segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A Conquista de Lisboa - Carta de um cruzado Inglês

A Conquista de Lisboa aos Mouros

Contada por um cruzado inglês

Carta do cruzado R. 

Com base nas traduções referenciadas na lista de fontes. Com a pregação da segunda cruzada por São Bernardo de Claraval, em 1146 na basílica de Vézelay, com intenção de enviar um grande exército para defesa dos territórios francos na Palestina atacados pelos turcos seljúcidas, uma parte das forças de cruzados, que do Nordeste da Europa se dirigiam por mar para o Médio Oriente, foram aliciados a ajudarem o mais recente rei da Cristandade, D. Afonso Henriques, a combater os infiéis. 

Este é o relatório que o cruzado R[aul] mandou a Osb[erto] de Baldr[eseia] (Bawssey), que é a interpretação mais recente, ou que Osb[erto] de Baldr[eseia] mandou a R. Como escreveu Alfredo Pimenta, «o autor, fosse Osberno ou fosse R., parece ter sido padre; era inglês ou normando; e entrou com certeza na conquista de Lisboa. E isso é o que importa acima de tudo.»


A Conquista de Lisboa aos Mouros

A Osberto de Bawdsey,

As minhas saudações !

Assim como temos por certo que será vosso grande desejo ir sabendo o que se passa connosco, sem sombra de dúvida podeis estar seguro de dar-se o mesmo entre nós a vosso respeito. Por isso vos manifestaremos por escrito as venturas ou adversidades desta nossa viagem e bem assim os feitos, os ditos, ou tudo o que, durante ela, virmos ou ouvirmos e for digno de relato.

Expedição a Almada. Represálias

Sucedeu ... que certo dia alguns dos nossos passaram o Tejo para irem pescar do lado de Almada 2. Efectivamente, o areal daquela praia era mais favorável para os pescadores. Caíram sobre eles os mouros daquela zona, mataram bastantes e levaram com eles alguns cativos, cinco dos quais eram bretões. Os nossos ficaram indignados com isso e, discutido o assunto entre todos, foi decidido que duzentos cavaleiros com quinhentos peões seriam enviados a Almada para a saquearem. À hora de fazerem a travessia, os colonienses  e os flamengos, por má vontade ou por receio, ou por outro motivo que não conheço, retiraram os seus do nosso grupo para não atravessarem. 

Por essa razão, os normandos, os ingleses e os que se mantinham connosco e estavam do nosso lado, malogrados na constituição de grupo que abrangesse a todos, entregaram a expedição prevista a Saério de Archelle com uns trinta cavaleiros e uma centena de peões, para mais. Depois de terem matado em combate mais de quinhentos mouros, trazendo cerca de duzentos cativos e mais de oitenta cabeças, o que não deixou de ser motivo de grande alegria para os nossos e de grande abatimento dos inimigos, regressaram eles vitoriosos no mesmo dia, tendo perdido um apenas dos nossos.

Quando os mouros, ao olharem das muralhas, avistam as cabeças espetadas nas lanças, saem ao encontro dos nossos a pedir que lhes entreguem as cabeças cortadas. Tendo-as recebido, em pranto e clamor prolongado, levam-nas para dentro das muralhas. Ouviu-se por toda a noite uma voz de dor e uma lamúria magoada de pranto por quase todas as partes da cidade. O facto é que por tal acto de ousadia tão preclaro ficámos a ser de extremo terror para os inimigos pelo tempo fora, enquanto que, para os colonienses, para os flamengos e para os portugueses, isso era factor de honra. Livre ficava a partir de então o caminho para atravessar até Almada.

Inicia-se a construção de uma torre móvel e a escavação de uma mina ( 16 de Outubro )

É então que, por sua vez, os nossos se empenham mais no trabalho e se lançam a escavar um fosso subterrâneo entre a Torre e a Porta de Ferro , com o fim de deitarem abaixo a muralha . Porque estava demasiado acessível aos inimigos, ao ser descoberta depois de iniciado o cerco à cidade, foi extremamente danosa para os nossos, tendo-se gasto muitos dias a defendê-la sem êxito. Além disso, são levantadas pelos nossos duas balistas: uma, colocada junto à margem do rio era accionada pelos marinheiros, outra situada frente à Porta de Ferro estava às ordens dos cavaleiros e dos seus acompanhantes. 

Estavam todos eles organizados em grupos de cem e, mal se ouvia o sinal para saírem os primeiros cem, outros cem entravam; de forma que no espaço de dez horas tinham sido disparadas cinco mil pedras. Acção desta natureza extenuava extremamente os inimigos. É então a vez de os normandos, os ingleses e os que com eles se encontravam começarem a fazer uma torre móvel de 83 pés de altura 7. Os colonienses e os flamengos recomeçam a escavar novo fosso subterrâneo frente à muralha da parte mais alta do castelo a fim de a deitarem abaixo; era uma construção de merecer elogios, com cinco entradas, com um pouco menos de 40 côvados de largura na frente, e concluíram-na em menos de um mês 8.

Entretanto, a fome e o mau cheiro dos cadáveres (com efeito, faltava sítio para sepultar dentro da cidade) angustiavam pateticamente os inimigos. Dava-se até o caso que os restos lançados dos navios junto das muralhas eram levados pelas águas e eram recolhidos para comer.

Aconteceu com isso algo que provoca riso, como foi o caso de uns flamengos que montavam vigia no interior das ruínas de umas casas e, depois de terem comido figos até ficarem saciados, deixaram uma porção deles naquele sítio; aperceberam-se disso quatro mouros e como aves que se precipitam para o isco, às escondidas e pé ante pé aproximaram-se; advertindo nisso, os flamengos (que era para os atraírem que costumavam com bastante frequência espalhar restos daquela natureza por aqui e por ali), acabaram, no caso, por estender umas redes nos sítios costumados e apanharam três dos mouros que nelas se deixaram envolver. O caso foi depois motivo de grande galhofa.

Desmoronamento dum lanço da muralha; avança a torre móvel

Minada, pois, a muralha e atafulhada com lenha para arder, nessa mesma noite, ao cantar do galo, um pano das muralhas de cerca de trinta côvados ruiu por completo.

No entanto, já antes, se tinham ouvido os mouros que estavam de vigia às muralhas gritarem angustiados que, para porem fim de imediato a um trabalho ininterrupto, estavam dispostos a partilhar o dia supremo com a morte e que não tinham medo de a enfrentar, mas seria para eles satisfação máxima se eles se trocassem a si mesmos pelos nossos. Na realidade, era fatal ir até um ponto de onde era inevitável não voltar; em boa verdade, se em qualquer parte a vida acabasse bem, não se diria que ela era breve; de facto, duraria quanto devia, não quanto podia e não seria contada por quanto tempo tinha durado, mas pelo modo como tinha corrido bem, e impor-lhe-iam apenas uma cláusula boa.

Os mouros, pois, acorrem todos, cada de sua parte, a defender a brecha da muralha, tapando-a com uma barreira de cancelas. Foram então os colonienses e os flamengos e tentaram entrar, mas foram rechaçados. Efectivamente, embora a muralha tivesse ruído, à configuração do terreno impedia-lhes a entrada pelo simples aterro existente. No entanto, como não podiam atacá-los de perto, atormentavam-nos com o arremesso de setas incessantes e violentas, de tal forma que eles, para se defenderem e como que evitando não ficar feridos, ao manterem-se imobilizados, pareciam ouriços de espinhos.

Assim se defenderam dos atacantes até à hora prima do dia, altura em que estes se retiraram para os seus acampamentos.

Por sua vez, os normandos e os ingleses, que vêm armados para renderem os seus companheiros, aprestam-se para tomarem em primeira-mão a entrada aos inimigos que já houvessem sido feridos e estivessem esgotados. No entanto, ainda que impressionados com a vozearia, foram impedidos de o fazerem pelos comandantes dos flamengos e dos colonienses, os quais instavam connosco para que intentássemos a entrada, com as nossas máquinas, por onde quer que fosse possível, pois diziam que aquela abertura fora conseguida por eles e não por nós. Desta forma, porém, são rechaçados da entrada por todos os modos durante alguns dias.

Finalmente foi levada a bom termo a nossa máquina de guerra, envolvida a toda a volta por vimes e couro de boi para evitar que fosse atingida pelo fogo ou pela violência das pedras. Foi além disso intimado a todos os dos navios que fizessem mantas de guerra e abrigos entrançados com varas.

Exortação final e missa campal ( 19 de Outubro )

No domingo seguinte, pois, estando já a postos os aprestos de defesa, chama-se o arcebispo para dar a bênção ao empreendimento. Acabada a oração e feita a aspersão da água benta, determinado sacerdote, com a relíquia do Santo Lenho do Senhor nas mãos, pronunciou o seguinte sermão:

 [Que terminou dizendo,]

«O Deus da paz e do amor, que faz de dois um só e nos entregou reciprocamente uns aos outros, Ele que levanta da terra o necessitado e do esterco ergue o pobre, Ele que escolheu a David, seu servo, e o foi buscar aos rebanhos de ovelhas, embora fosse o mais novo dos filhos de Jessé, Ele que aos evangelizadores dá a palavra de grande eficácia para aperfeiçoamento da sua pregação e manifestação da sua obra, mantendo as nossas mãos na sua vontade, nos dirija e nos receba com glória; Ele mesmo governe quem nos governa para podermos [ensinar] o seu rebanho com disciplina e não com os instrumentos de um pastor desorientado.

Seja Ele a dar valor e fortaleza ao seu povo, seja Ele a apresentar a si mesmo um rebanho purificado e resplandecente e em tudo imaculado e digno dos apriscos celestes, onde há uma morada para os que se alegram nos esplendores dos santos, de tal modo que no seu templo todos nós, grei e pastores, cantemos glória a Jesus Cristo, Nosso Senhor, a quem é devida glória pelos séculos dos séculos. Ámen.»

A grande torre móvel vai-se aproximando das muralhas

A esta palavras, todos caíram de bruços com gemidos e lágrimas nos seus rostos. De novo, à ordem do sacerdote, todos se levantaram e foram abençoados pela veneranda relíquia da Cruz do Senhor, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Assim, rogando em altas vozes o auxílio divino, aproximaram finalmente a máquina da frente da muralha, a uma distância de uns quinze côvados.

Aí morreu um dos nossos atingido por uma pedrada de funda atirada das muralhas. No dia seguinte , de novo, a máquina é deslocada para junto da torre que fica situada num recanto da cidade frente ao rio .

Os inimigos, porém, levaram igualmente para ali todos os seus aprestos de defesa. Logo que isso descobrimos, com facilidade fizemos fracassar os seus planos, pois os nossos desviaram a máquina para a direita frente ao rio e ultrapassaram a torre uns vinte côvados junto à muralha perto da PortaFérrea 12 que está voltada para a torre.

Aí os nossos besteiros e frecheiros repeliram da dita torre os inimigos que não conseguiam aguentar o ritmo das setas, pois a torre ficava a descoberto pela parte posterior que está voltada para a cidade.

O combate final

Afugentados os inimigos da torre e da muralha, vizinha da nossa máquina, com a chegada da noite descansámos um pouco, tendo todos regressado ao acampamento, mas deixando de guarda cem cavaleiros dos nossos e cem dos franceses, com frecheiros e besteiros e alguns jovens ligeiramente armados.

Ora, na primeira vigília da noite, a maré-cheia envolveu a máquina e impedia que os nossos tivessem caminho para sair ou para entrar. Tendo os mouros descoberto que a maré nos isolava, a pé, atacaram a máquina com duas companhias de homens através da dita porta, enquanto outros, em multidão inacreditável, por cima das muralhas, tendo acarretado materiais de lenha com pez, estopa e azeite com substâncias incendiárias de toda a espécie, começam a atirá-los à nossa máquina. Outros ainda lançavam sobre nós uma chuva insuportável de pedras.

Havia, porém, debaixo das asas da máquina, entre ela e a muralha, um abrigo de vimes que em língua vulgar toma o nome de gato valisco , em que se mantinham sete mancebos da província de Ipswich que tinham trazido sempre esse abrigo atrás da máquina. Ali debaixo, juntamente com os que se encontravam em andares inferiores, alguns dos nossos procuravam, tanto quanto lhes era possível desfazer os materiais inflamáveis, mas em vão. Outros, por seu lado, tendo aberto covas debaixo da máquina e aí permanecendo, dispersavam as bolas de fogo. Uns, nos andares cimeiros, através de postigos regavam de cima os couros que se retesavam; aí havia uns renques de vassouras de cauda, pendentes da parte de fora, que molhavam toda a máquina. Os restantes, porém, dispostos em linha de batalha, resistiam com ardor aos que tinham avançado desde a porta.

Foi assim a máquina defendida nessa noite em esforço digno de admiração, por um punhado dos nossos, sob a ajuda de Deus, sem grandes feridas, enquanto a maior parte dos mouros, pelo contrário, mais de perto ou mais de longe, tinham caído mortos.

Ao romper da manhã, a nossa máquina, com a subida da maré fica novamente isolada. Novamente surgem os mouros ao nosso encontro, uns, vindos pela porta, abatem-se sobre os nossos (foi neste embate que o comandante das galés do rei foi ferido e veio a morrer), outros, a partir das muralhas, atiram sobre. os nossos uma chuvada de pedras, pois que tinham para aí acarretado as balistas. Além disso sobre as nossas máquinas, que apenas ficam a uma distância de oito pés das muralhas, lançam baldes repletos de materiais inflamados em tal quantidade que é mais que difícil dizer quanto trabalho, suor, golpes e feridas sem número aguentaram na maior parte do dia, sem terem qualquer apoio dos companheiros.

Até o nosso especialista dos engenhos ficou ferido numa perna por causa de uma pedra e deixou-nos privados de qualquer esperança no seu apoio. Também os franceses, ao verem-se rodeados de água, e estando ou feridos ou fazendo-se feridos, uns atirando com as armas, outros ficando com elas, optam vergonhosamente por fugir e passar um vau, não ficando mais que seis de todos eles. Finalmente, na baixa-mar, os inimigos, já cansados, abandonam o combate, desiludidos de qualquer expectativa de futuro. Por sua vez, os nossos cavaleiros e aqueles que tinham sido escolhidos para guardarem a máquina, uma vez entrados outros dos seus apoiantes a rendê-los, deixam aquele lugar, depois de terem estado dois dias e uma noite, sem tirarem as armas, a defender a máquina em angústia quase insuportável.


A Lisboa mourisca rende-se aos cristãos. ( 21 de Outubro, 3.ª feira ). 

Cerca, porém, hora décima, na baixa-mar, os nossos juntam-se na praia para aproximarem a máquina até quatro pés das muralhas e assim lançarem uma ponte com maior facilidade. A defender esta parte da muralha chegam os mouros vindos de toda a parte. Ao verem, porém, a ponte já içada uns dois côvados e nós já prestes a entrar, como se nem a vida viesse a ser deixada aos vencidos, gritam em grandes brados e, à nossa vista, depõem as armas, baixam os braços e suplicam tréguas, ao menos até ao dia seguinte.

Intervindo Fernão Cativo, por parte do rei, e Hervey de Glanville , pela nossa, foram concedidas tréguas e recebidos logo de seguida cinco reféns, tendo sido acordado em como durante a noite não atacariam as nossas máquinas ou como eles, entretanto, não procederiam a qualquer reparação que revertesse em nosso prejuízo; além disso, durante a noite, deviam deliberar como é que nos entregariam a cidade no dia seguinte; se é que era assim que queriam decidir entre eles, pois, caso contrário, o resto ficaria sujeito à sorte das armas.

Ferrão Cativo e Hervey de Glanville, por sua parte, sendo já quase a primeira vigília da noite, recebem reféns e entregam-nos ao rei. Foi isso motivo de grande discórdia, pelo facto de não os terem entregues aos nossos, pois consideravam que através deles se prepararia uma traição por parte do rei, admitindo que era hábito seu assim proceder, e por isso mostravam-se indignados contra Fernão Cativo e Hervey de Glanville.


Conferência sobre o modo de rendição ( 22 de Outubro )

De madrugada, pois, convocando os colonienses e os flamengos, os nossos condestáveis juntamente com os anciãos, dirigem-se ao acampamento do rei, para ouvirem o que aqueles embusteiros teriam deliberado. Interrogados, são favoráveis a entregarem a cidade ao rei e a deixarem o ouro, a prata e outros haveres dos habitantes da cidade nas nossas mãos. Para darem a isto uma resposta, os nossos saem fora.

Treme então, até definhar, o antigo inimigo, ao sentir que finalmente vai ficar despojado do velho direito. Contra todos e através de todos, excita os vasos da iniquidade. A tal ponto se encarniça o vírus da maldade que dificilmente ou irremediavelmente alguém chega algum dia a concordar com o outro, ficando em ruptura mútua. De facto, ao chegarem já perto da entrada das portas, se não fosse o nosso Deus contrapor a sua dextra de propiciação, a boa harmonia ter-se-ia rompido.


Efectivamente usou sempre Ele para connosco de clemência da sua bondade desde o início da nossa associação, a tal ponto que, quando já os nossos chefes abandonavam o leme da governação por múltiplas e desesperadas causas de divisão, era então que a brisa do Espírito Santo, trazendo a sua inspiração e como que fazendo reverberar as nuvens caliginosas do temporal com a vibração de um raio de sol do meio-dia, tornava mais agradáveis os laços da concórdia que regressava.

Foi o caso que, quando estávamos em assembleia para darmos a nossa resposta, os nossos marinheiros, com outros tresloucados a eles semelhantes, se juntam na praia em conspiração montada por um certo sacerdote de Bristol, homem sacrílego; efectivamente, tratava-se de alguém de costumes mais que reprováveis, como algum tempo depois tivemos conhecimento por ter sido apanhado a roubar. Começaram eles paulatinamente a incitar à revolta, desde simples falas até chegarem a vociferar, para declararem que era indigno que tantos e tão grandes homens, ilustres na sua terra e nos feitos militares, se sujeitassem a estar a mando de uns poucos reunidos em assembleia, aos quais, nas circunstâncias presentes, não seria propriamente necessário conselho, mas valentia. 

Na realidade, os que tinham até ali chegado, trazidos pelo Espírito Santo fosse o que fosse que tivessem. feito, tinham agido de modo excelente, sob a sua inspiração. Ora, entre os seus magnates não se registava assembleia ou empreendimento que alguma vez não tivessem sido em vão. Efectivamente, sem eles, tinha sido tomado o arrabalde, sem eles saberem tinha sido submetida Almada; se, como convinha, se tivessem deixado levar pelo seu entusiasmo, já há muito, diziam, teriam tomado conta da cidade ou teriam tido alguma vantagem maior.


Reflexões

Mas que havemos de dizer de homens que injuriam desta maneira, senão que há uma certa capacidade naturalmente implantada nos maus comportamentos de tal modo que o crime de uns poucos deslustra a inocência de muitos e que, em contrapartida, a escassez dos bons, ainda que queira, não consegue desculpar os crimes de muitos? Todavia, quem não se irritará ao ver que a virtude sincera fica manchada pela alegação de vícios, quando não conseguem discernir o que querem ou deixam de querer nem o que lhes agrada nas coisas boas ou o que lhes desagrada nas coisas más? 

Se vêem uma pessoa humilde, chamam-lhe abjecto; se anda de cabeça levantada, pensam que é por soberba; se é menos instruído, consideram que deve ser posto a ridículo devido à sua falta de conhecimentos; se tem alguma ciência, dizem-no inchado por causa do saber; se é severo, têm-lhe horror porque é cruel; se é indulgente, culpam-no por facilitar; se é simples, desprezam-no como se fosse estúpido; se é áspero, evitam-no como a um malicioso; se é diligente, consideram-no escrupuloso; se é vagaroso, julgam-no negligente; se é perspicaz, têm-no por ambicioso; se é sossegado, chamam-lhe preguiçoso; se é parco, clamam que é avaro; se, quando come, fica saciado, condenam-no por comilão; se faz jejum na comida, falam dele como dissimulado; ao que anda em liberdade condenam-no como criminoso; ao modesto, como homem rude; aos que são pessoas de rigor por causa da austeridade não os estimam; os mansos por afabilidade para eles são pessoas vis. Se alguém vive de outra maneira, ainda que os seus comportamentos sejam sempre de boa qualidade, ao serem espicaçados pelas línguas dos maldizentes, ficarão dependurados de anzóis de duas pontas.


Apaziguamento de tensões entre cruzados

O alvoroço deste tumulto é, pois, dirigido contra Hervey de Glanville, que tinha entregue os reféns ao rei e não a eles e tinha bem assim deixado alguns deles fora da atribuição dos dinheiros da cidade, como se eles fossem de outra raça. Mais de quatrocentos correm para fora dos acampamentos e, de armas na mão, procuram-no por todo o lado, ainda mesmo onde sabem que ele não está, clamando em altas vozes: "fora o ímpio, castigue-se o traidor"!

Tendo tomado conhecimento disto, quando estávamos no acampamento do rei, alguns dos nossos anciãos tomaram a iniciativa de lhes ir ao encontro para reprimirem estes assomos de violência. Logo que eles voltaram, reunimo-nos para respondermos ao que anteriormente estava em causa.

Os reféns, por sua parte, tendo-se dado conta de que os nossos tinham entrado em disputas, dissimulam e intentam retractar-se das palavras da primeira proposta. Ao rei e aos seus homens diziam que pretendiam guardar a sua palavra e manter todas as promessas que anteriormente nos tinham afiançado; aos nossos, nem com a morte algo fariam, pois tinham-se apercebido que éramos corruptos, desleais, sem piedade, cruéis, que nem os nossos próprios senhores poupávamos. Tudo isto deixou os nossos prostrados na maior vergonha.

De novo se voltou a conselho com o rei; passou-se nisso a maior parte do dia e ao fim anuíram os reféns no seguinte: o alcaide, com um genro seu, ficaria de posse de todos os seus bens em liberdade e todo e cada um dos homens da cidade ficaria com o que tinham para comer e a cidade render-se-ia; de contrário, tentariam a sorte das armas.

Acordo de actuação em concertação com o rei português

Os normandos e bem assim os ingleses, para quem os incidentes de guerra tinham sido particularmente gravosos, cansados do longo cerco, diziam que seria razoável aceder e que não seria honesto antepor o dinheiro ou os víveres à honra de tomar a cidade.

Os colonienses e os flamengos, por sua parte, com a sua inata cupidez de deitar a mão, lembravam o desgaste de uma longa viagem e a perda dos seus bens como o longo caminho a percorrer ainda, argumentavam que não era admissível deixar alguma coisa aos inimigos. Chegados a este ponto de discussão, por último, acediam a que todos os haveres e mantimentos do alcaide lhe fossem concedidos, com excepção de uma égua árabe que o conde de Aerschot 19 cobiçava para si e se propunha tirar-lhe sob que pretexto fosse. Finalmente, a este respeito, a opinião deles tornou-se inabalável, os nossos suportavam-na com grande indignação.

A noite põe termo à reunião, os reféns mantêm a sua opinião, os francos dispõem-se a qualquer das alternativas, à paz ou à guerra.

No dia seguinte, porém, decidiram tentar a entrada na cidade à força das armas e voltaram todos ao acampamento. Entretanto os colonienses e os flamengos mostram-se indignados, porque parecia que o rei era benevolente para com os reféns, e saem armados dos acampamentos para, à força, roubarem os reféns ao acampamento do rei e se vingarem neles. Gera-se confusão e embate de armas por todo o lado.

Nós, pela nossa parte, estando no meio, entre o rei e os acampamentos dos outros, e esperançados em que se voltasse a parlamentar, fizemos saber ao rei o que se preparava. Porém, o duque de Flandres e o conde de Aerschot, dando-se conta do motim, armam-se também e a custo travam o levantamento dos seus.

O rei fica descontente

Apaziguado o motim, seguidamente, vão ter com o rei para uma conciliação em favor dos seus, declarando que estavam completamente fora do acontecido. Garantida que foi por parte deles a sua segurança, o rei, uma vez serenado o ânimo, manda que os seus deponham as armas, assegurando firmemente que deixaria para o dia seguinte o cerco, mas não posporia a sua dignidade à tomada da cidade; antes, pelo contrário, dizia, tudo consideraria de menos se ficasse sem ela; no entanto, que se sentia atingido por aquelas injúrias, e nada mais queria em comum com homens corruptos, sem contenção, e dispostos a tudo.

Tendo a custo serenado finalmente o ânimo, anuiu a que se deliberasse sobre o que pretendia para o dia seguinte. Deliberou-se, pois, que no dia seguinte todos os nossos chefes, de uma parte e de outra, por si e pelos seus, prometessem manter fidelidade ao rei enquanto permanecessem na sua terra.

Confirmado isto por ambas as partes, anuiu-se ao que no dia anterior os mouros tinham pedido relativamente à rendição da cidade. Decidiu-se, pois, entre nós, que 140 homens de armas dos nossos e 160 dos colonienses e flamengos entrariam antes dos outros na cidade e que ocupariam pacificamente a fortaleza do castelo superior, por forma que os inimigos pudessem trazer os dinheiros e todos os seus haveres, comprovados, sob juramento, perante os nossos; feita assim a recolha, a cidade seria depois inspeccionada pelos nossos: se algo mais do que o alegado fosse encontrado com alguém, o dono em cuja casa fosse achado pagaria com a vida. Deste modo, depois de espoliados, todos seriam mandados em paz para fora da cidade.

Entrada solene na cidade ( 25 de Outubro )

Aberta, pois, a porta e dada autorização de entrarem, os colonienses e os flamengos, concebendo um astucioso ardil, solicitam aos nossos que seja deles a honra de serem os primeiros a entrar. Dada, pois, a anuência para tal efeito e chegada a ocasião, fazem entrada mais de duzentos com os que anteriormente haviam sido designados, fora outros que se tinham intrometido pela brecha da muralha que ficava à sua mercê da parte em que se encontravam, enquanto ninguém dos nossos, que não fosse dos designados, presumira proceder à entrada. 

À frente, pois, ia o arcebispo e os outros bispos com a bandeira da Cruz do Senhor e a seguir entram os nossos chefes juntamente com o rei e os que para este efeito tinham sido escolhidos.

Oh! Quanta não foi a alegria de todos! Oh! Quanta não foi a honra especial que todos sentiam! Oh! Quantas não foram as lágrimas que afluíam em testemunho de alegria e de piedade, quando todos viram colocar no mais alto da fortaleza o estandarte da Cruz salvífica em sinal de sujeição da cidade, para louvor e glória de Deus e da santíssima Virgem Maria. O arcebispo e os bispos com o clero e todos os outros, não sem lágrimas de júbilo, cantavam o Te Deum laudamus com o Asperges me e orações de devoção.

Entretanto, o rei dá a volta a pé pelas muralhas do castelo cimeiro.

Desmandos de alguns cruzados

Os colonienses e os flamengos, ao lobrigarem na cidade tantas oportunidades de se saciarem não respeitam qualquer observância de juramento ou de palavra dada. Correm por aqui e por ali, saqueiam, arrombam portas, espreitam pelos interiores de qualquer casa, assustam os habitantes e, contra o direito divino e humano, infligem-lhes injúrias, dispersam vasilhames e roupas, actuam sem respeito contra as donzelas, põem no mesmo prato da balança o lícito e o ilícito, às escondidas tudo subtraem, mesmo o que deveria ficar em comum para todos. 

Ao bispo da cidade, um ancião de muitos anos, cortam-lhe o pescoço, contra o direito divino e humano . Aprisionam o próprio alcaide da cidade, depois de lhe terem tirado tudo de casa. A pequena égua, de que falámos acima, o próprio conde de Aerschot a arrebatou com as suas mãos. Tendo ele sido intimado pelo rei e por todos os nossos a entregá-la, reteve-a com tanta obstinação que o próprio alcaide disse que a sua pequena égua ao urinar sangue tinha perdido um potro, exprimindo de maneira astuta a fealdade de uma acção obscena.

O êxodo dos habitantes

Os normandos e os ingleses, que tinham em máximo apreço a palavra dada e o respeito divino, observavam onde poderia levar uma actuação destas e permaneciam quietos no lugar que lhes fora determinado, preferindo manter as mãos limpas de qualquer roubo a violarem os princípios de solidariedade firmada por um juramento de fidelidade.

A atitude tomada deixou grandemente cobertos de opróbrio o conde de Aerschot e Cristiano com os seus nobres, cuja cupidez ficava à vista de todos, sem equívocos, depois de terem com toda a evidência atirado para trás das costas o seu juramento.


No entanto, voltando finalmente a si, com pedidos insistentes, suplicaram junto dos nossos que fossem os nossos, juntamente com os seus, a congregar as restantes partes da cidade para uma partilha pacífica, de tal forma que, depois de aceites as respectivas partilhas, debatessem em paz as injúrias e as subtracções de todos, estando eles dispostos a emendarem o que indevidamente se tinham antecipado a retirar.

Espoliados, pois, os inimigos na cidade, foram vistos sair, sem despegar, pelas três portas, desde o início da manhã de sábado até à quarta-feira subsequente, em tão grande multidão de gente que era como se nela tivesse confluído a Espanha inteira.

Verificou-se seguidamente um prodígio que causou muita admiração: os alimentos dos inimigos que antes da conquista da cidade e ao longo de quinze dias se haviam revelado intragáveis por cheiro insuportável, pudemos saboreá-los pouco depois, já que tanto para nós como para eles se apresentavam bons e agradáveis.

Saqueada, pois, a cidade, foram encontradas em fossas cerca de oito mil cargas de trigo e de cevada, enquanto as de azeite eram de uns doze mil sextários .

Relativamente às observâncias da sua religião, logo depois vimos com os olhos o que acima tínhamos referido. Efectivamente, no seu templo, que se levanta em sete ordens de colunas com outras tantas abóbadas, foram encontrados uns duzentos cadáveres dos que ali tinham morrido, fora mais oitocentos doentes que aí haviam ficado no meio daquela imundície e na sua fealdade.

Restauração da diocese de Lisboa, com novo bispo; purificação da mesquita 
( 1 de Novembro ).

Tomada, pois, a cidade, após dezassete semanas de cerco, os habitantes de Sintra fizeram oferta da guarnição do seu castelo e entregaram-se ao rei. Por sua vez, o castelo de Palmela foi abandonado pela sua guarnição e foi tomado pelo rei já sem ninguém. Rendidas, pois, todas as fortalezas que nas redondezas estavam ligadas à cidade, foi celebrado o nome dos francos por todas as terras de Espanha e abateu-se o terror sobre os mouros aos quais ia chegando a notícia destes acontecimentos.


Seguidamente, foi eleito para a sede episcopal um dos nossos, Gilberto de Hastings, tendo dado o seu assentimento para a eleição o rei, o arcebispo, os bispos, o clero e todos os leigos.

No dia em que se celebrava a Festa de Todos os Santos, em louvor e honra do nome de Cristo e da Sua Santíssima Mãe, foi feita a purificação do templo pelo arcebispo e por mais quatro bispos sufragâneos e restaurada a diocese como sede do episcopado, com os seguintes castelos e terras.

Para além do Tejo, o castelo de Alcácer, o castelo de Palmela, a zona de Almada; aquém do Tejo, o castelo de Sintra, o castelo de Santarém, o castelo de Leiria. Os limites vão do castelo de Alcácer até ao castelo de Leiria e do mar, a ocidente, até à cidade de Évora. 



A situação miserável dos mouros

Sobreveio seguidamente uma peste tão grande entre os mouros que pelas vastidões dos ermos, pelas vinhas e pelas aldeias e praças, bem como pelas casas em ruínas jaziam inúmeros milhares de cadáveres à mercê das feras e das aves; os que ainda tinham vida, semelhantes a fantasmas que andassem errantes à face da terra, abraçavam-se ao sinal da cruz e beijavam-no, confessavam que Maria, cheia de bondade, é a bem-aventurada Mãe de Deus, de tal modo que em tudo o que fazem ou dizem, mesmo nos momentos extremos, misturam invocações a Maria boa, boa Maria e lhe dirigem apelos angustiados.


domingo, 15 de setembro de 2013

A figura de D. Afonso Henriques

A Figura de D. Afonso Henriques

(Pag. na Net da Dra. Angela Dutra de Menezes)

O Libertador

Ninguém merece mais este título que o infante Afonso Henriques, filho de dona Teresa, bastarda do rei Afonso VI de Leão e Castela, e do conde Henrique de Borgonha. Mas, graças à esperteza política de Afonso Henriques, Portugal é a primeira nação europeia a estabelecer-se como Estado independente. Antes do ano 1200, Portugal já é Portugal. Com direito, inclusive, a língua própria: o galaico-português.

Génio, estadista, raposa política, vitorioso, implacável, espertíssimo: Afonso constrói uma história rocambolesca. Tudo que pode manipular a seu favor, manipula sem escrúpulos. Inicia a trajectória de vitórias fundando um reino.

D. Afonso VI


O avô de Afonso Henriques destaca-se como um dos homens mais poderosos de sua época. Amigo pessoal de Santo Hugo que construiu a Abadia de Cluny, o maior templo que a cristandade jamais erguera - , Afonso VI tira do bolso, ou dos cofres públicos, grande parte dos recursos que financiam o sonho de Hugo.

Bem relacionado com os outros reis cristãos, influente, Afonso VI, entre uma e outra doação a Cluny, consegue casar sua filha bastarda , a formosa D. Teresa ,com um dos condes de Borgonha . Mas Afonso VI embrulha a oferta para presente: Henrique leva Teresa e, de quebra, o Condado Portucalense, terras a oeste de Castela e ao sul da Galiza que, há tempos ensaiam a gracinha de viver por conta própria.

Em 1092, reúne as duas unidades condais da região – ao norte e ao sul do rio Douro – e determina que o novo e único condado pertencerá à Teresa – e ao marido dela, claro. Urraca, a filha legítima, sentará no trono de Leão e Castela, como ensinam as regras da moral e dos bons costumes.

Mais do que bom e preocupado papai, Afonso VI tenta ampliar seu poder e garantir domínio sobre maior extensão de terras. Tiro pela culatra. Tão logo o rei de Leão e Castela mete o nariz no Condado Portucalense, a nobreza local inicia forte movimento separatista.

Afonso Henriques tem 20 anos quando Afonso VI morre. Se muitas famílias se estraçalham pela baixela de prata da vovó, imaginem quando o motivo é o poder de uma coroa. Desentendem-se todos. Urraca discute com o Bispo de Compostela, atrita-se com rei de Aragão, cospe desaforos para o conde da Galícia, faz e acontece.

De repente, Teresa dá o passo fatal. Arquitectando anexar Portucale à Galícia, alia-se aos galegos, tradicionais rivais dos barões de Portucale. É desconhecer o filho, menino que emite sinais de seu génio – no bom e no mau sentido - aos 13 anos. Nesta idade, na cerimónia em que o sagram cavaleiro, na catedral de Zamora, Afonso Henriques manda às favas o bispo e ele mesmo sagra-se.

Recusa a mediação divina. Igualzinho a Napoleão, que muitos séculos mais tarde fará o mesmo em Paris. Dizem, não há provas documentais, que o avô fica orgulhoso com a petulância do fedelho - é pena que tanto talento evapore em Portugal, comenta Afonso VI.

Enfim, com tal filho nas mãos, dona Teresa, além de se aliar aos galegos, aparece com outro conde debaixo de braço, contando uma história trôpega de “apoio político”. Com 21 anos, Afonso Henriques cerca Guimarães e declara uma briga de gafieira: quem está fora, não entra; quem está dentro, não sai. Nem mamãe, suposta rainha do condado.

É bom que se diga: igual ao avô, o infante não dá ponto sem nó. Fareja que, com poucas chances na linha sucessória de Leão e Castela, precisa descobrir o próprio espaço. Quer o poder, seu lugar é no condado materno. Tudo aponta para o facto de que o infante apenas capitaliza o desagrado da nobreza portucalense. Desagrado que se acentua quando Teresa enfia os galegos no caldeirão.

O esperto Afonso Henriques já andava observando que, além do anseio de se libertar de Castela, as cidades de Portucale identificam-se cultural e ideològicamente. Para ele, não parece tarefa difícil transformá-las em uma só força política. Teresa apenas fornece a justificativa para o infante virar a mesa.

Contando assim, parece fácil. Não é, senão qualquer pessoa faria. Afonso Henriques tem enorme sensibilidade. Age na hora certa, com as pessoas certas, da maneira certa. Não falseia. Comporta-se como perfeito animal político do início ao fim de sua história. Faz a História, coloca o mundo nas mãos. Tolos são os que o cercam, incapazes de observar a genialidade do príncipe enquanto ele arma o bote.

Os habitantes de Guimarães, liderados pela nobreza e pela burguesia, recebem o infante libertador de braços abertos. Existe uma carta documentando este apoio. Teresa ainda tenta combatê-lo. A batalha acontece em 1128, no campo de São Mamede, perto do castelo de Guimarães.

Primeira vitória do infante. Ele mesmo se surpreende com a facilidade com que derrota o exército galego e expulsa a rainha e seu conde. Em documento, ditado a alguém de letras, declara: “Eu, o infante Afonso, filho do conde Henrique, livre já de toda a opressão,...., na posse pacífica de Coimbra e todas as cidades de Portugal...”

Pronto, o Condado Portucalense começa a escorregar para dentro de seu bolso. Daí para frente, cabe a ele segurar a peteca e combater quem lhe atrapalhar os sonhos. Combate e vence. Quando não vence pela força, moedas de ouro resolvem a situação – ah, a corrupção, não é de hoje que nos persegue.

Os inimigos principais são os mouros, aboletados na maior parte do território português. Mas o primo Afonso VII e Fernando II, ambos de Castela, também levam umas cacetadas. Este último, prenderá Afonso Henriques em Badajoz e se espantará com a riqueza do rei português.

De resgate, Afonso Henriques pagará quase duas toneladas e meia de ouro. Na maior facilidade e sob os delirantes aplausos dos conterrâneos que não queriam perdê-lo de jeito nenhum.

Para alcançar tal prestígio, Afonso Henriques sua. Passa a vida combatendo e costurando acordos políticos. O primeiro, com a Igreja Católica, pedra angular do qualquer poder durante a baixa Idade Média. Quem não recebe a bênção episcopal que trate de procurar novo emprego. Logo após a vitória de São Mamede, Afonso Henriques estabelece suas relações com a Igreja: cede em tudo. Sabe onde pisa, os clérigos têm força demais para serem contrariados.

Em troca de apoio amplo, geral e irrestrito, o arcebispo de Braga recebe a garantia de seus privilégios: direito de cunhar moedas e autoridade absoluta sobre a cidade. Não satisfeito, o infante custeia a construção da catedral de Braga, abarrota os piedosos cofres, reconhece a autoridade divina sobre a sua e prestigia os eventos da fé.

Espanto: os arcebispos de Braga cumprem sua parte. Durante os quase 60 anos de reinado, não abandonam Afonso Henriques. Uma relação perfeita, se casamentos transcorressem assim, advogados de família morreriam de fome.

A raia miúda conventual colabora da melhor maneira possível. Em textos da época, monges do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, não economizam elogios a Afonso Henriques: “prudente, sábio, inteligente belo, gigante, leão rugidor” – quase uma comissão de frente. Depois da batalha de Ourique, então, os frades passam a delirar. Na opinião deles, Afonso Henriques é o “eleito de Deus para provar a autonomia de Portugal e dos portugueses”. Antes da Batalha de Ourique, um divisor de águas na vida de Afonso Henriques e na História lusitana, o infante contorna outros problemas. O primeiro, mostra ao clã castelhano que a conversa mudaria.

Em 1135, sepultadas as controvérsias sobre a sucessão de Afonso VI, o filho de dona Urraca sobe ao trono com o título de Afonso VII. A cerimônia na catedral de Leão é apoteótica, o novo rei exibe luxo excessivo. Da família, só Afonso Henriques não comparece. A intenção parece clara: mostrar, de uma vez por todas, que o Condado Portucalense não presta vassalagem ao soberano de Leão e Castela e que Afonso Henriques considera-se tão rei quanto o primo recém-coroado. Afonso VII retalia a desfeita e os dois trocam sopapos. Em 1137, porém, assinam a Paz de Tui, onde Afonso Henriques promete a prestar a Afonso VII “fidelidade, segurança e auxílio contra os inimigos”.

Não existem documentos claros sobre este período mas, provavelmente, nosso infante levou uma corrida. Não corresponde à personalidade dele assinar documentos humilhantes. A sorte é que desrespeita o compromisso – ou não seria Afonso Henriques. Em 1143, o papa Inocêncio II precisa enviar um cardeal para apaziguar os primos. Porém, antes, acontece Ourique. Milagre, juram alguns.

Tramóia de Afonso Henriques, aponta a lógica. Afinal, convenhamos, Jesus Cristo não anda por aí, batendo papo com infantes, na maior naturalidade.

A Batalha de Ourique

Quase tudo tudo sobre Ourique são conjecturas. Mas a história é tão importante que marca o imaginário português, permanece no brasão do país - cinco escudos, cinco quinas, cada qual com cinco bolas representando os cinco reis mouros degolados na batalha – e, finalmente, transforma Afonso Henriques em rei de fato e de direito. Até hoje, historiadores portugueses discutem o episódio.

Alexandre Herculano encarrega-se de tornar a batalha ainda mais célebre ao afirmar que “o milagre de Ourique não passa de uma lenda”. Deus nos acuda, Portugal vem abaixo. Acusam-no de herege – é bom lembrar que último herege lusitano tinha ido parar na fogueira apenas um século antes, tempo historicamente insignificante - de anti-clerical, de ateu, de agnóstico, de... Bem, deixa para lá. Se gritam algo pior, a memória não registra.

Historiadores contemporâneos, entre eles José Hermano Saraiva, tendem a colocar Ourique no devido lugar. De concreto, sabe-se que ocorre uma batalha no dia 25 de Julho de 1139, que o exército mouro é numericamente superior e que a vitória cabe a Afonso Henriques.

Desconfia-se, também, que Afonso VII, naquela altura sitiando Aurélia, cidade moura de enorme importância estratégica, ajuda a meter o primo na enrascada. Ao receber a notícia que o infante pratica uma razia – tipo de combate usado pelos portugueses, que gostam de se infiltrar em território inimigo, surpreendê-los, destrui-los e fugir correndo –, Afonso VII mexe seus pauzinhos, desviando o exército islâmico que marchava em socorro à Aurélia, para destruir o infante. Pode ser, a participação de Afonso VII não passa de mais uma hipótese.

Nem o local da batalha é preciso. A cidade de Ourique fica tão ao sul de Lisboa, tão no interior dos territórios mouros, que parece impossível o infante ter se arriscado tanto. No entanto, há registros de outras razias ousadas. Por outro lado, no início da Idade Média, chamava-se de Ourique o Baixo-Alentejo. Lenda e História não decifram estes mistérios.

A versão popular da batalha de Ourique conta que Afonso Henriques combate imenso exército islâmico, mata cinco reis mouros e coloca o resto da multidão para correr. Tudo em um dia. Especial favor de Cristo Nosso Senhor que, na véspera, aparece ao infante com quem conversa amigavelmente. Apenas Afonso Henriques vê Cristo - que, aliás, surge escoltado de anjos – e apenas Afonso Henriques ouve-o garantir a próxima e espectacular vitória portuguesa.

O moral da soldadesca alcança as nuvens quando eles sabem quem lhes fizera uma visitinha. Além do mais, 25 de Julho é dedicado a Santiago, o mata-mouros, santo que jamais abandona cristãos em perigo. Especialista em degolas, Santiago trabalha com eficiência invejável – aparentemente, é o primeiro ser do planeta a conhecer o lugar exacto das carótidas, não perde uma. Hoje, parece, aposentou

Batalha vencida, povo em delírio, igreja desvanecida. O infante passa a se assinar “rei dos portugueses”. Neste momento, define-se a identidade lusa. Afinal, Ourique estabelece o importante diferencial: em que outro lugar o rei conversa, ao vivo e em cores, com as hostes celestiais?

Em 1143, quando o Cardeal Guido de Vico, emissário do papa, reúne o infante e Afonso VII em Zamora, território de Leão, para tentar convencê-los que a animosidade entre ambos favorece aos infiéis, Afonso Henriques joga outra cartada genial. Alegando o milagre de Ourique, escreve a Inocêncio II, reclamando para si e seus descendentes, o status de “censual”. Ou seja, dependente apenas de Roma. Dentro de seu território manda ele e só ele – estamos conversados.

O Vaticano custa a responder. Na verdade, exactos 36 anos. E só responde depois que Afonso Henriques acelera o processo com uma esmolinha de mil moedas de ouro. Quando, em 1179, a Igreja de Roma, finalmente, reconhece a realeza de Afonso Henriques, o reconhecimento já não tem importância. A independência se consumara, Portugal afirmara sua soberania e o infante encerrava a vida como rei de primeira grandeza.

Em Zamora, do encontro entre os primos e o cardeal, Afonso Henriques colhe um lucro imediato. Afonso VII tira o cavalinho da chuva e entende que o infante português jamais lhe prestará vassalagem. Por conta própria, começa a tratá-lo de igual para igual.

Engana-se quem pensa que a vida de Afonso Henriques se resume a trançar fofocas políticas, fazendo e desfazendo aliados. O homem parece uma fera. Combate ao lado dos soldados, comportando-se como igual, sem frescuras de hierarquia. Sua tropa mais que o respeita: venera-o . Obedece a qualquer ordem sua.

Com a desculpa de empurrar infiéis de volta aos locais de origem, Afonso Henriques amplia o território português: Lisboa, Santarém, Almada, Óbidos, Palmela, Sesimbra. Combate após combate, destruindo mouros como quem destrói ratos, Afonso Henriques constrói seu reino. Na reconquista, a política é de terra arrasada: matar quem se movia, queimar o resto.

Quase um milênio antes de os americanos levarem uma corrida dos subnutridos guerrilheiros vietcongs, Afonso Henriques adota tácticas de guerrilha. Comandando um exército pequeno, ele entende que sua vantagem mora no elemento surpresa.

Nosso rei apronta novidades. Quando prevê combates longos, contrata mercenários. Geralmente cruzados, a caminho da Terra Santa, que aproveitam a escala em Portugal para degolar islâmicos e recolher o produto do saque – promessa do rei. O cerco de Lisboa, em 1147, segue este modelito. Entre portugueses e cruzados ávidos por lucro fácil, Afonso Henriques reúne centenas de milhares de homens e cerca de 150 navios.

A reconquista de Lisboa é um triste e belo episódio da História portuguesa. Afonso Henriques exagera na violência. Redime-se, mais tarde, com a Carta de segurança de 1170 que proibirá cristãos e judeus de maltratar os mouros da região de Lisboa. Definitivamente, El Rei aprecia grandes e inesperados gestos.

Sorrateiro, costuma agir por baixo dos panos, pré-estreia do jeito luso-brasileiro de ser. O bandoleiro Geraldo Sem Pavor, que saracoteia desenvolto em terras de Castela, provavelmente trabalha para Afonso Henriques. Se o infante não pode invadir propriedade alheia, um preposto oficioso pode.

Não há como provar. Mas os cavaleiros de Geraldo Sem Pavor pertencem ao Conselho de Coimbra, é difícil imaginar tais cidadãos combatendo sem aprovação real.

O infante que pretende ser rei, vira um mito. É impossível separar verdade e lenda na biografia de Afonso Henriques. Ele antecede seu tempo, revela-se um génio de extraordinária visão política e indiscutível coragem moral. Dele, restam poucos registros escritos pelos monges de Santa Cruz - até porque, além dos monges, ninguém mais sabe escrever, nem Afonso Henriques.
Os relatos da época – descontados os elogios de praxe - delineiam um perfil justo, generoso e irreverente.

Retratam o caráter corajoso, sujeito a crises de cólera, capaz de atos de violência e de reconhecer seus erros. Elogiam a frugalidade à mesa e ressaltam a tendência conquistadora. Não apenas de poder e terras. De mulheres, também. Ou principalmente. Casado com a discreta Mafalda de Sabóia - com quem tem sete filhos, entre eles, o herdeiro Sancho –, Afonso Henriques abençoa quatro bastardos. Um documento de 1184, descortina o inesperado pai carinhoso.

Quando uma de suas filhas legítimas casa com o conde de Flandres, Afonso Henriques não titubeia. Para alegrar a noiva, enche vários navios com o que existe de mais fino. As naus saem do porto de Lisboa abarrotadas de vestidos bordado a ouro, jóias preciosas, sedas, mais ouro, mais jóias, tudo que pudesse alegrar a menina alegre, filha de pai poderoso.

O testamento de Afonso Henriques, primeiro rei do primeiro país europeu a adquirir consciência de nacionalidade, revela que, até na morte, ele se comporta como estadista. Sua imensa fortuna, amealhada em mais de meio século de guerras e saques, confunde-se com o próprio tesouro português.

O rei destina-a ao fortalecimento da nação. Por ordem dele, centenas de milhares de maravedis são entregues à defesa - El Rei pressente que os mouros preparam um contra-ataque. Outra centena de milhares constroem hospitais e sustentam ordens religiosas e militares. Os mais pobres recebem o seu quinhão. Erguem-se igrejas e catedrais. Conventos acolhem doações e sustentam-se anos.

Cronologia de D. Afonso Henriques

1109: Provável ano de nascimento, em Coimbra, em Viseu ou em Guimarães, do infante Afonso Henriques, filho do conde Henrique de Borgonha e de dona Teresa, bastarda do rei Afonso VI de Castela e Leão. No mesmo ano morre Afonso VI. Início da disputa entre dona Urraca, a herdeira legítima, dona Teresa e vários outros pretendentes ao trono. A briga pelo poder dura anos. -

1122: Afonso Henriques antecipa em sete séculos um gesto de Napoleão Bonaparte. Ignorando o cardeal que presidia a cerimônia, arma-se cavaleiro na catedral de Zamora. -

1128: Afonso Henriques luta contra a mãe, dona Teresa, e seu aliado, o conde galego Fernão Peres de Trava. As tropas de Afonso Henriques e dona Teresa se enfrentam no campo de São Mamede, junto ao castelo de Guimarães. O exército galego é derrotado. Esta vitória leva dona Teresa a desistir da ideia de anexar a região portucalense ao reino da Galícia. -

1129: No dia 6 de abril, Afonso Henriques dita uma carta em que se proclama soberano das cidades portuguesas. -

1135: Afonso VII, filho de dona Urraca, é coroado “imperador de toda a Espanha” na catedral de Leão. Afonso Henriques se recusa a prestar vassalagem ao primo. -

1137: Paz de Tui. Após lutar com Afonso VII no Alto Minho, Afonso Henriques promete ao imperador “fidelidade, segurança e auxílio contra os inimigos”. -

1139: Batalha de Ourique. Afonso Henriques vence cinco reis mouros. -

1140: Afonso Henriques começa a usar o título de Rei. -

1143: Provável Tratado de Zamora no qual estabelece a paz com o primo Afonso VII. Primeiro passo para a independência portuguesa. Afonso Henriques escreve ao Papa Inocêncio II e se declara - e a todos os descendentes - “censual” da Igreja de Roma. A palavra “censual” significa que Afonso Henriques é obrigado a prestar obediência apenas ao Papa. Na região que governa, portanto, nenhum outro poder é maior que o dele. -

1147: Afonso Henriques expulsa os mouros de Lisboa e várias outras cidades portuguesas. 

1169: Afonso Henriques é feito prisioneiro pelo rei de Leão, Fernando II. -

1179: A Igreja Católica reconhece, formalmente, a realeza de Afonso Henriques. -

1180: Final dos conflitos com Fernando II, de Leão, pela posse de terras na região da fronteira e costa da Andaluzia. -

1185: Afonso Henriques morre na cidade em que nasceu. Sua herança, além de imensa fortuna, é o Condado Portucalense, primeiro território europeu que estabelece sua identidade nacional.

Ao herdeiro, Sancho I, Afonso Henriques deixa a única recomendação geopolítica: a construção de uma ponte entre o norte e o sul do país para não se perder a unificação que ele custara fazer e manter. Pena que não existam registros confirmando se Sancho obedeceu, ou não, às ordens paternas.

Afonso Henriques, o pai da pátria portuguesa, morre no dia 6 de Dezembro de 1185, em Coimbra, na mesma cidade onde nasceu. O seu corpo é enterrado no Mosteiro de Santa Cruz.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Batalha de Ourique




A Batalha de Ourique

Batalha travada em 25 de Julho de 1139, dia de Sant'Iago, entre as forças do nosso primeiro rei e as de um chefe islâmico denominado Esmar. A Batalha de Ourique associa-se à história da aclamação de Afonso Henriques como rei pela nobreza guerreira, em que se descreve o seu regresso triunfal a Coimbra, com a possível indicação de ter sido a partir desse momento que o infante passou a intitular-se rei.


Associada a esta batalha existe uma lenda que a descreve como uma batalha travada contra cinco reis mouros e ganha, ou pela força da protecção divina (versão clerical) ou pela valentia dos cavaleiros (versão nobiliárquica), num caso e noutro dispensadora de terras e riqueza, de reino e realeza. No entanto sobre a batalha real pouca informação existe, o que leva a crer que o confronto de Ourique se teria traduzido, na realidade, numa refrega militar de modestas proporções, quando confrontada com as grandes batalhas da Reconquista.

História da Batalha

Reunidas as suas tropas, no burgo de Coimbra, em Maio de 1139, Afonso Henriques marcha já em fins de Junho sobre Leiria, onde agrega à sua hoste os cavaleiros-vilões e alguma peonagem dos novos concelhos fronteiriços. E daí, num impetuoso fossado sobre as terras sarracenas, interna-se no Gharb, assolando e saqueando lugares, devastando todo o país.

Não tinham esmorecido ainda tanto, apesar de em manifesta decadência, os brios militares dos almóadas, que não congregassem logo as suas tropas e as dos Mouros espanhóis para marcharem ao encontro da hoste afonsina, cortar-lhe o passo, desbarata-la.

Nos campos de Ourique, feriu-se a 25 de Julho a memorável batalha, a que os Mouros, sob o comando de Esmar, levaram num esquadrão, de amazonas as suas próprias mulheres, talvez por carência de forças neste rincão de Aurélia e outras dificuldades mais graves

À excepção desta, afirma Herculano, as circunstâncias da Batalha de Ourique ignoram-se inteiramente. Sabemos só que Afonso Henriques desbaratou os sarracenos, cujo chefe, denominado nas crónicas portuguesas por rei Esmar, a custo salvou a vida com a fuga. O campo ficou alastrado de mortos, entre os quais se acharam os cadáveres de muitas das mulheres que ali tinham vindo e haviam perecido combatendo como as antigas amazonas.

( Condensado de terravista.pt/ancora/1627 - Site que se recomenda por informação sobre Batalhas de Portugal

Nota - D. Afonso Henriques fez construir o castelo de Leiria em 1135, para servir de poderosa base defensiva e ofensiva. Alguns anos mais tarde, atreveu-se mesmo a um ousado, mas de forma alguma inédito "raid", bem no coração da mourama. 


Atravessou o Tejo e internou-se na vasta planície quase deserta do Ribatejo e do Alentejo Norte. Uns 110 Km a sul do Tejoalcançou provavelmente a antiga estrada romana e muçulmana que o levou com facilidade para o Sul, distante mais de 200 Km da fronteira. Em Ourique. pequena cidade perto dessa estrada, encontrou por fim o exército defensivo muçulmano, que conseguiu derrotar à frente de algumas centenas de homens a cavalo ( 1139 ).

Era a sua grande vitória mas não a pode explorar. Tratava-se apenas de uma razia, sem o apoio de qualquer sistema organizado de abastecimentos e cobertura de reservas. Ourique estava longe de mais para ter algum significado na conquista cristã. Afonso Henriques regressou ao reino, muito provavelmente sem ter provocado no Alentejo islâmico qualquer perturbação de monta. 


( História de Portugal - A.H. Oliveira Marques)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O Sul Islâmico

O Sul Islâmico

Os Reinos Taifa

Os Muçulmanos chamavam al-Garb al-Andalus (o ocidente de Andaluz) a todo o território para ocidente e noroeste do Guadiana, correspondendo aproximadamente à Lusitânia romana e visigoda. Aí existiam várias grandes e médias cidades, sedes de kura,onde se registaram, ao longo dos séculos, rebeliões importantes e por vezes duradouras.

A partir de século XI, a ruína e o desmembramento do califado de Córdova, que unificara e robustecera toda a Península Ibérica sob domínio islâmico, levaram à criação de vários reinos, chamados de taifa (bandeira), alguns com dinastias de quase um século. 


O governador da marca ou província militar de Mérida, Ibn al-Jilliqi, literalmente o «filho do galego» por pertencer a uma família de cristãos convertidos chefiou a primeira revolta importante, em 868, que autonomizou durante décadas grande parte do sudoeste peninsular, originando a dinastia de Ibn Marwan, com quatro gerações.

Rebeliões no Al-Andaluz

Houve outras rebeliões em Lisboa, Beja e Faro. O estabelecimento de feudos semiautónomos com sede em Mérida-Badajoz, Beja e Faro foram normais no Sudoeste da Península. Sucedeu o mesmo um pouco por toda a parte. A tendência para a desagregação em Al-Andaluz acompanhava a feudalização de quase toda a Europa. 

A partir de 1012 constituíram-se reinos de taifa em Huelva, Badajoz (dinastia dos Banu al-Aftas, com quatro monarcas), Sevilha (Banu ' Abbad, com três monarcas) Niebla (Banu Yahya, com três monarcas), Faro (Banu Harun, com dois monarcas), Mértola e Silves (Banu Muzayn, com dois monarcas). Todos eles abrangeram, durante algum tempo, o espaço «português». O mais importante foi o de Badajoz, que chegou a abarcar todo o Portugal de hoje a sul do Douro - com excepção da parte do Algarve -, além de territórios no vale do Guadiana, actualmente pertencentes a Espanha que durou desde 1022 até 1094.

O fraccionamento do Califado e as lutas, por vezes violentas, em que se envolveram muitos dos reinos de taifa,favoreceram os Cristãos e o progresso da Reconquista. Em meados do século XI, os avanços do rei de Leão e Castela,Fernando I, conquistando Coimbra e ameaçando o vale do Tejo, induziram o rei de Badajoz a pedir auxílio aos chamados Almorávidas. 

Os Almorávidas haviam erguido um imponente império no Norte de África. Sentiu-se a ameaça que representavam para a independência dos pequenos reinos de taifa. Mas os muçulmanos espanhóis não tinham outra escolha. Os Almorávidas desembarcaram na Península, repeliram de facto os Cristãos mas resolveram ficar e reunificá-la sob o seu jugo.

Invertendo alianças, o rei de Badajoz pediu ajuda aos Cristãos, abrindo-lhes as portas de Santarém e de Lisboa (1093). Em vão. O poder almorávida tomara-se forte de mais para que se lhe resistisse. Todo o al-Garb 1hes caiu nas mãos (1094-1095). Pouco depois, as duas referidas cidades eram recuperadas e a fronteira muçulmana atingia novamente a bacia do Mondego.

Os reinos de taifa não duraram o bastante para criar no Sudoeste da Península Ibérica um conjunto político unificado. Para mais, os seus laços com o resto da Espanha muçulmana mantiveram-se sem quebra, dentro dum sistema fácil de comunicações e de relações económicas desenvolvidas. Foram Estados que nunca se sentiram auto-suficientes nem isolados do resto do mundo. 

Os seus chefes jamais assumiram o título de califa, ou sequer o de rei, actuando sempre como representantes de uma autoridade suprema fictícia. Acentuaram-se, apesar de tudo, os localismos durante a sua existência. e tais localismos nunca tiveram força bastante para cristalizar em independência, ajudaram certamente a sacudir um jugo doravante havido por insuportável. 

Metidas nos seus pequenos interesses e oprimidas por um sistema militar cada dia mais pesado e rude, as parcelas locais do al-Garb tomaram-se as melhores aliadas dos cristãos na Reconquista. 

(Condensado da História de Portugal de A.H. de Oliveira Marques)


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A Certidão de Nascimento de Portugal

"Bula "Manifestis Probatum" de Alexandre III

Modernamente, em que tanto se fala da Carta de Pêro Vaz de Caminha, como a certidão de nascimento do Brasil, em sentido figurado claro, vejamos a certidão de nascimento de Portugal como Estado Europeu.

Em 1179, contra o o tributo anual de dois marcos de ouro, 460 gramas, paga adiantadamente, o papa Alexandre III reconhece D. Afonso Henriques como rei, e o seu Estado, Portugal, como reino:

« Alexandre, Bispo, servo dos servos de Deus, ao caríssimo filho em Cristo, Afonso, rei ilustre dos Portugueses e aos seus herdeiros. Para perpétua memória. Está demonstrado com provas manifestas que, através de esforços bélicos e aguerridas pelejas, tens sido um intrépido extirpador dos inimigos do nome cristão e um diligente propagador da fé cristã; e, como bom filho e príncipe católico, tens também tido variadas atenções de benevolência para com a tua mãe a Santa Igreja, deixando aos vindouros um nome digno de louvor e um exemplo a imitar.


Mas é de justiça que também a Sé apostólica ame com sincero afecto aqueles que, por disposição celeste, foram lá do alto escolhidos para governo e salvação do povo, procurando eficazmente aceder às suas legítimas instâncias. Por isso Nós, reconhecendo a tua pessoa dotada de prudência e equidade, e portanto idónea para governar, te recebemos e ao reino de Portugal sob a protecção de São Pedro e Nossa, com todas as honras e dignidades próprias dos reis, concedendo-te por virtude da autoridade apostólica, e confirmando-te na posse de todos os lugares que, com o auxílio da divina graça, conseguires arrancar das mãos dos Sarracenos, sem que os príncipes cristãos teus vizinhos possam alegar sobre eles qualquer pretensões.

E para que a tua devoção e obediência a São Pedro, Príncipe dos Apóstolos, e à Santa Igreja Romana cresçam cada vez mais, quanto te concedemos a ti pessoalmente isto mesmo concedemos também aos teus herdeiros, tomando como um dever do Nosso "munus" apostólico defendê-los, com a ajuda de Deus, em tudo o que fica concedido. Por tua vez, filho caríssimo, terás o cuidado de te conservar submisso e devotado à Santa Igreja de Roma, exercitando-te, conforme as circunstâncias o permitirem, na dilatação dos confins da fé cristã, de modo que a Sé Apostólica se alegre por tão devoto e glorioso filho e descanse no teu amor.

Como prova de que o predito reino pertence por direito a S. Pedro, tu mesmo, para maior demonstração de reverência, estabeleceste dar- Nos todos os anos, a Nós e aos Nossos sucessores, dois marcos de oiro; o qual censo, para Nossa utilidade e dos nossos sucessores, tu e os teus herdeiros depositareis todos os anos nas mãos do Arcebispo de Braga, que então estiver à frente daquela Sé.»


( Condensado da História de Portugal de A.H. Oliveira Marques )


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A Figura de Inês de Castro


Quem era Inês de Castro


D. Inês Pérez de Castro era uma dama galega filha natural de D. Pedro Fernández de Castro, dito senhor da Guerra, grande senhor galego, primo direito de D. Pedro I, camareiro-mor de Afonso XI de Castela e de Aldonza Suárez de Valadares. Veio para Portugal em 1340, no séquito de D. Constança, noiva do infante D. Pedro.

A Formosa D. Inês, a quem chamavam o "colo de garça", impressionou D. Pedro, ao que parece desde os primeiros momentos, e assim nasceu o celebrado e desventurado romance entre os dois.

Diz Fernão Lopes na sua crónica do Rei D. Pedro I :

« que semelhante amor, qual el Rei Dom Pedro ouve a Dona Enes, raramente he achado em alguma pessoa»

D. Inês Pérez de Castro
Razões de ordem moral e política se levantaram contra o "grande desvairo". No amoroso, o parentesco entre eles ( D. Inês era prima em 2º grau de D. Pedro ), mas sobretudo ao facto de o rei ser casado. 

Quanto às razões políticas, a possibilidade, devida à ambição e influência da família castelhana Castro, de que os filhos da ligação poderem vir a subir ao trono de Portugal, em detrimento de D. Fernando, filho de D. Constança e de D. Pedro I.

Os amores de D. Pedro com D. Inês, começaram cedo logo com a chegada do séquito de D. Constança a Portugal. D. Afonso IV obrigou então Inês a retirar-se para Castela, aonde se conservou até à morte de Constança em começos de 1349. Todavia, logo que a princesa faleceu, D. Pedro fez regressar Inês de Castro, passando a viver com ela maritalmente e tendo dela quatro filhos, nascidos entre 1349 e 1354.

Talvez em 1351, tentou obter do Papa uma bula de dispensa que lhe permitisse o casamento com parente tão chegada. Não o conseguiu e alarmou D. Afonso IV e a alta nobreza cortesã que temia a interferência dos poderosos Castros castelhanos no jogo de influências da política portuguesa. Realmente parece não haver dúvidas que D. Pedro era um joguete nas mãos de Inês de Castro e dos seus parentes castelhanos.

O aspecto político do caso, teve desfecho espectacular na morte de D. Inês ( 7 de Janeiro de 1355 ), ordenada por D. Afonso IV, a conselho de Diogo Lopes Pacheco, Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves. Quando subiu ao trono, em 1357, D. Pedro concluiu o capítulo da chacina de D. Inês com o castigo exemplar de dois dos ex-conselheiros do seu pai. 


Assassinato de Inês de Castro
É curioso assinalar dois rumos diferentes na história de Inês de Castro. Um coevo e popular, considerá-la-ia uma figura antipática e intriguista. Uma mulher perversa e intriguista era uma Inês de Castro. Outro de formação literária, ( Garcia de Resende, Camões, António Ferreira), apresenta-a como uma vítima inocente e infeliz.

( Dicionário de História de Portugal de Joel Serrão )

Assassinato de D. Inês

O rei Afonso IV decidiu então que a melhor solução seria eliminar Inês. Depois de alguns anos no Norte, Pedro e Inês haviam regressado a Coimbra e se instalado no Paço de Santa Clara. 

Mosteiro de Santa Clara
A 7 de Janeiro de 1355, o rei cedeu às pressões dos seus conselheiros e, aproveitando a ausência de Pedro numa excursão de caça, enviou Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco para executar Inês. Os três se dirigiram ao Mosteiro de Santa Clara em Coimbra, onde Inês se encontrava, e degolaram-na. Tal facto, segundo a lenda, teria originado a cor avermelhada das águas que correm nesse local da Quinta das Lágrimas. 

A morte de Inês fez com que Pedro se revoltasse contra Afonso IV, que responsabilizou pela morte, e provocou uma sangrenta guerra civil. A rainha Beatriz interveio e, após meses de luta, a paz foi selada em Agosto de 1355.

Rainha póstuma

Coroação de Inês como Raínha
Pedro tornou-se o oitavo rei de Portugal em 1357. Em Junho de 1360, faz a famosa declaração de Cantanhede, legitimando os filhos ao afirmar que havia se casado secretamente com Inês, em 1354 "em dia que não se lembrava".

As palavras do rei e de seu capelão foram as únicas provas desse casamento.

O novo rei perseguiu os assassinos de Inês, que tinham fugido para Castela.

Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves foram apanhados e executados (segundo a lenda, o Rei mandou arrancar o coração de um pelo peito e o do outro, pelas costas, e assistiu à execução enquanto se banqueteava).

Diogo Lopes Pacheco conseguiu escapar para a França. Mais tarde foi perdoado pelo rei no seu leito de morte.


Pedro mandou construir dois esplêndidos túmulos - os túmulos de D. Pedro I e de Inês de Castro - no mosteiro de Alcobaça, um para si e outro para onde trasladou os restos de sua amada Inês. 

É curioso assinalar dois rumos diferentes na história de Inês de Castro. Um coevo e popular, considerá-la-ia uma figura antipática e intriguista. Uma mulher perversa e intriguista era uma Inês de Castro. Outro de formação literária, ( Garcia de Resende, Camões, António Ferreira), apresenta-a como uma vítima inocente e infeliz.

( Dicionário de História de Portugal de Joel Serrão )

Tumulo de Inês em Alcobaça
A tétrica cerimónia do beija mão, tão vívida no imaginário popular, provavelmente foi inserida nas narrativas do final do século XVI, depois de Camões descrever, no Canto III de Os Lusíadas, a tragédia da linda Inês, fazendo referência à "mísera e mesquinha, que depois de ser morta foi rainha". 

Juntou-se a Inês em 1367 e os restos de ambos jazem juntos até hoje, frente a frente, para que, segundo a lenda "possam olhar-se nos olhos quando despertarem no dia do juízo final".


sábado, 24 de agosto de 2013

Raínhas de Portugal - Dinastia de Aviz


D. Filipa de Lencastre ( Phillipa Plantagenet, Duchess of Lancaster ) - D. João I

Rainha de Portugal, nasceu em Leicester em 1359, era filha primogénita de João de Gaunt ( John of Gaunt ), filho do rei Eduardo III de Inglaterra e de D. Branca de Lencastre,( Blanche of Lancaster ) duques de Lancaster. Casou a 2 de Fevereiro de 1387 com D. João I, na Sé do Porto. D. Filipa era irmã de Henrique IV de Inglaterra. Faleceu de Peste Negra em Odivelasem 19 de Julho de 1415. 

Educada em Inglaterra, numa das propriedades rurais de seu pai, pouco se sabe da sua vida até aos 26 anos. Em 1386 embarcou com seu pai, sua madrasta e sua irmã, D. Isabel, para Castela, sendo então prometida a D. João I, rei de Portugal. Deste casamento nasceram oito filhos, descendência essa que
ficou conhecida como a "ínclita geração".

Foi uma rainha generosa e amada pelo povo. Os seus filhos que chegaram à idade adulta seriam lembrados como príncipes cultos e respeitados em toda a Europa.

D. Filipa nunca se desligou dos hábitos ingleses e, por sua influência, novos costumes se introduziram na corte portuguesa, o que viria a manifestar-se na conduta, na formação moral e até na actividade literária de seus filhos D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique e D. Fernando. D. Filipa promoveu sempre o fortalecimento das relações comerciais, políticas e diplomáticas com Inglaterra, sendo já o seu casamento, aliás, um contributo para a consolidação da aliança luso-britânica, estabelecida em 1372. Incitou a fidelidade de Portugal ao papa, acompanhando e interessando-se igualmente pela preparação dos planos para a conquista de Ceuta. ( Leia-se Os filhos de D. João I de Oliveira Martins )

Morreu de peste em Odivelas, nas vésperas da partida para Ceuta, não sem antes entregar a cada um dos infantes, D. Duarte, D. Pedro e D. Fernando, uma espada, com a qual viriam a ser armados cavaleiros por seu pai, D. João I. Foi sepultada em Odivelas, e posteriormente, trasladada para o mosteiro da Batalha, para a Capela do Fundador.

D. Leonor de Aragão - D. Duarte 

Rainha de Portugal, nasceu em 2 de Maio de 1402, filha de Fernando I, rei de Aragão e da Sicília, tornou-se rainha de Portugal pelo seu casamento com D. Duarte, que se celebrou emCoimbra, em 1428. Foi seu irmão, D. Afonso V de Aragão, quem tratou do consórcio, já que nele via a maneira mais eficaz de ligar solidamente as casas reais de Aragão e Navarra e de Portugal.

D. Leonor apoiaria seu marido, D. Duarte, em todo o seu reinado, e, aquando da tomada de decisão sobre a continuação da expansão portuguesa no norte de África, manifestou-se a favor desta empresa,
intercedendo mesmo junto de D. Duarte para que a expedição a Tânger tivesse lugar. D. Duarte tinha-a, de facto, como boa conselheira e uma prova da sua afeição por Leonor, reside no facto de lhe dedicar o Leal Conselheiro, num prefácio dirigido "à muito prezada e amada Rainha e Senhora". Faleceu em Toledo em 19 de Fevereiro de 1449.

Teve 8 filhos: Branca, Afonso, D. Duarte, Pedro, Henrique e Isabel, Fernando e João,

D. Duarte faleceu cedo (1438), deixando então D. Leonor como regente do reino, até D. Afonso V atingir a maioridade. Esta disposição gerou, contudo, grande controvérsia no reino, já que a opinião pública considerava os infantes D. Pedro, D. Henrique e D. João mais capazes de governar. D. Leonor manteve-se, no entanto, como regente até 1440, assinando os actos régios como "a triste rainha", ano em que foi substituída pelo infante D. Pedro, acabando por ser afastada da corte, e exilando-se então em Espanha, vindo a falecer em Toledo. Teve 8 filhos: João, Filipa, D. Afonso V, Leonor, Duarte, Joana, Catarina e Fernando.

D. Isabel - D. Afonso V 

D. Isabel, Rainha de Portugal, também chamada de D. Isabel de Lancastre, D. Isabel de Avis ou mais modernamente, no estrangeiro, D. Isabel de Coimbra; Nasceu em Évora em 1402 e faleceu em 2 de Dezembro de 1455, rainha de Portugal, filha do Infante-Regente D. Pedro, Duque de Coimbra e de sua mulher a princesa D. Isabel de Aragão, condessa de Urgel, filha do rei Jaime II de Aragão. Casou em 6 de Maio de 1447 com o seu primo direito D. Afonso V.

A rainha D. Isabel viveu desde a infância um belo caso de amor com o seu rei e primo, junto de quem foi criada na corte de seu pai, o regente, e que lhe retribuía com fervor essa afeição. Sofreu cruel
desgosto com a intriga urdida pelo 1º Duque de Bragança contra seu pai, que veio a culminar na Batalha de Alfarrobeira, não tendo este incidente no entanto diminuído a afeição e confiança absoluta existentes entre o Rei e a sua Rainha.Teve 3 filhos: João (1451-1452), Joana (1452-1490) e D. João II (1455-1495). 

Antes de morrer, a rainha D. Isabel de Aviz vai obter do rei e marido o arrependimento pelo tratamento dado aoInfante das Sete Partidas, cuja desgraça causara espanto, escândalo e consternação na Europa de 1449. A reabilitação da memória de D. Pedro ficou manifestada nas grandes cerimónias, ordenadas por D. Afonso V, na trasladação processional do corpo do Infante assassinado, pois este deslocava-se para a corte, obedecendo ao chamado do rei, acompanhado apenas de uma pequena comitiva e não armados para a guerra

Da humilde igreja de Alverca, onde por caridade o haviam sepultado em segredo, sob os degraus de pedra da entrada, alguns pescadores do rio Tejo, para Sta. Maria da Vitória da Batalha, junto de seus pais e irmãos. Ali, na Capela do Fundador, jaz também D. Isabel e seu marido, pais, filhos e netos, por ser esta o panteão da Dinastia a que todos

D. Leonor de Lencastre - D. João II 

Casou em 16 de Setembro de 1473. Nasceu a 2 de Maio de 1458 e faleceu em Xabregas, Lisboa, em 17 de Novembro de 1525. Filha do infante D. Fernando (irmão de D. Afonso V) e de D. Beatriz, casou aos 12 anos com o seu primo o futuro rei D. João II, então com15 anos, tornando-se assim rainha de Portugal. Desse casamento nasceu o príncipe D. Afonso, que nasceu em 1475 e morreu de acidente, numa queda de cavalo, em 1491.

Em 1476, ficou como regente do reino, por D. João II ter de se ausentar em defesa de seu pai em Castela. O facto de o seu filho D. Afonso ter morrido cedo levou a que D. João II pretendesse pôr no trono o filho bastardo (D. Jorge), levando D. Leonor a defender os interesses de seu irmão, D. Manuel,
na sucessão.

D. Leonor de Lencastre , destacava-se, pela formosura, inteligência e, sobretudo, pelo muito que sofreu e pelo bem que espalhou, Dona Leonor, a fundadora das Casas de Misericórdias, filha do Duque de Viseu, Dom Fernando, Grão Mestre de Aviz, e Grão Mestre de Santiago; neta Del Rei, Dom Duarte e duas vezes bisneta de Dom João I, Dona Leonor, a "Rainha dos sofredores", era de temperamento muito diverso do seu real consorte. Ela, linda e faceira, era impressionantemente bondosa. Tinha a fisionomia suavíssima, marcada pelos olhos azuis e cabelos louros, herdados de sua bisavó, Dona Filipa de Lencastre

Voltou a ser regente do reino em 1498, já durante o reinado de D. Manuel. Data desse período a criação dasMisericórdias, obra social que cresceu rapidamente e se espalhou por todo o reino. Deve-se-lhe também a construcção doHospital das Caldas que recebeu o nome de Caldas da Rainha (em sua homenagem) e o título de vila (1511). Foi também grande protectora e impulsionadora das artes e letras em Portugal. Fundou ainda os conventos da Madre de Deus e da Anunciada e a igreja de Nossa Senhora da Merceana.

Faleceu em Lisboa, tendo sido sepultada no convento da Madre de Deus. em campa rasa, ao lado da sua irmã, a Duquesa de Bragança.

D. Isabel de Aragão e Castela - D. Manuel I

Rainha de Portugal e primeira esposa de D. Manuel I. Nasceu em Dueñas a 2 de Outubro faleceu de parto em Saragoça em 28 de Agosto de 1498. Filha dos Reis Católicos espanhóis (Fernando e Isabel), veio para Évora em 1479 como caução por parte da vizinha Espanha no tratado das Terçarias de Moura. Aí casou em 1490 com o príncipe herdeiro de Portugal, D. Afonso, filho de D. João II.

Viúva em 1491, por morte de D. Afonso num acidente em Almeirim, voltou a casar, em 1497, com D. Manuel I quando este sucedeu a D. João II, colocando o casamento condições que obrigavam o monarca português a expulsar os judeus do país. Ambos foram jurados herdeiros dos tronos de Castela e Aragão (1498).

D. Isabel viria a morrer ao dar à luz o primogénito, D. Miguel da Paz, que, no próprio dia do nascimento, foi reconhecido e aclamado como herdeiro desses reinos e do de Portugal. O herdeiro, porém, viria a falecer com menos de dois anos de idade, pondo termo às esperanças de uma união ibérica.

D. Maria de Aragão - D. Manuel I

D. Maria de Aragão e Castela ou D. Maria de Trastâmara y Trastâmara Nasceu emCórdoba a 29 de Junho de 1482 , e faleceu em Lisboa a 7 de Março de 1517. Foi foi uma princesa aragonesa, segunda esposa de D. Manuel I, a qual viria a ser rainha de Portugal desde1501 até à sua morte.

Maria era filha dos Reis Católicos, Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão.

Teve quatro irmãos, entre os quais Joana a Louca, rainha de Castela, e Catarina de Aragão, esposa de
Henrique VIII de Inglaterra (da qual o rei inglês se virá a querer divorciar e que estará na origem da separação da Igreja Anglicana da Católica Romana), e ainda Isabel de Aragão(esposa do príncipe Afonso de Portugal e primeira mulher de D. Manuel I).

A morte desta última, em 1498, durante o parto do seu filho, levou a que D. Manuel, numa política de aproximação entre as duas casas reais peninsulares, se viesse a consorciar com a sua irmã Maria em 30 de Agosto de 1500, tendo aí iniciando-se uma ligação dinástica com a Espanha tão profunda que, em última análise, estará na origem dos acontecimentos de 1580.

D. Maria faleceu em 1517, com apenas 35 anos, de causas naturais. Foi sepultada na Madre de Deus, donde foi trasladada para o mosteiro de Belém.Casou com D. Manuel I em 1500. Teve dez filhos, entre os quais D. João III e o cardeal D. Henrique, que foram reis de Portugal, e D. Isabel de Portugal, que casou com o imperadorCarlos V.

D. Leonor de Áustria - D. Manuel I 

Rainha de Portugal, nasceu a 15 de Novembro de 1498 e faleceu em Talavera a 25 de Fevereiro de 1558, era filha de Filipe, o Belo, e de Joana, a Louca. D. Leonor foi educada na corte de seu irmão,
Carlos V, tornando-se, em 1519, a terceira mulher do rei D. Manuel I. Desse matrimónio nasceram o infante D. Carlos, que morreu cedo, e a infanta D. Maria.

Em 1521, ficou viúva de D. Manuel e, em consequência do tratado de Madrid (1526) e do de Cambray (1529), casou com Francisco I de França, no ano de 1530. Após a morte deste, em 1547, regressou aos Países Baixos, para junto de seu irmão Carlos V, morrendo uns anos mais tarde (1558) em Talavera. Foi sepultada no mosteiro do Escorial.




D. Catarina de Áustria - D. João III 

Rainha de Portugal, nasceu em 14 de Janeiro de 1507 e faleceu a 14 de Fevereiro de 1578. Era filha de Joana, a Louca, rainha de Espanha, e de Filipe, o Belo, arquiduque da Áustria e Duque da Borgonha. Casou com D. João III, em 5 de Fevereiro de 1525. Era neta dos reis católicos de Espanha, D. Fernando e D. Isabel, e irmã de Carlos V. Teve papel activo nos negócios do reino, participando nos
conselhos de estado e exercendo influência sobre seu marido.

Em 1557, após a morte de D. João III, tornou-se regente do reino e responsável pela educação do neto, D. Sebastião.

Abandonou a regência em 1562, passando Portugal a ser reinado pelo cardeal-rei D. Henriqueaté aos 14 anos de D. Sebastião. Continuou, porém, a intervir na educação do futuro rei.

Os conflitos entre avó e neto foram em grande número, dada a oposição de D. Catarina aos projectos de D. Sebastião para o norte de África. Recolheu-se ao Paço de Xabregas, morrendo meses antes da batalha de Alcácer Quibir. Foi fundadora de diversos mosteiros e igrejas.