois, mais audaz que outros, foi capitão de ladrões de estrada, cujo bando praticava, simultânemante com outros bandos semelhantes, frequentes assaltos, saqueando os povoados das regiões mais ricas das planícies do Sul; e finalmente, como chefe do exército lusitano, fora o terror dos Romanos. 

Lucílio chamou-lhe o "Aníbal bárbaro", igualando o seu génio militar ao do grande general cartaginês. A sua estratégia foi a luta de guerrilhas muito popular com os guerreiros hispanos, mas usada por Viriato não já só para a defensiva, como também para o ataque.

O Aparecimento de Viriato


Viriato aparece na História, quando em 147 AC se opôe a rendição dos lusitanos a Caio Vetílio, que os tinha cercado no vale de Betis , na Turdetânia. Viriato lembra aos seus companheiro a traição anterior de Galba, em que mais de 30.000 lusitanos foram assassinados, homens , mulheres e crianças e outros foram vendidos como escravos nas Gálias. 

Demonstrou-lhes que os romanos eram inimigos falsos, sem palavra e que já os haviam atraiçoado miseravelmente, conseguindo assim convencê-los, e é eleito chefe. 

Derrota os romanos no desfiladeiro de Ronda, que separa a planície do Guadalquivir da costa marítima da Andaluzia, fazendo nas fileiras inimigas uma espantosa chacina, tendo sido morto o próprio Vetílio. Seguidamente os lusitanos destroçam as tropas de Cayo Pláucio, tomando Segóbriga e as de Cláudio Unimano, que em 146 AC era o governador da Hispânia Citerior. Em 145 AC os lusitanos voltam a derrotar as tropas romanas de Caio Nígidio.

Em 145 AC Quinto Fábio Máximo, irmão de Cipião "O Africano" é nomeado cônsul na Hispania Citerior e é encarregado da campanha contra Viriato ao comando de duas legiôes. Ao princípio tem algum êxito mas Viriato recupera e em 143-142 AC volta a derrotar os romanos em Baecula e obriga-os a refugiar-se em Córdova.

Simultaneamente, seguindo o exemplo do chefe lusitano, as tribos celtibéricas revoltavam-se contra as prepotências romanas, acendendo uma luta que só terminaria em 133 AC com a queda de Numância.

Em 140 AC Viriato derrota o novo cônsul Fábio Máximo Servilliano, matando mais de 3.000 romanos, encurralando o inimigo e podendo destroçá-lo, mas deixou Servilliano libertar-se da posição desastrosa em que se encontrava, em troca de promessas e garantias de os Lusitanos conservarem o território que haviam conquistado. Em Roma esse tratado de paz foi depois considerado humilhante e vexatório e o Senado romano volta atrás, e declara-lhe guerra.


Morte de Viriato em 140 AC assassinado por Audax, Ditalkon e Minuro
Viriato tinha agora um exército desfalcado e fatigado das lutas. Apagava-se a sua estrela. O novo governador Quinto Servílio Cipião reforçado com tropas de Popílio Lenas, dispunha de forças muito superiores. 


Viriato em Zamora
Viriato foi compelido a pedir a paz, tendo que entregar aos romanos os principais revoltosos. Enviou a Servílio três emissários, Audax, Ditalkon e Minuros, que Viriato considerava dos seus melhores amigos.

Estes foram subornados por Servílio que lhes prometeu honras e dinheiro em troca do assassinato do seu chefe. 

Estes assim procederam, e o glorioso caudilho foi por eles morto quando se encontrava a dormir na sua tenda.

Os Portugueses de hoje consideram este seu remoto antepassado lusitano uma das mais belas e sugestivas figuras simbólicas do espírito de independência, de estóica heroicidade e de sacrifício total pelas liberdades pátrias. 

Em 1940 foi erigida em Viseu uma estátua à memória de Viriato. 

A Espanha considera também Viriato ( e está no certo, pois Viriato é um herói hispano muito anterior à formação das nacionalidades ibéricas ) como seu antepassado, e já tinha anteriormente feito o mesmo, erguendo-lhe uma estátua em Zamora, que contem na sua base a sugestiva legenda: 

                                                      TERROR ROMANORUM.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A Batalha de São Mamede - 1128

Motivos da batalha

Após a morte de D. Henrique, em 1112, fica D. Teresa a governar o condado, pois achava que este lhe pertencia por direito, mais do que a outrem, já que lhe tinha sido dado por seu pai na altura do casamento. Associou ao governo o conde galego Bermudo Peres de Trava e o seu irmão Fernão Peres de Trava. Terá até talvez casado em segundas núpcias com Bermudo, do qual terá tido uma filha.


A crescente influência dos condes galegos no governo do condado Portucalense levou à revolta verificada em 1128, protagonizada pela grande maioria dos infanções do Entre Douro e Minho. Estes escolheram para seu caudilho, D. Afonso Henriques, filho de D. Henrique e de D. Teresa.
  1. "A Galiza, incluindo debaixo desta denominação a extensa província portugalense e que naturalmente se devia considerar como incorporado o território novamente adquirido ao Garb muçulmano, constituía já um vasto estado remoto do centro da monarquia leonesa. 

    Os condes que dominavam os distritos em que esse largo tracto de terra se dividia ficavam assaz poderosos para facilmente se possuírem das ideias de independência e rebelião comuns naquele tempo, tanto entre os sarracenos como entre os cristãos. Afonso VI pôde evitar esse risco convertendo toda a Galiza, na mais extensa significação desta palavra, em um grande senhorio, cujo governo entregou a um membro da sua família (...)"

(História de Portugal de Alexandre Herculano)


Batalha de São Mamede

Na batalha de São Mamede defrontam-se os exércitos do conde Fernão Peres de Trava e o dos barões portucalenses. Estes últimos quando venceram Fernão Peres pretendiam apenas obriga-lo a ceder o governo do condado portucalense ao príncipe herdeiro.

A intervenção dos barões portucalenses, liderada pelos senhores de Sousa e de Ribadouro, resultava de um longo percurso, ao longo do qual as linhagens de Entre Douro e Minho tinham solidificado o poder que exerciam na região. Pretendiam, como desde o tempo da condessa Mumadona Dias ocupar um lugar que não estivesse subordinado a ninguém, a não ser uma autoridade local em serviço dos seus interesses. O jovem herdeiro do condado servia exactamente a essa pretensão. Após a vitória Afonso Henriques tomou a autoridade com todo o vigor.

Afonso VII de Leão, ocupado com as vicissitudes da política leonesa, não atribui importância a esta mudança de poder no condado, e limita-se a aceitar o preito de fidelidade de D. Afonso Henriques em 1137. Porque isso contribuía para engrandecer o prestígio do imperador Afonso VII, a chancelaria leonesa não hesita em atribuir o título de rei ao príncipe português. Podia assim Afonso VII afirmar a sua condição de imperador, o qual tem reis por vassalos.

Entre os pricipais barões portucalenses que participaram na batalha de São Mamede ao lado de D. Afonso Henriques, estão Soeiro Mendes de Sousa «O Grosso» (1121-1137), Gonçalo Mendes de Sousa «Sousão» (1154-1167), Egas Moniz de Ribadouro «O Aio» (1108-1146), Gonçalo Mendes da Maia «O Lidador» e outros.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

A Conquista de Malaca

A Conquista de Malaca
Veja este site também em http://es.geocities.com/atoleiros


Afonso de Albuquerque

 Condensado de página da NET de José Martins
O  mercado de Malaca, por séculos, foi absorvido pelos árabes que através das rotas do Golfo Pérsico, Mar Vermelho e depois por terra abasteceram os mercados, tradicionais do Norte de África, Veneza, Piza e Génova em Itália. Empórios que deixaram de ter qualquer significado, mercantil, após os portugueses terem chamado a si o abastecimento das "coisas" da Ásia a toda a Europa.

Dez anos depois da chegada dos portugueses ao Oriente, parte do comércio da Índia já era dominado pela Coroa Portuguesa e bem conhecidas as riquezas de Malaca. Porém falta, apenas, explorar as costas do Coramandel e as da ilha de Ceilão.

São úteis e vitais para o bom sucesso da expansão e conquista do comércio oriental todas as informações, sobre os portos e rotas obtidas das tripulações muçulmanas que por inocência ou dinheiro as revelavam. Estavam longe de suspeitar, os muçulmanos, que o objectivo dos portugueses seria arrebatar-lhes o secular, monopólio, do comércio da praça de Malaca.

D. Manuel I vai recebendo, chegadas a Lisboa, as mensagens credíveis dos comandantes das caravelas que navegam de Cochim (Índia) também chamada a "terra da pimenta", da imponência, esplendorosa de Malaca. O Rei Venturoso, sonha, animado pelo espírito do Infante D. Henrique e pretende a todo o custo transformar um Portugal (flagelado pela peste e fome) numa potência económica da Europa.
Em Abril de 1508 uma esquadra naval, sob o comando de Diogo Lopes Soares de Sequeira passa a Barra do Tejo com destino a Malaca. Atraca, primeiro na Ilha de Sumatra, implanta um Padrão na cidade de Pedir, outro em Pecém e a sua frota de naus está ancorada no porto de Malaca no dia 11 de Setembro de 1509

Diogo Lopes Sequeira regressa a Lisboa, sem trazer a boa-nova a D. Manuel I que Malaca já era praça de Portugal. Deixou, pela má sorte, alguns portugueses prisioneiros. Entre os quais está Duarte Fernandes que viria ser o primeiro português a pisar terra siamesa. Fernandes, durante dois anos de detenção, aprendeu a língua malaia, granjeou do Sultão a simpatia que será estendida aos seus companheiros de cárcere. Com isto viria a gozar a total liberdade de movimentação.
Afonso de Albuquerque, finalmente, é o senhor de Goa. O indomável guerreiro e exímio diplomata, prepara uma armada naval e parte para Malaca, com o propósito de a conquistar. Dá-lhe o primeiro assalto em 1511 e arrebata-a. Envia, como emissário, à cidade de AyuthayaDuarte Fernandes para informar o Rei do Sião que Malaca tinha sido conquistada. Fernandes é portador de uma espada, e guarnecida de ouro e diamantes incrustados para presentear o monarca siamês. Foi bem acolhido pelo Rei Rama Thibodi II.
Afonso de Albuquerque, homem intrépido, e de uma metodologia impressionante (que vamos encontrar nas suasCarta a El-Rei de Portugal), nos seus cálculos, para firmar o poderia de Portugal na Ásia, não poderia desistir de conquistar Malaca. 
 
Segundo o historiador John Villiers, num artigo seu, publicado na monografia "Portugal e a Tailândia" - Fundação Calouste Gulbenkian 1988 - relata
 
» Nessa altura, o reino de Sião ainda reclamava a soberania sobre Malaca e Albuquerque, quando planeava atacar este porto, procurou uma aliança com o rei Rama Thibodi II de Ayuthaya (1491-1529), oferecendo-lhe soberania directa sobre todos os territórios governados pelo sultão de Malaca caso o ataque fosse bem sucedido. Para este efeito, enviou Duarte Fernandes (que viera para Malaca em 1509 como oficial da frota portuguesa comandada por Diogo Lopes Sequeira e que falava um pouco de tailandês) a Ayuthaya, onde lhe foi concedida uma audiência com o Rei Rama Thibodi II, na qual este foi presenteado com uma espada cuja bainha era de ouro incrustada com diamantes.
O Rei do Sião, apesar de não manifestar qualquer oposição ao ataque dos portugueses a Malaca, mostrou pouco interesse na proposta da aliança. Deste modo Albuquerque atacou e tomou sózinho a cidade. No entanto, após a conquista, não perdeu tempo a mandar novas embaixadas a Ayuthaya. Em 1512 enviou António Miranda de Azevedo, tendo este permanecido no Sião durante dois anos, regressando a Goa acompanhado de um enviado tailandês portador de uma carta de amizade de Rama Tibodi II para Rei D. Manuel I de Portugal.
Conquista de Malaca
Em 1516, Duarte Coelho deslocou-se a Ayuthaya como enviado do governador de Malaca, tendo concluído o primeiro tratado de aliança e comércio entre o Sião e Portugal. Nos termos do tratado de 1516, os portugueses acordaram em fornecer armas e munições ao Sião em troca da autorização do estabelecimento de feitorias comerciais em Ayuthaya, Ligor, Patani, Tenassarim e Mergui. Também lhes foi concedida a liberdade de culto religioso e, deste modo, pouco tardou a que construíssem uma igreja em Ayuthaya, vindo aí a trabalhar padres missionários. Em comemoração da conclusão do tratado e como marca da possessão de uma nova colónia na capital, Duarte Coelho foi autorizado a erigir um padrão".
 
O sistema de defesa do Reino do Sião, antes dos portugueses encetarem o relacionamento diplomático, era de certo modo bastante obsoleto e, praticamente, as armas de fogo desconhecidas. Nas batalhas a luta era efectuada de lutas corpo-a-corpo, no terreno, ou no dorso de elefantes. As armas de defesa eram facas, espadas e as pontas de lança forjadas no ferro que recebiam a têmpera para lhes dar resistência.»
 
Representam assim os portugueses um papel importante e primordial na defesa do reino do Sião, ensinando os siameses no manuseamento das armas de fogo, como na arte de as construir.
 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A Conquista de Silves


A Conquista de Silves
Veja este site também em http://es.geocities.com/atoleiros
Resumo
 
A 15 de Julho de 1189, era rei de Portugal D. Sancho I, a hoste do alferes-mor D. Mendo de Sousa, chega diante de Silves, levanta acampamento e começa no dia seguinte os trabalhos preliminares do cerco. E logo que a larga fila de navios (galés portuguesas e frota de Cruzados), subindo o rio, ancora diante da praça de Silves, D. Mendo de Sousa propõe aos chefes Cruzados um assalto de surpresa às muralhas.
 






A proposta de D. Mendo foi aceite. Este ataque foi tão forte, que os Mouros, tomados pelo pânico, abandonaram as muralhas refugiando-se na almedina, seu último refúgio.
 
Na madrugada seguinte, os cristãos fazem uma nova investida contra os Mouros, tentando conquistar a almedina. O ataque fracassou e os Cristãos retrocederam, aproveitando a pausa para se reorganizar e reconstruir as máquinas de guerra.

Com a chegada da hoste real com D. Sancho, a 29, começou o assédio em força. Um novo ataque foi realizado, e mais uma vez os Mouros refugiaram-se na almedina e não se deixaram vencer.

Durante dias, o desalento, a impaciência, a fadiga desmoralizaram os Cruzados. Pensou-se em levantar o cerco. D. Sancho, obstinado, impôs a sua autoridade real. Os Cruzados, por fim, submeteram-se e resolveram prolongar o cerco.
Por fim, a 3 de Setembro de 1189, morta toda a esperança, os Mouros, exaustos, capitularam.
 
História da batalha
 
Decidido o ataque, o alferes-mor D. Mendo de Sousa, o Sousão, é enviado por terra, à frente da grossa hoste, em guarda avançada, para reconhecer os caminhos e a praça. Entretanto voltavam do sul as galés portuguesas que, agregadas à frota de cruzados, para lá se tornaram a  dirigir.
 
Só então D. Sancho, com as mesnadas dos bispos de Caminha e Porto, alguns esquadrões do Templo, do Hospital e de freires de Calatrava e numerosa peonagem e cavalaria dos concelhos, marcha pelo Alentejo contra Silves.

A 15 de Julho de 1189 a hoste de Sousão chega diante de Silves, que levanta acampamento e começa no dia seguinte os trabalhos preliminares do cerco. Dias depois, a 20, surge à barra de Portimão a frota aliada, começando pelas habituais assolações às povoações ribeirinhas dos mouros.
E logo que a larga fila de navios, subindo o rio, ancora diante da praça de Silves, D. Mendo de Sousa propõe aos chefes cruzados um assalto de surpresa às muralhas.
 

silves.jpg (23358 bytes)

Silves
Mais opulenta e forte que Lisboa, a praça de Silves constava da cidade velha (almedina), localizada em sítio alto e muralhado, coroada ao alto pela soberba alcáçova, e da cidade baixa, nos seus subúrbios, delimitada por um cerca exterior de muralhas e torres, cuja maciça albarrã dominava toda a campina.
Uma forte couraça de estrada coberta ligava, pela encosta, as muralhas da sobranceira almedina com a torre albarracã da cerca, em baixo.
Largos fossos rodeavam de água toda a cinta de muralhas dos subúrbios. Aceite a proposta de Sousão, no dia seguinte deu-se o assalto de surpresa às muralhas dos subúrbios.
 

Tão impetuoso foi, tão furiosamente os cruzados se lançaram aos fossos e ergueram as escadas, sob a tempestade de setas, pedradas e balas incendiárias vomitadas das ameias, que os mouros, tomados pelo pânico, abandonaram as muralhas, a cidade baixa, e refugiaram-se na almedina, seu último refúgio.
Todo o subúrbio foi ocupado nesse mesmo dia pelos cristãos que, excitados pela fácil vitória, no dia seguinte, ao romper da madrugada, se arrojaram também contra as muralhas da própria almedina para a levarem à escala. Não foi tão feliz essa segunda investida, porque, apesar das descargas de flechas que lhes protegia o assalto, por toda a cinta de muralhas foram os cruzados repelidos com graves perdas.
 
Ao cair da noite, desistiram; e lançado fogo aos subúrbios, abandonaram-nos e recolheram-se ao acampamento, para começarem o assédio regular, assim que D. Sancho tivesse chegado. Entretanto aproveitariam o tempo para construir e montar as necessárias máquinas de guerra - arietes, catapultas, manteletes, um monstruoso erício dos alemães. Com a chegada da hoste real, a 29, começou o assédio em forma.
Cerrou-se então o cerco, por mar e por terra; prepararam-se as máquinas de guerra. De novo nos subúrbios, os mouros provocavam, do alto das muralhas, o furor dos cristãos com insultos e crueldades. Decresceram de ritmo os combates para que os sapadores pudessem cobrir de minas a base das muralhas. Duas catapultas comandadas por D. Sancho e o monstruoso erício de pontas de aço, montado pelos alemães, atacaram sem cessar, durante dias, a maciça muralha. Por fim, o incêndio, devorando as escoras das minas, fez aluir uma torre e parte das muralhas.
 
Os cristãos precipitaram-se na brecha, forçando em breve os mouros a refugiarem-se parte na almedina, parte na albarrã. A torre albarrã, em baixo, logo atacada, em breve caiu também. O poço de água que abastecia a praça foi logo entulhado. À brutalidade dos golpes ia juntar-se também os horrores da sede. E novamente senhores dos subúrbios, pela segunda vez os cruzados se arrojaram sobre a almedina para a levarem à escala viva; mas pela segunda vez, apesar da sede, apesar das febres, apesar do tórrido céu de Verão, os heróicos defensores da praça por toda a parte repeliram a feroz escalada.

Um tanto desanimados, voltaram os assaltantes ao repor das minas contra as muralhas do castelo. Mas, uma saída feliz dos sitiados inutilizou as minas. D. Sancho, enervado já com a valorosa resistência, dá ordem de assalto geral a 18 de Agosto. Ainda, mais uma vez, o heroísmo dos sitiados, a aspereza da encosta e o incêndio da lenha que entulhava os fossos fizeram malograr em toda a linha a nova investida. 
 Durante dias, o desalento, a impaciência, a fadiga desmoralizaram os cruzados. Pensou-se em levantar o cerco. D. Sancho, obstinado, impôs a sua autoridade real. Por um pouco estiveram para vir às mãos em sangrentas rixas os louros gigantes do norte e os trigueiros homens do sul. Na praça a situação dos sitiados (soube-se por um desertor) era atroz.
 
Mastigava-se barro para humedecer a boca. Havia mães que esmagavam o crânio dos filhos contra as paredes para os não verem sofrer. ( Sente-se o Oliveira Martins ) Do inclemente céu não caía gota de água. E de África nem promessas de auxílio, nem quaisquer notícias.
 
Os cruzados, por fim, submeteram-se e resolveram prolongar o cerco. Voltou-se ao moroso mas seguro sistema das minas. Mas os mouros, engenheiros hábeis, contra-minaram. As galerias cruzavam-se, entrecortavam-se, rompiam-se. Os ferozes combates à luz do dia transportaram-se para o coração da terra. Os sapadores cristãos e mouros, ardendo de febre, em ódio, chacinavam-se ali na treva, como trágicas toupeiras.
 
Por fim, a 3 de Setembro de 1189, morta toda a esperança, os mouros, exaustos, capitularam.
 
( Condensado de terravista.pt/ancora/1627 - Site que se recomenda por informação sobre Batalhas de Portugal )

Comentário - Apesar de todo esta luta e sofrimento para cristãos e muçulmanos, Silves que já tinha sido anteriormente conquistada por Fernando Magno de Leão em 1060 e depois perdida, volta a caír nas mãos dos árabes em Abril de 1191, conquistada por Ibne Juçufe. Tinha durado pouco o título que D. Sancho I tinha adoptado de :" Sancius, Dei Gratia, Portugallis Rex, Silvis et Algarbii Rex".
Parece que cruzados alemães a voltaram a tomar em 1198, voltou a ser perdida e só foi definitivamente reconquistada para Portugal em 1240, já no reinado de D. Sancho II, por D. Paio Peres Correia mestre da Ordem de San´Tiago que num golpe de sorte, aproveitando a saída das tropas de Almansor, que tinha abandonado a cidade, deixando-a indefesa, para atacar Estombar.
Nessa refrega o próprio Almansor depois de derrotado, procura fugir, morre afogado num pego dos arredores de Portimão, que durante muito tempo foi conhecido pelo «pego de Almansor». Esta segunda conquista de Silves e de todo o Algarve, entrou mais facilmente do que a primeira, nos domínios da lenda e fantasia para escritores e poetas.
 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Rainhas de Portugal - Dinastia de Borgonha

D. Mafalda - Matilde ou Mahaut ( 1125 - 1157 ) - D. Afonso Henriques

Também conhecida como D. Matilde condessa de Sabóia e Maurienne. Primeira rainha de Portugal, mulher de D. Afonso Henriques, com quem casou em 1145. Era filha de Amadeu II, conde de Sabóia e Piemonte, vassalo do imperador romano - germânico e da condessa Mafalda de Albon. Morreu em 1157.

O casamento de D. Afonso Henriques correspondeu a um desejo de estabelecer relações fora da órbita de Castela, nomeadamente com os condados da Sabóia e da Borgonha, num esforço de afirmação de independência política. Teve 7 filhos : Henrique, Mafalda. João, Sancha, D. Sancho I, Urraca e Matilde.

D. Dulce de Aragão - D. Sancho I



Rainha de Portugal, filha da rainha de Aragão e do conde de Barcelona, sabe-se que nasceu após 1152. Esposa de D. Sancho I, teve mais de onze filhos. Não se conservam informações seguras acerca da sua vida. Também a data do seu casamento é incerta, pensando-se que este deverá ter ocorrido por volta de 1175.

Morreu em Coimbra, em 1198, tendo sido sepultada no mosteiro de Santa Cruz, na mesma cidade. Teve 11 filhos : Beata Teresa, Constança, Beata Mafalda, Henrique, Pedro, Raimundo, Sancha, Branca, D. Afonso II, Berengária e Fernando. 

D. Urraca de Castela - Afonso II

Rainha de Portugal, filha de D. Afonso VII de Castela, casou em 1208 ou 1209 com o então futuro rei de Portugal, D. Afonso II. Morreu em 1220.

O enlace não decorreu de modo pacífico, já que o bispo do Porto, D. Martinho Rodrigues, considerando que os noivos eram parentes, se recusou a participar nas cerimónias e a recebê-los na cidade do Porto, provocando deste modo uma acesa cadeia de lutas entre o clero e o rei.

 É atribuído a D. Urraca um papel importante no estabelecimento da Ordem de São Francisco em Portugal. D. Urraca teve cinco filhos de D. Afonso II, entre os quais o futuro rei D. Sancho II. Teve 5 filhos : Leonor, D.Sancho II, Fernando e Afonso III.



D. Mécia Lopes de Haro - D. Sancho II


D. Mécia Lopes de Haro (ou Mécia Lopez de Haro) (Nasceu em Biscaia, c. 1215 - Palência, c. 1270) foi uma dama leoneso-biscaínha, que pelo seu casamento com D. Sancho II terá sidorainha de Portugal.

Mécia Lopes de Haro era filha de Urraca de Leão, bastarda de Inês Iniguez de Mendonza e de Afonso IX de Leão, e de Lopo Dias de Haro.

Descendia, por via da mãe, Urraca Afonso, do primeiro rei português, D. Afonso Henriques, pois o seu avô materno, o rei Afonso IX de Leão era filho de Urraca de Portugal e, portanto, era neto materno de Afonso I de Portugal e de Mafalda de Sabóia. Seu pai foi Lopo Dias de Haro, senhor da Biscaia, filho de Maria Manrique de Lara e de Diogo Lopes de Haro, 10º senhor de Biscaia.

Casou-se em primeiras núpcias com Álvaro Perez de Castro, e mais tarde, cerca de 1239, com o rei português D. Sancho II, filho de Afonso II de Portugal e de Urraca de Castela.

Como era estéril, não gerou filhos nem do primeiro, nem do segundo marido. Foi pomo de discórdia durante a guerra civil que viria a depor o rei português; considerada rainha maldita, foi acusada de dominar o espírito fraco do rei, tendo sido raptada  por nobres afectos ao conde de BolonhaD. Afonsoe levada para o paço real de Vila Nova de Ourém.

De resto, aquando da deposição do rei pela bula de 1245 do Papa Inocêncio IV, no Concílio de Leão, que declara que o seu casamento não é canónico, por não haver tido a dispensa legal requerida entre parentes próximos (como era o caso).Sancho, assim humilhado, acabou por se recolher ao exílio em Toledo, onde viria a falecer.

Pouco mais se sabe da sua vida após a morte do rei D. Sancho. D. Mécia Lopes de Haro esteve na origem da Lenda daDama Pé-de-Cabra, compilada por Alexandre Herculano nas suas Lendas e Narrativas

Matilde de Bolonha - D. Afonso III

Condessa de Bolonha, casou em 1238 com o príncipe D. Afonso de Portugal, que assim adquiriu o título de conde de Bolonha, tornando-se vassalo do rei de França, Luís IX.

A incapacidade política de seu irmão, o rei D. Sancho II, levou D. Afonso a reclamar o poder em 1245. Depois da morte de Sancho II, em 1248, D. Afonso foi aclamado rei de Portugal. O casamento ilegítimo de D. Afonso III com D. Beatriz, filha de Afonso X de Castela, em 1253, na sequência do tratado de paz entre os dois Reinos, levou a condessa de Bolonha a queixar-se ao papa. 


Beatriz de Castela - D. Afonso III

Beatriz de Castela e Gusmão ou Beatriz de Castilla y Guzman, em castelhano. Nasceu em Saragoça, reino de Aragão, em 1242 e faleceu a 27 de Outubro de 1303. Foi uma infanta de Castela, rainha de Portugal entre 1253 e 1279 e rainha-mãe de 1279 a 1303.


Era filha do rei Afonso X de Leão e Castela, o Sábio (que mais tarde tornar-se-ia tambémSacro Imperador Romano-Germânico, e de Maior Guillen de Guzmán, por isso neta materna de D. Maior Gonzalez Giron e de D. Guillén Peréz de Guzman, e meia-irmã do rei Sancho IV de Castela

Em 1253 o rei D. Afonso III de Portugal repudiou a sua primeira esposa Matilde de Bolonha, devido a esta não lhe poder dar um herdeiro para o trono português, e casou-se com Beatriz de Gusmão. D. Afonso era primo direito do avô de Beatriz, Fernando III de Leão e Castela, uma vez que a mãe de Fernando, a infanta Berengária de Castela, era irmã da rainha D. Urraca de Castela, esposa de Afonso II de Portugal e mãe de Afonso III.


As rainhas de Portugal contaram, desde muito cedo, com os rendimentos de bens, adquiridos, na sua grande maioria, por doação. D. Beatriz de Gusmão deteve, por doação deste último, Torres NovasAlenquer, e posteriormente o respectivo padroado.

Beatriz de Castela faleceu em 27 de Outubro de 1303, com 61 anos, e está sepultada no Mosteiro de Alcobaça. Teve 7 filhos, Branca, D. Dinis, Afonso, Vicente, Fernando, Sancha, Maria.

Isabel de Aragão (Santa Isabel) - D. Dinis

Isabel de Portugal (M. Prado)

Isabel de Aragão OSC ( Saragoça, 4 de Janeiro de 1271 — Estremoz, 4 de Julho de 1336), foi uma infanta aragonesa e, de 1282 até 1325, rainha consorte de Portugal. Ficou para a história com a fama de santa, tendo sido beatificada e, posteriormente, canonizada. Ficou popularmente conhecida como Rainha Santa Isabel ou, simplesmente, A Rainha Santa.

Isabel era a filha mais velha do rei Pedro III de Aragão e de Constança de Hohenstaufen, princesa da Sicília. Por via materna, era descendente deFrederico II, Sacro Imperador Romano-Germânico, pois o seu avô materno eraManfredo de Hohhenstaufen, rei da Sicília, filho de Frederico II.

Teve cinco irmãos, entre os quais os reis aragoneses Afonso III e Jaime II, eFrederico II da Sicília. Para além disso, foi sobrinha materna de Santa Isabel da Hungria, também considerada santa pela Igreja Católica.



D. Dinis I de Portugal tinha 19 anos quando subiu ao trono e, pensando em casamento, convinha-lhe Isabel de Aragão, tendo por isso enviado uma embaixada a Pedro de Aragão em 1280. Formavam-na João Velho, João Martins e Vasco Pires. Quando lá chegaram, estavam ainda à espera de resposta enviados dos reis de França e de Inglaterra, cada um desejoso de casar com Isabel um dos seus filhos. Aragão preferiu entre os pretendentes aquele que já era rei.


D. Beatriz de Molina e Castela - D. Afonso IV

Rainha de Portugal. Nasceu em 1293 e faleceu em Lisboa a 25 de Outubro de 1359. Era filha deD. Sancho IV e de D. Maria, reis de Castela, casou a 12 de Setembro de 1309 com D. Afonso IV. D. Beatriz teve um importante papel na resolução do conflito entre o marido e o filho D. Pedro, após o assassinato de D. Inês de Castro, em 1355, evitando o encontro militar entre ambos, e conseguindo a sua reconciliação no acordo, celebrado em Canaveses, naquele mesmo ano. Faleceu em Lisboa no ano de 1359, tendo sido sepultada ao lado de seu marido, na capela-mor da Sé de Lisboa.

Beatriz era filha do rei Sancho IV de Castela e de Maria de Molina. Teve seis irmãos, entre os quais o rei Fernando IV de Castela, e Isabel (duquesa da Bretanha pelo seu casamento com João III da Bretanha). Em 12 de Setembro de 1309 casou-se com o herdeiro do trono português, o qual ascendeu ao poder em 1325 como D. Afonso IV.

As rainhas de Portugal contaram, desde muito cedo, com os rendimentos de bens, adquiridos, na sua grande maioria, por doação. De D. Dinis recebeu, como dote, Évora, Vila Viçosa, Vila Real, Gaia e Vila Nova, estas duas últimas trocadas por Sintra em 1334. Dispunha ainda de herdades em Santarém e da lezíria da Atalaia (1337) e, através de mercê se seu filho (D. Pedro) de Torres Novas (1357). Teve 6 filhos: Maria ( Depois Maria de Castela com Afonso XI ), Afonso, Dinis, Isabel,D.Pedro I, João Leonor ( Depois Leonor de Aragão com Pedro IV )

D. Constança Manuel - D. Pedro I

Rainha portuguesa por casamento com D. Pedro I (na altura, ainda príncipe). Anteriormente noiva de Afonso XI, rei de Castela, foi recusada por este, que a manteve como refém contra a possível retaliação do pai de D. Constança.D. Pedro, sem filhos da sua primeira mulher, escolheu-a então para sua consorte, mas o rei castelhano não a libertou. Este episódio levou a uma guerra entre os dois Reinos, que terminaria em 1340.Casada desde 1336, por procuração, D. Constança só nessa data pôde deslocar-se para Portugal, trazendo no seu séquito D. Inês de Castro, com quem D. Pedro viria a ter um romance ainda antes da morte da esposa 

O casamento com a presença dos dois noivos foi então celebrado em Lisboa, a 24 de Agosto de 1339. As rainhas de Portugal contaram, desde cedo, com os rendimentos de bens adquiridos, na maioria, por doação. D. Constança recebeu como dote as vilas deMontemor-o-Novo, Alenquer e ViseuTeve 3 filhos: D. Fernando I, Luís e Maria.. 

D. Leonor Teles - D. Fernando


Rainha de Portugal, era filha de Martim Afonso Telo de Meneses e de D. Aldonsa de Vasconcelos. Casou muito nova com João Lourenço da Cunha, senhor de Pombeiro, de quem teve um filho, Álvaro Cunha. 

De visita a sua irmã, Maria Teles, dama da corte da infanta D. Beatriz, em Lisboa, seduziu o rei D. Fernando, que decidiu unir-se-lhe após a anulação do casamento de D. Leonor com João Lourenço da Cunha. Teve 1 filha, D. Beatriz que foi rainha de Castela.