terça-feira, 20 de agosto de 2013

A Figura de São Nuno Álvares Pereira


D. Nuno Álvares Pereira

D. Nuno Álvares Pereira nasceu em 1360, em local que não é fácil determinar, embora Cernache de Bonjardim e Flor da Rosa sejam os mais citados. Morreu em Lisboa no Convento do Carmo em 1431. Era filho do Prior da Ordem do Hospital e de Maria Gonçalves do Carvalhal. 

É uma das figuras mais famosas da nossa história, apontada sempre como modelo de virtudes cívicas e religiosas, um dos raros nomes que unanimemente é costume identificar com a própria existência nacional. A imagem de Nuno Álvares familiar a todos os portugueses, assenta em dois depoimentos do século XIV, o de Fernão LopeLopes e o do anónimo da Crónica do Condestrabe. É também essa imagem que reaparece modernamente na prosa sedutora de Oliveira Martins.



É uma das figuras mais famosas da nossa história, apontada sempre como modelo de virtudes cívicas e religiosas, um dos raros nomes que unanimemente é costume identificar com a própria existência nacional. A imagem de Nuno Álvares familiar a todos os portugueses, assenta em dois depoimentos do século XIV, o de Fernão

Foi, na verdade um extraordinário chefe guerreiro, embora se tenha apreciado de diversas maneiras a originalidade das tácticas que empregou. Talvez que essa originalidade na esteja na disposição da hoste para o combate, na utilização da cavalaria apeada e dos arqueiros, mas antes na intuição de que era necessário pôr de lado a velha e lenta maneira de cercar praças, conquistar castelos, negociar e arremeter, em interminável série de recontros, e escolher, em vez disso, a posição e o momento apreciado para decidir de um só golpe a situação.

Foi largamente recompensado em doações de terras, privilégios e honrarias por D. João I, de tal forma que o cronista lhe chamou «o segundo braço da defensão do reino». Tamanha grandeza social, chocou depois contra as tendências políticas e administrativas da Europa do seu tempo e provocou depois vários conflitos sobre jurisdições e domínios que tinham sido doados pelo rei. Em 1423, entra na Ordem dos Carmelitas, humilde e pobre, como desprendido de tudo.

Foi beatificado em 1918. D. Nuno Álvares Pereira foi canonizado como São Nuno de Santa Maria pelo papa Bento XVI às 9h 33min (hora dePortugal) de 26 de Abril de 2009.

( Dicionário de História de Portugal - Joel Serrão )

Guerra com Castela:


1ª Fase - 1384 Cerco de Lisboa e batalha dos Atoleiros ( Alentejo )17.000 a 19.000 combatentes do lado castelhano. Cerca de 7.000 combatentes pelo lado português.

2ª Fase - 1385 Trancoso, Valverde e a grande batalha de Aljubarrota, 14 de Agosto de 1385.

3ª Fase - 1396-97 Escaramuças pouco importantes. A paz foi assinada em 1432.

( A.H. Oliveira Marques - História de Portugal )


Camões imortaliza D. Nuno Álvares Pereira, no Canto IV, estrofe XIV dos Lusíadas:
« Mas nunca foi que este erro se sentisse
No forte Dom Nuno ; mas antes,
Posto que em seus irmãos tão claro o visse,
Reprovando as vontades inconstantes,
Àquelas duvidosas gentes disse,
Com palavras mais duras que elegantes,
A mão na espada, irado e não facundo,
Ameaçando a terra, o mar e o Mundo:
Nuno Álvares Pereira foi beatificado aos 23 de Janeiro de 1918 pelo Papa Bento XV, que consagrou o dia 6 de Novembro ao, então, beato. Iniciado em 1940, o processo de canonização foi posteriormente interrompido e, em 2004 reiniciado.

No Consistório de 21 de Fevereiro de 2009 - acto formal no qual o Papa pediu aos Cardeais para confirmarem os processos de canonização já concluídos -, o Papa Bento XVI anunciou para 26 de Abril de 2009 a canonização do Beato Nuno de Santa Maria, juntamente com quatro outros novos santos.

Foi canonizado como São Nuno de Santa Maria pelo papa Bento XVI às 9h 33min (hora de Portugal) de 26 de Abril de 2009.O processo referente a Nuno Álvares Pereira encontrava-se concluído desde a Primavera de 2008, noventa anos após sua beatificação.


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Figura de Luis Vaz de Camões

A Figura de Luis Vaz de Camões

Luís Vaz de Camões (N. c. 1524/25, Lisboa -- M. a 10 de Junho de 1580, Lisboa), o maior poeta português de sempre, autor do poema épico OsLusíadas (1572), que descreve a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama.

 Camões teve um impacto permanente e sem paralelo na literatura portuguesa e brasileira, devido a não só ao seu poema épico mas também à muita poesia lírica publicada posteriormente. Os Lusíadas são um poema épico escrito em 10 Cantos, em oitava rima e com 1.102 estrofes.

Dia de Portugal- 10 de Junho 

O dia da morte de Luís de Camões , dia 10 de Junho, é actualmente festejado como o Dia de Portugal. Sendo um pais de grandes guerreiros, navegadores e conquistadores, Portugal comemora o seu dia nacional homenageando um poeta, o que talvez seja único na história mundial.

A Vida de Luís de Camões (Tradução da Enciclopédia Britânica)

Há muito pouca informação válida sobre Luís de Camões. A sua biografia baseia-se principalmente em três fontes principais:

A ) - Informações dos seus biógrafos do século XVII

b ) - Alguns documentos descobertos no século XIX

C ) - Interpretações abstractas ( algumas cronologicamente incertas ) da sua própria vida descrita por ele nos seus trabalhos.

Supõe-se que Camões nasceu em Lisboa, de ascendência galega, entre 1524 e 1525., quando a expansão portuguesa no Oriente estava no seu auge. A tradição diz que Camões estudou em Coimbra, mas embora isso nunca tenha podido provar-se, não deixa de ser verdade que pouco poetas Europeus tinham na altura um conhecimento de cultura clássica e filosófica que se pudesse comparar à de Luís de Camões.

Luis Vaz de Camões

Supõe-se também que serviu como soldado em Ceuta, em 1550, aí perdendo um olho. Em 1552, de regresso a Lisboa, esteve preso durante oito meses por ter ferido, numa rixa, Gonçalo Borges, um funcionário da corte. Data do ano seguinte a referida "Carta de Perdão".

Nesse mesmo ano, segue para a Índia. Nos 17 anos seguintes, serviu no Oriente, ora como soldado, ora como funcionário, pensando-se que esteve mesmo em território chinês, onde teria exercido o cargo de provedor dos defuntos e ausentes, a partir de 1558. 

Em 1560 estava de novo em Goa, convivendo com algumas das figuras importantes do seu tempo (como o vice-rei D. Francisco Coutinho ou Garcia de Orta). Em 1567 iniciou o regresso a Lisboa. No ano seguinte, o historiador Diogo do Couto, amigo do poeta, encontrou-o em Moçambique, onde vivia na penúria; juntamente com outros antigos companheiros, conseguiu o seu regresso a Portugal, onde desembarcou em 1570.

Dois anos depois, D. Sebastião concedeu-lhe uma tença, recompensando os seus serviços no Oriente e o poema épico que entretanto publicara - Os Lusíadas. Camões parece que morreu a 10 de Junho de 1580 - ao que se diz, na miséria. No entanto, é difícil distinguir aquilo que é certo, e aquilo que é mito e lenda romântica, criados em torno da sua vida.

Trabalhos Literários

Os trabalhos poéticos de Camões podem ser divididos em três categorias : lírico, épico e dramático

A primeira edição das Rimas de Camões foi publicada em 1595, 15 anos depois da sua morte. O editor,Fernão Rodrigues Lobo Soropita, teve um imenso cuidado em reunir os poemas dos manuscritos, mas mesmo assim não pode evitar introduzir alguns poemas apócrifos. 

Estátua de Camões
A imensa fama dos épicos de Camões durante o século XVII também ajudaram a lançar as líricas à fama, e nesse mesmo esforço, não sempre recompensado, foram aparecendo mais poemas. Proeminente nesta tarefa, mas numa maneira condenada pela crítica moderna, foi Manuel de Faria e Sousa. Mesmo no século XIX, o Visconde de Juromenha acrescentou a já abundante colecção de poemas líricos, introduzindo na sua edição de 1860-69 muitos poemas dos manuscritos, que ainda não estavam estudados.


Como resultado os sonetos aumentaram de 65 na primeira edição para 352 na edição de Juromenha; o número total de poemas, incluindo sonetos, sextetos, odes, octetos, e as formas portuguesas conhecidas como canções, redondilhas, motos, esparsas, e glosas aumentaram de 170 na primeira edição para 593 em 1860. 

Com os trabalhos de Wilhelm Storck e Carolina Michaelis de Vasconcelos nos finais do século XIX e começos do século XX, começou uma reacção critica que levou a eliminação de muitos poemas apócrifos. 

Condensado da informação da Enciclopédia Britânica

Obras de Camões

Da obra de Camões, foram publicados, em vida do poeta, três poemas líricos, o poema épico Os Lusíadas, e foram representadas as peças teatrais Comédia dos Anfitriões, Comédia de Filodemo e Comédia de El-Rei Seleuco. 

As duas primeiras peças foram publicadas em 1587; a terceira, apenas em 1645, integrando o volume das Rimas de Luís de Camões, compilação de poesias líricas antes dispersas por cancioneiros, e cuja atribuição a Camões foi feita, em alguns casos, sem critérios rigorosos. Um volume que o poeta preparou, intitulado Parnaso, perdeu-se.

Na poesia lírica, Camões concilia a tradição renascentista (sob forte influência de Petrarca, no soneto) com alguns aspectos maneiristas; noutras composições, aproveita elementos da tradição lírica nacional, numa linha que vem já dos trovadores e da poesia palaciana, de que são exemplo as redondilhas.

Camões lendo os Lusíadas ao Santo Ofício
É no tom pessoal que confere às tendências de inspiração italiana e na renovação da lírica mais tradicional que reside parte do seu génio. Nos temas, da reflexão moralista sobre o desconcerto do mundo à intensa expressão do sentimento amoroso, tem-se procurado solução para as muitas lacunas em relação à vida e personalidade do poeta - como é o caso da sua relação amorosa com Dinamene, uma amada chinesa que surge em alguns dos seus poemas, ou de outras composições, que ilustram a sua experiência da guerra e do Oriente.

No entanto, foi com Os Lusíadas que Camões, embora postumamente, alcançou a glória. Poema épico, seguindo os modelos clássicos e renascentistas, pretende fixar para a posteridade os grandes feitos dos portugueses no Oriente. 

Aproveitando a mitologia greco-romana, fundindo-a com elementos cristãos o que, à época, e mesmo mais tarde, gerou alguma controvérsia - Camões relata a viagem de Vasco da Gama, tomando-a como pretexto para a narração da história de Portugal, intercalando episódios narrativos com outros de cariz mais lírico, como é o da "Linda Inês".

Túmulo de Camões nos Jerónimos
Os Lusíadas vieram a ser tidos como o grande poema épico nacional; toda a obra de Camões, de resto, influenciou a posterior literatura portuguesa, de forma particular durante o romantismo, que criou muitos dos mitos ligados à sua vida, mas também noutras épocas; alguns escritores e pensadores realistas colaboraram na preparação das comemorações do terceiro centenário da sua morte, pretendendo que a figura de Camões permitisse uma renovação política e espiritual de Portugal.

Amplamente traduzido e admirado, é a figura cimeira da língua e da literatura portuguesa.

MAIORES TRABALHOS

Poesia: Os Lusíadas (1572; Traduzido para inglês como "The Lusiads", por Sir Richard Fanshawe, 1655);Rimas de Luís de Camões 1595; ( Traduzido para inglês como "Camoens: The Lyricks", por Richard Burton, 2 vol., 1884).

PEÇAS TEATRAIS

Anfitriões e Filodemo, em Primeira Parte dos Autos e Comédias Portuguesas, por António Prestes, Luís de Camões, e (1587); El Rei-Seleuco, em Rimas (1645).

EDIÇÕES

As edições dos trabalhos de Camões em Português e em outras línguas contam-se por centenas, e a sua bibliografia é imensa. A edição mais moderna de Os Lusíadas de Camões na língua original é de Augusto Epifânio da Silva Dias, Os Lusíadas, 2 vol. (1916-18). A melhor edição contemporânea das líricas é de J. da Costa Pimpão, Rimas, ed. (1961). A tradução para inglês mais moderna dos Lusíadas, é "The Lusíadas of Luiz de Camõens "(1950) por Leonard Baon.

BIBLIOGRAFIA

Biografias. Friedrich Wilhelm Storck, tem uma biografia monumental de Camões, "Luis de Camoens Leben" (1890). Em inglês, temos de Aubrey F.G. Bell, Luis de Camões (1923); em português uma das melhores é a de António Salgado, Jr.'s, Obra Completa (1963).

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

1385 - Batalhas pela Independêmcia


Batalha dos Atoleiros

A Batalha dos Atoleiros ocorreu a 6 de Abril de 1384, no actual município português deFronteira no distrito de Portalegre, a cerca de 60Km da fronteira com Castela, entre as forças portuguesas, comandadas por Nuno Álvares Pereira, e uma expedição punitiva castelhana, enviada por João I de Castela, junto da povoação do mesmo nome no Alentejo.

D. Nuno Álvares Pereira, chefe militar português que tinha sobre o seu comando uma força de 1.200 homens de pé, dos quais 100 besteiros e 300 lanças (cavalaria ligeira e pesada). As forças castelhanas invasoras, contam com um efectivo de aproximadamente 5.000 homens

Por esta altura Nuno Álvares Pereira tinha sido nomeado pelo Mestre de Avis como fronteiro do Alentejo, temendo a entrada em Portugal do exército castelhano por aquela zona. Partindo de Lisboa, D. Nuno aumentou o número dos seus homens pelo caminho e aproximou-se do exército inimigo que intentava cercar Fronteira.

Mais numerosos e conscientes que D. Nuno os iria interceptar, os castelhanos enviaram um emissário ao chefe do exército português, tentando dissuadi-lo. Perante a recusa dos portugueses, o exército castelhano dirigiu-se ao seu encontro. O exército português já os aguardava,formando um quadrado, com a maioria das lanças na vanguarda; nas alas e retaguarda estavam os peões misturados com algumas lanças. Os castelhanos atacaram com a cavalaria, que foi contida pelas lanças e virotões, o que gerou grande desordem. A batalha durou pouco, tendo sofrido o exército castelhano pesadas baixas.


Batalha dos Atoleiros
As tropas castelhanas, que depois de desorganizadas foram tomadas pelo pânico e começaram a fugir em todas as direcções, sendo perseguidas ao longo de todo o resto do dia pelas forças de D. Nuno Alvares Pereira, que lhes deu caça até à distância de cerca de sete quilómetros do local da batalha. A batalha dos Atoleiros, constituiu na Península Ibérica a primeira e efectiva utilização das novas técnicas de defesa de forças de infantaria em inferioridade numérica perante uma cavalaria pesada muito superior. A mais conhecida destas será conhecida como a técnica do quadrado.

Uma das mais curiosas notas da batalha, é que embora as forças de Castela tenham sofrido perdas muito elevadas, principalmente com muitos mortos entre a cavalaria pesada (que era a força castelhana mais importante) do lado português não ocorreu uma única morte, nem se registaram feridos.

Este facto só por si, para a realidade da Idade Média era já de si importante, porque para um ambiente extremamente condicionado pela religião, a não existência de mortos ou feridos era vista como um prova de que o lado Português tinha o apoio de Deus.

Batalha de Aljubarrota

A Batalha de Aljubarrota marca o momento decisivo da guerra luso-castelhana de 1384-1397. Depois de levantar o cerco de Lisboa, D. João I de Castela voltou a reunir as suas tropas para tentar de novo conquistar Portugal. A 13 de Agosto os Castelhanos chegavam a Leiria, adiando o encontro com as tropas de D. João I de Portugal para o dia 14.

Nuno Álvares Pereira ao ver a superioridade numérica dos Castelhanos, fez rapidamente inverter as suas frentes de batalha, posicionando-as na estrada de Leiria para Lisboa. As tropas portuguesas, embora militarmente pior equipadas, conseguiram derrotar os Castelhanos graças ao excelente comando e às tácticas indicadas pelo Condestável Nuno Álvares.

Durante três dias a hoste portuguesa manteve-se no campo de Aljubarrota, em sinal de vitória, segundo o espírito cavaleiresco da época.

A Batalha de Aljubarrota marca o momento decisivo da guerra luso-castelhana de 1384-1397. Depois da invasão castelhana que cercou Lisboa ter retirado em virtude da peste, D. João I de Castela voltou a reunir as suas tropas para tentar de novo conquistar o nosso país, contando então com o apoio de várias praças e castelos que ainda lhe obedeciam.


Batalha de Aljubarrota
De facto, o Rei de Portugal, recém aclamado nas Cortes de Coimbra (Março de 1385), ainda em Julho tentava conquistar Torres Novas e Alenquer, enquanto os Castelhanos atravessaram a fronteira da Beira e se dirigiram sobre Coimbra, que não tentaram conquistar, prosseguindo depois para Lisboa. Reunidos em Abrantes, os exércitos de D. João I de Portugal e do Condestável Nuno Álvares Pereira, decidiram, depois da hesitação de alguns, interceptar os invasores. Avançaram, pois, até Tomar e Porto de Mós, ao mesmo tempo que os Castelhanos chegavam a Leiria.

A 13 de Agosto viram então os portugueses surgir das bandas de Leiria as avançadas castelhanas. Como o sol já declinava e as tropas vinham cansadas, D. João de Castela, doente, numas andas, adiara o ataque para o dia seguinte. E a 14, à vista do acanhado acampamento dos castelhanos, que todo o dia 13 se haviam mantido formados, à torreira do sol, sem comer, determinou o comandante fazer desfilar as suas incontáveis tropas pelo flanco esquerdo da posição, talvez no duplo intuito de os cortar de Lisboa e paralisá-los de terror. 

A orgulhosa parada durou meio dia e assombrou de facto a bisonha peonagem dos concelhos, mal armada, mal defendida nas suas armaduras de ferro. Mas o Condestável observava atentamente a manobra castelhana e, sem se abalar, fez rapidamente inverter as suas frentes de batalha «de como as tinha ordenado com as costas para Leiria e as tornou contra onde estavam seus inimigos», posicionando-as na estrada de Leiria para Lisboa, por Alcobaça, entre dois ribeiros a sul da Cavalaria.


Segundo os melhores cálculos, o condestável dispunha de 1700 lanças, 800 besteiros e 4000 peões, ao todo 6500 homens, fortemente concentrados na sua posição, admiravelmente guarnecida.

Os castelhanos traziam 5000 lanças, entre as quais muitos cavaleiros gascões e franceses, 2000 cavalos, 8000 besteiros e 15000 peões, num total de 30000 homens, com 700 carroças, milhares de animais carregando mantimentos e munições, 8000 cabeças de gado e muitos pajens e outra gente de serventia. 

Tão extenso e desordenado era este comboio que ainda a cauda da coluna vinha a léguas de distância quando a arrogante cavalaria da vanguarda se defrontou com os Portugueses. Infatigável, atendendo a tudo, o condestável dispôs as suas forças em três alas, com uma forte reserva à retaguarda. A vanguarda, de 600 lanças, alinhava-se agora com a frente para o sul, em torno do pendão do condestável, a meio da charneca, terreno pouco acidentado, igualmente vantajoso para ambas as partes. A ala esquerda da nova posição era a célebre ala dos namorados, comandada por Mem Rodrigues e Rui Mendes de Vasconcelos, 200 lanças de cavaleiros todos moços valorosos.

Nuno Alvares Pereira

Na ala direita, comandada por António Vasques, formavam 200 homens de armas, entre os quais os famosos arqueiros ingleses assoldados em Londres. As 700 lanças de reserva à retaguarda, comandadas pelo rei, mantinham-se interiormente em ligação com a vanguarda por uma dupla manga de peões e de besteiros. Por todo o campo ondulavam os balsões e insígnias dos cavaleiros, a bandeira verde da ala dos namorados, o pendão real das quinas e castelos, o estandarte branco e piedoso do condestável. 

O curral do parque, com os pajens, cavalos, armaduras e toda a bagagem da hoste, ficara estabelecido à retaguarda da reserva, bem guarnecida também por besteiros e homens de pé, que não só defendiam a carriagem, como apoiavam os flancos da reserva contra eventuais surpresas. Já o sol baixava a poente, quando as trombetas de Castela soaram na tarde cálida.

A batalha começou pelo estrondear das catapultas, que nos portugueses causou certo espanto. Mas, a artilharia tosca, de pedra, rebentou aos primeiros tiros, matando alguns dos próprios artilheiros. Refeita da primeira hesitação, a vanguarda de Nuno Álvares Pereira pôs-se em marcha, vagarosamente, consoante as instruções recebidas. Entretanto, nos seus cavalos de guerra, a extensa frente de batalha castelhana avançava um tanto desordenada, apoiada pelo tiroteio dos besteiros, ameaçando envolver a escassa frente portuguesa.

Mas os cavaleiros castelhanos, surpreendidos por verem os portugueses apeados, começaram a encurtar as suas lanças para as tornar mais manejáveis; o que lhes deteve o ímpeto e fez assim oscilar toda a linha, reduzindo-lhes a frente e deixando para trás os extremos, que se misturaram aos cavaleiros da retaguarda.

Assim se formou, em massa profunda, uma espécie de cunha, cujo choque foi tão violento, que toda a vanguarda portuguesa vacilou, rompeu ao centro, e, flectindo em ambos os lados, deixou penetrar pela brecha no seu campo quase toda a cavalaria da vanguarda inimiga. Desligadas, perplexas, à espera de ordens, as duas alas castelhanas não se moveram para reforçar o ataque. 

Ao mesmo tempo, na frente portuguesa, com admirável coesão, as duas linhas quebradas tornaram-se a fechar sobre si mesmas, reconstituindo a face do quadrado e cortando a frente da retaguarda inimiga; e enquanto da nossa ala direita os arqueiros ingleses flechavam tranquilamente os cavaleiros castelhanos entrados no nosso campo, a ala dos namorados acometia-os do seu lado com brava fúria. Imediatamente el-rei D. João, avançando com a sua reserva de 700 lanças, vinha acabar de esmaga-los entre a sua massa e a ala dos namorados.

Mais perplexas, pela unidade do ataque e pela incompreensão do que se passava, a retaguarda e uma das alas castelhanas recuaram logo, emaranhando-se nas suas próprias bagagens, produzindo maior confusão e um pânico súbito, que alastrou logo por todo o campo. Foi o próprio rei o primeiro a dar o exemplo, fugindo com a sua escolta para Santarém que ainda se lhe mantinha fiél.

Os portugueses redobraram então de energia e precipitaram o espantoso desbarato de tão orgulhosa e poderosa hoste. Somente o Mestre de Alcântara fez ainda um desesperado esforço para evitar a vergonhosa derrota.

Com a sua cavalaria fez um largo rodeio pela direita para atacar, à retaguarda, a peonagem do rei D. João; mas, a essa altura, já o condestável, vitorioso, pode acorrer com a sua cavalaria aos seus peões e animá-los a repelir o tardio ataque. 

Falhado esse último golpe, o terror e o desbarato dos castelhanos tornaram-se indescritíveis. À excepção do corpo de cavalaria, que retirou logo para Santarém, o resto, mesmo as duas alas que podiam ter coberto a retirada, abalaram em fuga desordenada por todo o campo. Fizeram-se milhares de prisioneiros, tomou-se toda a bagagem, o despojo foi magnifico. E tudo se resolvera em pouco mais de meia hora.

Chegado alta noite a Santarém, D. João de Castela nem aí se sentiu seguro e veio logo rio abaixo até Lisboa, onde embarcou numa galé da frota, para Sevilha. Durante três dias a hoste portuguesa manteve-se no campo de Aljubarrota, em sinal de vitória, segundo o espírito cavaleiresco da época.

A enorme derrota desmoralizou fortemente o inimigo, e principalmente aqueles que ainda resistiam em cidades portuguesas, fazendo que, a partir daí, as operações militares se reduzissem quase só às zonas de fronteira. É claro que o ambiente de contradições que ainda reinava no nosso país levava a que os partidários de D. João I acentuassem vivamente o triunfo e o considerassem como sinal de protecção divina, fazendo do acontecimento motivo de propaganda. De facto, a descrição da batalha por Fernão Lopes e a construção do Mosteiro da Batalha mostram bem o aproveitamento ideológico que dele se fez.

A Padeira de Aljubarrota

Brites de Almeida, a Padeira de Aljubarrota, foi uma figura lendária e heroína portuguesa, cujo nome anda associado à vitória dos portugueses, contra as forças castelhanas, na batalha de Aljubarrota (1385). Com a sua pá de padeira, teria morto sete castelhanos que encontrara escondidos num forno.

A lenda

Brites de Almeida teria nascido em Faro, em 1350, de pais pobres e de condição humilde, donos de uma pequena taberna. A lenda conta que desde pequena, Brites se revelou uma mulher corpulenta, ossuda e feia, de nariz adunco, boca muito rasgada e cabelos crespos. Estaria então talhada para ser uma mulher destemida, valente e, de certo modo, desordeira.

Teria 6 dedos nas mãos, o que teria alegrado os pais, pois julgaram ter em casa uma futura mulher muito trabalhadora. Contudo, isso não teria sucedido, sendo que Brites teria amargurado a vida dos seus progenitores, que faleceriam precocemente. Aos 26 anos ela estaria já órfã, facto que se diz não a ter afligido muito.



Vendeu os parcos haveres que possuía, resolvendo levar uma vida errante, negociando de feira em feira. Muitas são as aventuras que supostamente viveu, da morte de um pretendente no fio da sua própria espada, até à fuga para Espanha a bordo de um batel assaltado por piratas argelinos que a venderam como escrava a um senhor poderoso da Mauritânia.

Acabaria, entre uma lendária vida pouco virtuosa e confusa, por se fixar em Aljubarrota, onde se tornaria dona de uma padaria e tomaria um rumo mais honesto de vida, casando com um lavrador da zona. Encontrar-se-ia nesta vila quando se deu a batalha entre portugueses e castelhanos. Derrotados os castelhanos, sete deles fugiram do campo da batalha para se albergarem nas redondezas. Encontraram abrigo na casa de Brites, que estava vazia porque Brites teria saido para ajudar nas escaramuças que ocorriam.
Brites no Forno
Quando Brites voltou, tendo encontrado a porta fechada, logo desconfiou da presença de inimigos e entrou alvoroçada à procura de castelhanos. Teria encontrado os sete homens dentro do seu forno, escondidos. Intimando-os a sair e a renderem-se, e vendo que eles não respondiam pois fingiam dormir ou não entender, bateu-lhes com a sua pá, matando-os. Diz-se também que, depois do sucedido, Brites teria reunido um grupo de mulheres e constituido uma espécie de milícia que perseguia os inimigos, matando-os sem dó nem piedade.

Os historiadores possuem em linha de conta que Brites de Almeida se trata de uma lenda mas, assim mesmo, é inegável que a história desta padeira se tornou célebre e Brites foi transformada numa personagem lendária portuguesa, uma heroína celebrada pelo povo nas suas canções e histórias tradicionais.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Henrique o Navegador

Henrique o Navegador

Terceiro filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre , o Infante D. Henrique nasceu em 4 de Março de 1934 cidade do Porto. Com os irmãos, formou uma das mais esclarecidas proles da história portuguesa, celebrada na literatura romântica com o epíteto de Ínclita Geração.

A primeira grande empresa do infante foi a participação na conquista de Ceuta, em 1415, onde foi armado cavaleiro. Feito duque de Viseu nesse mesmo ano, a casa senhorial de D. Henrique tornou-se, em poucos anos, uma das mais significativas da sua época, consolidada, em 1418, com a administração da Ordem de Cristo.

Foi um inegável desafogo económico que levou o infante a organizar uma armada de corso, primeiro, e, mais tarde, a exploração do Atlântico: de facto, navios ao seu serviço chegaram pela primeira vez à Madeira (1419), aos Açores (1427) e às costas norte-africanas, dobrando, em 1434, o Cabo Bojador, e vencendo deste modo os medos ancestrais relacionados com aquelas paragens longínquas. 

Após um breve período de interregno, marcado pela funesta expedição a Tânger, onde perdeu a vida seu irmão, o infante D. Fernando, as viagens de exploração retomaram, em 1441, o seu ritmo inicial, atingindo-se a Guiné e o arquipélago de Cabo Verde. 

Animado certamente por um espírito militante e voluntarioso de missionação, o infante D. Henrique buscava também o alargamento dos seus proventos e de novos mercados, uma estratégia que tanto agradava à pequena nobreza senhorial como à burguesia emergente. 

Os seus interesses científicos, muito discutidos, não foram meramente instrumentais, tendo mesmo patrocinado a introdução de uma cátedra de Astronomia na Universidade de Lisboa e diversa produção cartográfica de apoio às navegações, embora não com o espírito sistemático que lhe atribuiu a tradição. Em Sagres, onde se recolhia regularmente e onde foi escrito o seu derradeiro testamento veio a morrer a 13 de Novembro de 1460.

Conquista de Ceuta

Em 1414, convenceu seu pai a montar a campanha para a conquista de Ceuta, na costa norte-africana junto ao estreito de Gibraltar. A cidade foi conquistada em Agosto de 1415, assegurando ao reino de Portugal o controlo das rotas marítimas de comércio entre o Atlântico e o Levante. Na ocasião foi armado cavaleiro e recebeu os títulos de Senhor da Covilhã e duque de Viseu.




A 18 de Fevereiro de 1416, foi encarregado do governo de Ceuta. Cabia-lhe organizar, no reino, a manutenção daquela praça-forte em Marrocos.

Em 1418, regressou a Ceuta na companhia de D. João, seu irmão mais novo. Os infantes comandavam uma expedição de socorro à cidade, que sofreu nesse ano o primeiro grande cerco, imposto conjuntamente pelas forças dos reis de Fez e de Granada. O cerco foi levantado, e D. Henrique tentou de imediato atacar Gibraltar, mas o mau tempo impediu-o de desembarcar: manifestava-se assim uma vez mais a temeridade e fervor antimuçulmano do Infante.

Ao regressar a Ceuta recebeu ordens de seu pai para não prosseguir tal empreendimento, pelo que retornou para o reino nos primeiros meses de 1419. Aprestou por esta época uma armada de corso, que atuava no estreito de Gibraltar a partir de Ceuta. Dispunha assim de mais uma fonte de rendimentos e, desse modo, muitos dos seus homens habituaram-se à vida no mar. Mais tarde, alguns deles seriam utilizados nas viagens dos Descobrimentos.

A Ordem de Cristo

O cargo de mestre passara após 1417 a ser exercido por membros da Casa Real, que se passaram a nomear administradores e governadores por nomeação papal.

O primeiro foi o infante D. Henrique, «que a encaminhou para o que parecia ser sua «missão» inicial, a de conquista da Ásia, através das viagens marítimas, que a própria ordem financiou.»2

O Mosteiro de Leça do Balio 
Os ideais da expansão cristã reacenderam-se no século XV quando seu Grão-Mestre, Infante D. Henrique, investiu os rendimentos da Ordem na exploração marítima. O emblema da ordem, a Cruz da Ordem de Cristo, adornava as velas das caravelas que exploravam os mares desconhecidos.

O resultado disso é que em 1454 e 1456, através de bulas do Papa Nicolau Ve do Papa Calisto III respectivamente, é concedido ou dada obrigação à Ordem de Cristo de estabelecer o direito espiritual sobre todas as terras descobertas, como territórios nullius diocesis, sendo sua sede diocesana a Igreja de Santa Maria do Olival, em Tomar.

Cronologia do Infante D. Henrique

1394: Quinto filho d’el-Rei D. João I e de D. Filipa de Lencastre, nasce a 4 de Março na cidade do Porto -

1408: O pai doa-lhe casa com rendas próprias e bons servidores. -

1415: Atingida pela peste, morre D. Filipa de Lencastre. O Infante D. Henrique distingue-se na batalha da conquista de Ceuta, no norte de África; nessa mesma praça é armado cavaleiro. -

1416: O Infante D. Henrique recebe o ducado de Viseu e o senhorio da Covilhã. -

1418:. É descoberta a ilha de Porto Santo (Madeira). -

1419: O Infante D. Henrique chefia força portuguesa que obriga exército mouro a abandonar o cerco a Ceuta. -

1420: O Infante D. Henrique é nomeado regedor da Ordem de Cristo. Por sua indicação, Bartolomeu Perestrelo povoa a ilha de Porto Santo. O Infante D. Henrique congemina o “Plano das Índias”: localizar, alcançar e fazer aliança com o misterioso Preste João das Índias para se atacar a moirama pela retaguarda. Contrata Jaime de Maiorca, famoso cosmógrafo e cartógrafo catalão. -

1421: Criação da diocese de Ceuta. -

1424: D. Fernando de Castro comanda expedição às Canárias. -

1425(?): Início da colonização da Madeira. -

1426: Gonçalo Velho dobra o Cabo Não (África ocidental) -

1427: Descobrimento das ilhas do centro e leste do arquipélago dos Açores. -

1431: O Infante D. Henrique é nomeado protector da Universidade. -

1433: Morre D. João I e D. Duarte sobe ao trono. O novo monarca doa ao Infante D. Henrique o arquipélago da Madeira. -

1434: Gil Eanes dobra o Cabo Bojador (África ocidental), ao sul do qual, diziam as lendas do Mar Tenebroso, era impossível manter-se a vida. -

1436: A 50 léguas ao sul do Bojador, Afonso Gonçalves Baldaia descobre o Rio do Ouro. É promulgada a bula que autoriza a guerra contra os Infiéis, em Marrocos. O Papa reconhece o direito de Castela à posse das Canárias. -

1437: Contra o parecer do Infante D. Pedro, mas aprovada por el-Rei D. Duarte, os Infantes D. Henrique e D. Fernando chefiam expedição portuguesa para a conquista de Tânger; desastre militar e o Infante D. Fernando é aprisionado pelos mouros e levado para o cativeiro. -

1438: Morre D. Duarte, deixando herdeiro menor de idade, o futuro D. Afonso V; a viúva d’el-Rei, D. Leonor de Aragão, assume a regência; devido à contestação popular (mulher e estrangeira...), será depois substituída pelo Infante D. Pedro, irmão de D. Duarte. -

1439: Início do povoamento dos Açores. -

1440: Tristão Vaz Teixeira é nomeado primeiro capitão-donatário da Madeira (Machico). -

1441: Por esta data, é projectado e começa a ser construído no Algarve um novo tipo de navio, a caravela. É alcançado o Cabo Branco, ao sul do Sahara. São desembarcados no Reino os primeiros cativos negros caçados em África. -

1443: Em Fez, morre no cativeiro D. Fernando, o Infante Santo. O Infante D. Pedro concede ao seu irmão D. Henrique o monopólio de navegação, guerra e comércio nas terras ao sul do Bojador. Nuno Tristão alcança a ilha de Arguim, onde os árabes mantêm um mercador regular de escravos e produtos ricos; o Infante D. Henrique manda ali construir uma fortaleza-feitoria. -

1444: Álvaro Fernandes dobra o Cabo Verde (cabo na costa africana, não o arquipélago que virá a ter o mesmo nome). -

1445: Dinis Dias alcança a foz do rio Senegal. João Fernandes, falando perfeitamente o árabe, percorre o Sudão e alcança Timboctu, centro das caravanas do deserto portadoras das mercadorias preciosas do Oriente e da África. Descoberta do arquipélago dos Bijagós, na costa da Guiné. -

1446: O regente Infante D. Pedro promulga as Ordenações Afonsinas. Nuno Tristão sobe um rio da Guiné (talvez o Barbaci), sendo atacado e morto pelos indígenas. D. Afonso V alcança a maioridade. O Infante D. Henrique doa a capitania de Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo. -

1448: Em litígio com o regente Infante D. Pedro, D. Afonso V assume o poder. -

1449: Na batalha de Alfarrobeira (perto de Alverca) o exército de D. Afonso V liquida o Infante D. Pedro e a maioria dos seus partidários. -

1450: Gomes Eanes de Zurara sucede a Fernão Lopes no cargo de cronista régio e escreve a Crónica da Tomada de Ceuta (data provável). -

1452: Diogo de Teive descobre as ilhas de Flores e Corvo (grupo ocidental dos Açores). -

1453: Os Turcos tomam Constantinopla, toda a Cristandade sente-se ameaçada com a expansão do Islamismo. Zurara escreve a Crónica da Conquista da Guiné (data provável). -

1455: Bula do Papa Nicolau V concedendo aos reis de Portugal a propriedade exclusiva das terras e mares já conquistados ou por conquistar, possuídos ou a possuir. Em Lagos o Infante D. Henrique funda a feitoria de tratos de Arguim. -

1456: Cadamosto descobre algumas das ilhas do arquipélago de Cabo Verde. -

1458: Com a participação do Infante D. Henrique, os portugueses conquistam Alcacer-Ceguer aos mouros. -

1459: O Infante D. Henrique entrega a capitania do Funchal a Gonçalves Zarco. -

1460: A 13 de Novembro, na sua vila de Sagres, morre o Infante D. Henrique.

terça-feira, 30 de julho de 2013

A Figura de Nuno Gonçalves

Nuno Gonçalves ( 1450-72), 

Um dos grandes mestres da pintura do século XV

Pintor português reconhecido como um dos grandes mestres do século XV. Depois da descoberta em 1882 do seu único trabalho conhecido, a pintura do altar do convento de São Vicente, e depois de 400 anos de anonimato, Nuno Gonçalves foi finalmente reconhecido como o fundador da escola de pintura Portuguesa e um artista de importância Universal.

Aparentemente Gonçalves foi pintor de D. Afonso V em 1450. Francisco de Holanda nos seus "Dialogues on Ancient Painting "(1548), refere-se a Nuno Gonçalves como uma das" águias" um dos mestres do século XV -- mas o seu nome e trabalhos estavam perdidos na história.




A sua obra prima para a catedral de Lisboa foi destruída no terramoto de 1755, e a sua outra obra com o tema de São Vicente, o santo patrono de Lisboa e da casa real de Portugal, desapareceu até 1882, quando foi descoberta no convento de São Vicente. Não foi senão em 1931, quando sua obra foi exposta em Paris, que Gonçalves recebeu o reconhecimento internacional que merecia.

O Políptico de São Vicente (hoje no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa) consiste em seis painéis, dois largos e quatro mais estreitos, dominado pela figura de São Vicente. No maior deles, o "Painel do Infante", o santo é venerado por um grupo de nobres, entre os quais Afonso V. 

No outro "Painel do Arcebispo" ele é rodeado pelos clérigos e cavaleiros. Nesta portentosa galeria de figuras agrupadas numa composição medieval há uma meditação na peregrinação das almas, de cristãos numa viagem de descoberta a volta do santo patrono. Este é o trabalho de um mestre que mostra alguns traços do arte Italiano e flamengo mais que também revela o seus próprios tributos, uma economia de linha, pincelada brilhante, soberba caracterização, e uma maestria de composição, todas unidas e subordinadas a uma visão religiosa do trabalho.


Condensado da informação da Enciclopédia Britanica

sábado, 27 de julho de 2013

A Escravidão em África

Escravidão em África 

O estudo do processo de escravização dos povos africanos é essencial para que se compreenda a situação atual de desigualdade no planeta. Revela uma longa história de exploração e subjugação de populações fragilizadas por outras, mais equipadas. Demonstra também que a desestruturação económica e cultural tem efeitos desastrosos de longa duração. 
Transporte de escravos na África. Gravura de 1890

Do ponto de vista económico, a escravidão foi uma forma eficiente de acumulação primitiva.

No que diz respeito às pessoas, foi uma violência irreparável, que pressupõe, dentre outros fatores, a existência de povos muito pobres, mão de obra excedente que possa ser explorada em benefício de uma minoria.

Assim, parte do atual contexto sócio-económico da África de miséria e exclusão é consequência de fatos passados. 

Escravidão na África: uma antiga forma de exploração 

A escravidão esteve presente no continente africano muito antes do início do comércio de escravos com europeus na costa atlântica. Desde por volta de 700, “prisioneiros capturados nas guerras santas que expandiram o Islã da Arábia pelo norte da África e através da região do Golfo Pérsico" eram vendidos e usados como escravos. Durante os três impérios medievais do norte da África (séculos X a XV), o comércio de escravos foi largamente praticado.

Lovejoy apresenta o conceito de modo de produção escravista (de E. Terray) como fundamental para uma compreensão mais completa do funcionamento político, económico e social da África - e também das colónias portuguesas (?) nas Américas. Segundo sua definição, o modo de produção baseado na escravidão é aquele em que pre-Principais rotas de escravos no fim da Idade Média dominam a mão de obra escrava em setores essenciais da economia; a condição de escravo no mais baixo nível da hierarquia social; e a consolidação de uma infra-estrutura política e comercial que garanta a manutenção desse tipo de exploração.

A escravização do africano pelo africano por interesses Hoje, a escravidão nos choca sob qualquer forma que ela se apresente, todavia, a escravidão africana divergiu profundamente de escravidão racista nas Américas.

Por exemplo, o Kouroukan Fouga, a Constituição do Império do Mali veementemente proíbe maus-tratos ao escravo em seu artigo 20.

Além disso, muitos dos povos africanos adotaram o Islão que, por sua vez, prescreve aos religiosos tratar os escravos “generosamente” (ihsan) (IV, 36) e considera a alforria como um gesto merecedor e uma obra de beneficência.

Muitos escravos puderam, assim, alcançar posições de poder e influência. No Egito temos o exemplo de Abu alMisk Kafur, originalmente escravo de origem etíope que se tornou regente do Egito. Em Marrocos, destaca-se o político Ibn Marjan (d. 1728), um eunuco negro encarregado da tesouraria, bem como dos servos negros no palácio durante a vida do Mawlay Ismael. . No Império Mali, Mansa Sakura, escravo de nascimento, foi libertado e tornou-se um general do exército de Sundiata Keita posteriormente nomeando-se o sexto imã.

A PRESENÇA EUROPEIA NA COSTA ATLÂNTICA E O COMÉRCIO DE ESCRAVOS 

Operador do império Mande.  

Segundo as crónicas árabes, os regimentos negros, chamados ‘abid al-shira’ (escravos comprados), tornaram-se um importante elemento dos exércitos fatímidas. Eles conquistaram um papel principal no reinado de al-Mustansir (1035-1094), graças ao indefectível apoio que lhes foi conferido pela mãe do califa, escrava sudanesa de muito caráter. No apogeu de sua potência, eles eram 50.000. 

Escravos negros também alcançaram destaque na Índia, tendo sido Malik Ambar o mais notável deles sendo referido como o guru da guerrilha Maratha. Na África Ocidental, o jonya era um escravo ligado a uma linhagem. Nas sociedades em que reinou esse sistema, ele pertencia a uma categoria socio-política integrada a classe dominante; era então cidadão exclusivo do Estado e pertencia a seu aparelho político. 

Enquanto sistema e categoria social, o jonya desempenhou um papel considerável e original nos Estados e impérios de Gana, Takrur, Mali, Kanem-Bornu, Ashanti e Iorubá. Os soberanos sudaneses também importavam escravos. Ibn Battuta nos relatou que quando o imperador do Mali sentava no trono em praça pública, atrás dele postavam-se cerca de 30 mercenários mamelucos, comprados para ele no Cairo. Também havia os worossos que eram escravos “nascidos no meio” descendentes dos jons (escravos capturados ou comprados) sendo que ambas as classes de escravos tinham direito de trabalhar em seu próprio benefício por determinado período. 
Povos do Imp´rio Mande

Era possível para eles juntar sua própria propriedade pessoal havendo, inclusive, o termo 'jon ma jon' para definir o escravo pertencente a outro escravo.

O comércio de escravos foi muito importante no Império Songhai.

Os escravos era muitas vezes usado como soldado, e foi muito honrado e digno de confiança. Escravos palacianos eram chamados Arbi. Arbis trabalhavam como músicos, artesãos, ceramistas, e muitos outros trabalhos artísticos. Os escravos também trabalhavam em fazendas para produzir alimentos que apoiava moradores locais. 

Em muitas sociedades africanas, havia muito pouca diferença entre os camponeses livres e os camponeses vassalos feudais. A maioria dos escravos vivia em suas próprias casas en famille. Logo, o mestre era obrigado a prover seu escravo com alguma extensão territorial cultivável na qual ele poderia trabalhar por conta própria, e lhe era permitido um ou dois dias livres na semana onde ele poderia trabalhar em sua própria fazenda ou em qualquer outra ocupação remunerada, ao invés da trabalhar na fazenda gandu de seu senhor. 

Muitas tribos rivais faziam prisioneiros em conflitos e vendiam-nos para árabes e europeus. Existia, também, a escravidão por dívidas. De fato, este foi um dos elementos-chave responsável pela mercantilização dos povos africanos. Nas razias, quando as comunidades eram invadidas, as pessoas eram capturados por grupos armados e, depois de serem levadas até entrepostos no litoral africano, eram trocadas com os traficantes por mercadorias. 

D, Afonso V por von Ehingen 
Os navios negreiros saíam do Brasil provisionados com alimentos para a viagem, além dos gêneros utilizados para a troca, como aguardente de cana, armas dos mais variados tipos, gêneros manufaturados e alimentos.

Pela Bula Dum Diversas, de 18 de Junho de 1452, o papa Nicolau V considera o rei de Portugal D. Afonso V, e seu sucessores, a faculdade de conquistar e subjugar as terras dos "infiéis" e de reduzir a pessoa deles escravatura . 

Já em meados da década de 1470 os “portugueses tinham começado a comerciar nos golfos do Benim e frequentar o delta do rio Níger e os rios que lhe ficavam logo a oeste”, negociando escravos.

Mesmo assim, as primeiras excursões portuguesas à África subsariana foram pacíficas (o marco da chegada foi a construção da fortaleza de São Jorge da Mina, em Gana, em 1482). Embora houvesse a exceção do Mali. Os portugueses chegaram na costa Senegâmbia em 1444, porém, eles não estavam vindo em paz. 

Usando caravelas para lançar ataques e escravizar a população no litoral africano, os territórios vassalos do Mali foram tomados  de surpresa pelos navios e os homens de peles brancas dentro deles. No entanto, o Império Mali rebateu os ataques portugueses com pequenas embarcações. O Mandekalu (exército imperial malinês) infligiu uma série de derrotas contra o português, devido à utilização de flechas envenenadas. As derrotas forçaram o rei de Portugal a despachar seus cortesão Diogo Gomes em 1456 para garantir a paz.


O esforço foi bem-sucedido e concluído em 1462, e o comércio tornou-se o novo foco de Portugal ao longo da Senegâmbia. Os portugueses muitas vezes casavam~se com mulheres nativas e eram aceitos pelas lideranças locais. Os investimentos na navegação da costa oeste da África foram inicialmente estimulados pela crença de que a principal fonte de lucro seria a exploração de minas de ouro, expectativa que não se realizou.

Assim, consta que o comércio de escravos que se estabeleceu no Atlântico entre 1450 e 1900 contabilizou a venda de cerca de 11.313.000 indivíduos. 

Em torno do comércio de escravos, estabeleceu-se o comércio de outros produtos, tais como marfim, tecido, tabaco, armas de fogo e peles . Os comerciantes usavam como moeda pequenos objetos de cobre, manilhas e contas de vidro trazidos de Veneza. Mas a principal fonte de riqueza obtida pelos europeus na África pode ter sido mesmo a mão-de-obra demandada nas colónias americanas e que pareceu-lhes uma boa justificativa para os investimentos em explorações marítimas que, especialmente os portugueses, vinham fazendo desde o século XIV. 

Dessa forma, embora no século XV os escravos fossem vendidos em Portugal e na Europa de maneira geral, foi com a exploração das colónias americanas que o tráfico atingiu grandes proporções. O investimento europeu em guerras geradoras de escravos modificou profundamente a África e também as Américas. Cidades atacavam outras cidades, escravizando a população. Paul Lovejoy faz uma descrição pormenorizada de diversos casos de escravidão. 

Igualmente ele chama a atenção para o caráter de relação de dependência inerente à escravidão, o indivíduo na situação de escravo ficava numa situação em que não tinha autonomia alguma e que dependia do seu senhor para suas necessidades mais fundamentais, como no caso de mulheres que se tornavam concubinas. Desde muito antes da chegada dos portugueses a Gana, a escravidão articulada com a expansão do Islã sempre esteve calcada em interesses sexuais. 

Os árabes vendiam os homens e ficavam com as mulheres, que eram absorvidas pelas comunidades e, conforme incorporavam valores das sociedades de seus senhores, ganhavam maior liberdade. Os filhos eram assimilados pela sociedade muçulmana. Além disso, as mulheres faziam quase todo o trabalho agrícola. A preferência dos traficantes africanos por cativos do sexo feminino foi um fator decisivo para que, no início de seus negócios nessa área, os europeus comprassem muito mais homens do que mulheres. 

Outro fator importante foi a constatação de que os homens eram mais resistentes às péssimas condições de salubridade a que eram submetidos nas longas viagens de travessia do oceano Atlântico em navios negreiros. Também por isso, as populações de escravos, tanto na África como nas Américas, não tinham como se sustentar por meio da reprodução biológica, o que gerava uma constante substituição dos escravos por novas levas e girava a máquina dos negócios dos traficantes. Dessa forma, “o trabalho escravo estava diretamente relacionado à consolidação da infra-estrutura comercial que era necessária para a exportação de escravos”. 

Angola 

Na colónia de Angola, a exportação de mão de obra escrava pelo porto de Luanda terá sido alvo de competição no século XVII entre portugueses e holandeses. É depois da disputa entre os colonizadores, cujo vencedor foi o reino de Portugal, que pode ter se originado a captura direta de escravos, nas chamadas Guerras Angolanas, no seio de certas tribos que tinham lutado contra os portugueses. 

Foi dessa forma que Angola se tornou um centro importante de fornecimento de mão de obra escrava para o Brasil, onde crescia não apenas a produção de cana-de-açúcar no Nordeste, mas também a explora- ção de ouro na região central. Navios com mercadorias de Goa faziam escala em Luanda lá deixando panos, as chamadas “fazendas de negros”. Dali, seguiam para Salvador, na Bahia, carregados de escravos e de outras mercadorias provenientes da Índia (como louças e tecidos). Foi assim que Salvador se tornou um centro difusor de mercadorias da Índia pela América do Sul. Os negócios foram se estruturando aos poucos. 

Num primeiro momento, os governadores da colónia detinham o poder de determinar o preço dos escravos. O pagamento era feito em ouro proveniente de Minas Gerais, no Brasil. Mais tarde, em 1715 a coroa portuguesa proibiu que os governadores se envolvessem com o tráfico. Negociantes provenientes do Brasil (principalmente do Rio de Janeiro, da Bahia e também de Pernambuco) assumiram as rédeas do comércio, que se aqueceu. A principal feira fornecedora de escravos para o porto de Luanda era a feira de Kassanje. 

No século XVIII, a cachaça brasileira (geribita) passou a ter papel de destaque nas trocas, sendo valorizado tanto em Angola quanto no Brasil. Figurava, ao lado da seda chinesa e as armas europeias, como uma das principais moedas de troca. Era, na verdade, a moeda mais corrente, já que o comércio de armas era controlado e a seda chinesa a só chegava à África depois de passar por Lisboa, o que elevava seu preço e reduzia sua liquidez.

Escravos (incluindo seus filhos) reunidos em uma fazenda de café no Brasil, c. 1885 

Outro produto brasileiro valorizado na África era o fumo de corda de Salvador. A crise em Portugal Em 1755, Portugal foi abalado por um terremoto e começou a perder o controle do tráfico. Na tentativa de reverter a situação, em 1761 foram editadas leis que obrigavam os navios a fazer escala em Lisboa ou em uma alfândega em Luanda. Mas, até 1769, apenas quatro navios haviam seguido as novas leis. O que levou à construção de presídios para abrigar os desobedientes. No continente africano, a submissão das populações também já não era tão simples como no passado. 

Povos do interior começaram a organizar ataques com armas obtidas no comércio realizado no litoral do Atlântico. Tentou-se inclusive, embora sem sucesso, constituir uma cavalaria em Angola. Pouco a pouco, a escravatura foi sendo abolida. No entanto, foi também no século XVIII que Portugal tomou a dianteira na abolição da escravatura. Foi no reinado de dom José I, a 12 de Fevereiro de 1761, pelo Marquês de Pombal, que se aboliu a escravatura no Reino/Metrópole e na Índia.  

A PRESENÇA EUROPEIA NA COSTA ATLÂNTICA E O COMÉRCIO DE ESCRAVOS 

Os reflexos nas sociedades As medidas protecionistas adotadas por Portugal afastaram os negociantes brasileiros para outros portos menos controlados, e a exclusão do intermédio português no trá- fico então foi conquistada. Em 1840, cessa o tráfico através de Luanda, e brasileiros tocam as últimas décadas de comércio escravo. A escravização de populações africanas começou a perder fôlego quando, no início do XIX, ingleses e franceses abandonam o tráfico e começam a pressão para sua extinção. 

Até quando os ingleses passaram a afundar os navios negreiros que cruzavam o Atlântico, as fazendas que produziam café no sudeste do Brasil ainda usavam mão de obra escrava proveniente da África ou descendente de escravos africanos. O sobado de Kabuko Kambilu Ao sul de Luanda, deságua o Rio Kwanza, que vem do interior do continente. Esse rio foi de fundamental importância na penetração portuguesa, além de servir de corredor para a comercialização de mercadorias de regiões interioranas como Lunda, Kassanje, Malanje, Lubolo, Matamba, Ambaca, Cazembo e outras. 

Às margens desse rio, tradicionalmente, se organizavam os sobados, agrupamentos de famílias que respeitavam o chefe de linhagem, que, por sua vez, prestava obediência ao soba, líder escolhido por conselheiros. De maneira geral, os sobas serviram como instrumentos de dominação e controle das sociedades africanas pelos europeus. Durante o período colonial, o soba se transformou num vassalo do colonizador, sob a ameaça de receber em seu povoado uma “expedição punitiva”, ou seja, saque e escravização. 

Em troca da obediência, tinha maior acesso a mercadorias, o que teoricamente aumentava seu poder local. Na outra face da moeda, nota-se que, no século XIX, os portugueses dependiam totalmente da lealdade de sobas influentes. Kabuku Kambilu era um dos maiores sobados da região de Angola, já forte antes da chegada dos portugueses no século XVI. O chefe (conhecido como Kabuku Kambilu) era reconhecido pelos demais sobados como a “primeira autoridade”, detentor de poderes mágico-religiosos. 

A ordem foi desequilibrada quando o grupamento se aliou aos portugueses e, entre 1875 e 1880, adotou uma política de agressão armada aos sobados vizinhos, passando a controlar grande parte do comércio e do tráfico. Com o passar do tempo, entretanto, as desavenças internas e o crescente descontentamento dos portugueses tiraram do Kabuko suas principais fontes de renda: o monopólio da travessia do Rio Lukala e as feiras de Mukoso, Kangongue e Lukala. Mais tarde, fazendeiros brancos de Cazengo expandiam suas propriedades até os limites da área ocupada pelo do povo do Kabuku.  

A África Oriental (Costa do Índico e Madagascar) 

Não foi apenas em Angola que os portugueses agiram. Juntamente com a exploração do Atlântico, eles alcançaram o continente africano pela costa do oceano Índico, encontrando, nas cidades costeiras, o povo suaíli. O centro do poder português na exploração da África oriental era Goa (costa oeste da Índia). Indianos mantinham relações de comércio com a África Oriental desde o século XV. 

A presença portuguesa se consolidou na Zambézia no século XVI. Foram feitas alianças com alguns chefes locais que receberam armas de fogo em troca de terras em que exploravam aldeias. Mesmo os aliados, no entanto, eram obrigados ao pagamento de impostos (a chamada curva), sob a ameaça de uma repreensão militar (“empata”). Nessa área, o título do líder era “monomotapa”, que dominava muitos reinos. A ação dos portugueses provocou um desequilíbrio nas forças internas, levando o reino dos Mocarangas a expulsar os Tongas do interior para o litoral, onde eram presas fáceis para os europeus. 

Em 1572, desembarcou, na Zambézia, a expedição de Francisco Barreto, com o intuito de dominar as minas de ouro e prata que se julgavam estar sob o controle do monomotapa. A expedição penetrou na região e perdeu muitos integrantes. Provocou grande destruição, queimando inclusive as capitais de Teve e Manica. Como o ouro era pouco para ambição portuguesa, ali se estabeleceu um sistema diferente. 

Os portugueses construíram pequenos feudos, chamados “prazos”. Sobre eles, sabemos que a herança era passada para a filha do dono, o “prazeiro”, e não para seu filho homem. E que a herdeira era obrigada a casar com um português, de maneira a assegurar a presença de homens portugueses no comando das terras. No fim do século XVII, a população de Chamgamira, em Butua, começou a opor resistência ao domínio português. 

Mais tarde, no século XVIII, a intensificação do comércio e a presença dos “prazeiros” provocaram a insurgência de chefias locais contra a liderança do monomonapa, e em seguida o enfraquecimento do poder africano em geral. Assim, se estabeleceu uma situação de desordem. Tanto os antigos líderes locais como os portugueses perderam poder de influência. Foi nessa situação que chegaram, à região, dois novos exploradores: os holandeses (boers), agricultores que estabeleceram grandes fazendas e absorveram parte da cultura local, passando, inclusive, a falar um misto do idioma holandês com linguagens locais, chamado africâner; e os ingleses, financiados pelo empresário Cecil Rhodes,  

O legado da escravidão que assumiram o tráfico de escravos. Os aliados locais dos britânicos eram os Ngunis, que dominaram os povos das regiões de Tongas e Carangas depois de muita guerra, negociavam-nos com os negreiros. Outro fenómeno é digno de nota na região nesse período: o aumento da influência árabe, com a difusão do islamismo na região.  A transformação da escravidão na África Como se viu, no início do século XIX havia forte pressão para que o tráfico de escravos africanos promovido por europeus fosse extinto. 

Esse movimento, ao contrário do que se poderia esperar, não extinguiu a escravidão no continente africano, mas fez nascer o modo de produ- ção escravista dentro da própria África. Diferente, como não poderia deixar de ser, daquele praticado nas colônias americanas, o modo de produção escravista na África foi incorporado de muitas maneiras. Foram introduzidas plantations (principalmente na savana setentrional), além do trabalho em minas na chamada Costa do Ouro (que contava com um estado centralizado capaz de continuar coagindo indivíduos à escravidão). 

Ocorre que não havia na África como controlar todo aquele contingente de indivíduos escravizados sem a ajuda dos europeus. Muitos fugiam ou se revoltavam encorajados pela retórica abolicionista de missionários e reformadores – figuras que se tornavam cada vez mais comuns. “A imposição do colonialismo extinguiu a escravidão como um modo de produção e marcou a completa integração da África na órbita do capitalismo”. 

Não se deve incorrer no erro, no entanto, de acreditar que um sistema tão arraigado ao longo de séculos na cultura africana pudesse ser simplesmente abandonado e esquecido de um momento para o outro. O que se deu, a princípio, foi a transição do tráfico de escravos para o comércio “legítimo” – um processo repleto de problemas e de implicações. A persistência da prática no Daomé (antigo reino africano localizado na região em que hoje está o Benim) é um exemplo ilustrativo. 

Apoiado pelo rico e influente traficante de escravos brasileiro Francisco Félix de Souza (Chacha), ocorreu ali um golpe de estado. Em 1818, chegou ao fim o curto e polémico reinado de Adandozan. Quem assumiu o comando, Guezô, permaneceu no poder por quarenta anos, nos quais incentivou o novo comércio, superando a “crise de adaptação” com sucesso. Assim como no golfo de Biafra, em Daomé o comércio de escravos e o de azeite de dendê (principal mercadoria do comércio legítimo) se expandiu até a década de 1860. 

Mas, a partir de 1840, o declínio do tráfico já se mostrava iminente.  O legado da escravidão A venda de indivíduos na condição de escravos organizada por europeus uniu a África e as Américas, da mesma maneira que a escravidão havia atraído povos africanos para a órbita islâmica. Em termos demográficos, o Brasil foi redesenhado nos três séculos de tráfico de escravos. É claro que a escravidão deixou um legado de inúmeros problemas. 

O preconceito racial, o desdém pelo estudo da história africana, e até mesmo o desprezo pelo trabalho por aqueles que estão no topo da pirâmide económica. Estimulada por novos “preceitos da ciência”, como o darwinismo social, a discriminação racial se acentuou no XIX e, mais de um século após a abolição da escravatura no Brasil, a maior parte das escolas particulares desses país ainda têm mais brancos do que negros. São os brancos que alcançam os melhores postos de trabalho e os salários mais elevados. 

E, para agravar a situação, a população negra do Brasil experimentou um processo de assimilação. A miscigenação, que se verificou desde o tempo colonial (e não ocorreu nas regiões americanas colonizadas por ingleses, franceses e espanhóis) se tornou uma forma de ascensão social e inibiu movimentos de afirmação de um povo que sempre foi majoritário no país – e nunca alcançou o poder.

Atualmente, numa iniciativa que visa à redução das distorções históricas, estão sendo estabelecidas cotas para garantir o acesso de todos à educação, à saúde e ao trabalho. 

São de se ressaltar também a lei 9 394, segundo a qual “O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e europeia”, e a lei 10 639, sancionada em 2003 e ainda não implementada, que inclui no currículo oficial dos estabelecimentos de ensino básico das redes pública e privada o estudo obrigatório de história e cultura afro-brasileira. Na África, o resultado do sistema escravagista foi devastador. 

Comunidades que antes conviviam pacificamente se militarizaram e travaram guerras infindáveis. Enquanto durou a escravidão, os escravos, assim “produzidos”, eram vendidos em feiras e exportados. Depois, os antagonismos étnicos entre os capturados e os captores se acentuaram, de forma que mesmo após a retirada dos últimos colonizadores, já no final do século XX, as guerras continuaram ocorrendo. 

Houve mais interferências externas. O empresário inglês Cecil Rhodes, por exemplo, investiu largamente em mineração, e fundou o estado da Rhodésia, depois dividido em Rhodésia do sul e Rhodésia do norte, hoje Zâmbia e Zimbábue. Queria formar um império inglês. 6 5 VER TAMBÉM Mais tarde, o problema foi agravado, e generalizado, pelo fato de a África ter sido dividida em países artificiais, forjados pela régua dos burocratas da Organização das Nações Unidas (ONU) após a Segunda Guerra Mundial. 

Sem levar em conta a cultura local, a ONU subjugou ao tacão de líderes não reconhecidos como tal, povos com hábitos, idiomas e economias diversas. Outras circunstâncias contribuíram para que a África chegasse ao século XXI como o continente mais pobre, injusto e desigual do planeta. Uma delas foi a introdu- ção de mercadorias estrangeiras, ainda no tempo colonial, que provocou a ruína do sistema de produção local. Em Angola, o sistema do sobado entrou em decadência com a implantação de plantations. 

Outros centros comerciais próximos ao Rio Kwanza, como o Dongo, passaram a comercializar borracha, cera, café, amendoim e outros produtos demandados pelos europeus – em detrimento da produção de bens de subsistência essenciais para a população. O resultado dessa história milenar de exploração e injustiça são as guerras civis e a extrema pobreza em que o continente chafurda até os dias atuais.

Conclusão 

A escravatura foi determinante na conformação das sociedades brasileira e africana. Na África, a exploração da mão de obra escrava, primeiro pelos árabes e depois pelos europeus, provocou uma desestruturação de enormes proporções. 

No Brasil, criou uma situação social em que as oportunidades ao alcance dos afro-descendentes eram e, infelizmente, por vezes ainda o são diferentes do que as oferecidas aos euro-descendentes e aos originários da Ásia. Nesse movimento, muitos dos povos africanos perderam sua cultura, sua liberdade, suas riquezas. A história mostra que há pontos de inflexão, em que as transformações se mostram inevitáveis, e ocorrem em processos pacíficos ou por revoluções. 

No entanto, como afirmou o economista Celso Furtado, "... as observações que vimos de fazer referem-se a simples hipóteses escolhidas em um campo aberto de possibilidades históricas. Por exemplo: é possível que se prolongue por muito tempo a fase de estagnação...”. 


NOTA - Esta informação foi retirada da Wikipedia.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A Figura de Vasco da Gama


Quem era Vasco da Gama?

Vasco da Gama, nasceu provavelmente em Sines, em Salas ou em alguma aldeia próxima, no final da década de 1460 - cerca de 1469. É o terceiro filho de Estêvão da Gama, cuja família era oriunda da vila de Olivença e de Isabel Sodré, descendente do fidalgo inglês Sudley, que viera há muito a Portugal para participar nas guerras contra Castela.

Perito em navegação, protegido por D. Jorge, filho ilegítimo de D. João II e pelo prior do Crato, D. Diogo de Almeida, Vasco da Gama é fidalgo da Casa Real, cavaleiro da Ordem



de Santiago e presta importantes serviços a D. João II, principalmente na repressão contra corsários franceses.

D. Manuel I, atraído por esse indómito capitão que todos diziam obstinado, " audaz na acção, severo no comando e terrível na sua cólera", nomeia-o capitão-mor da armada que irá descobrir o caminho marítimo para a Índia.


Vasco da Gama partiu de Lisboa ( Restelo ), a 8 de Julho de 1497, levando três naus e um navio de mantimentos. Chegou à ilha de Santiago ( Cabo Verde ) nos princípios de de Agosto e, a 8 de Novembro, ancorou na angra de Santa Helena ( ainda na costa ocidental da África ), após uma larguíssima rota através do Atlântico Sul.

Uma vez dobrado o cabo da Boa Esperança e a seguir, os cabos das Agulhas e do Infante, ancorou na Angra de S. Brás, onde foi destruído o navio dos mantimentos. Passou ao largo do cabo do Recife e rumou então para o Norte. Alcançou o rio dos Bons Sinais ( Foz do Zambeze ), Quelimane, em Moçambique ), aportando depois a Mombaça e Melinde ( duas cidades do actual Quénia ).



Foi em Melinde que Vasco da Gama, tendo obtido as boas graças do sultão local, conseguiu que este lhe cedesse um piloto conhecedor dos segredos que permitiam uma boa travessia do Índico. 

Com tão preciosa colaboração, Vasco da Gama e os seus homens alcançaram finalmente a Índia, aportando a Capua ( duas léguas a norte de Calecute ), no dia 20 de Maio de 1498.E assim, pela primeira vez, ficava estabelecida a ligação, por via marítima, entre a Europa e a longínqua Índia e imortaliza-o, pois ainda à bem pouco tempo, a revista Life considerou-o uma das 100 figuras mundiais mais importantes, do último milénio.

Regressa a Lisboa a fins de Agosto de 1499, sendo recebido apoteoticamente pelo rei e pelo povo. 


D Manuel II cumula-o de honras e dádivas, concede-lhe o distintivo de Dom, extensivo à família, nomeia-o almirante do mar da Índia e promete-lhe o título de conde.

Volta a regressar à Índia em 1502 para castigar a chacina dos homens de Pedro Álvares Cabral e exerce ferozes represálias sobre Calecute e lançou as bases da hegemonia portuguesa no Índico.

Volta à Índia em 1524, já como conde da Vidigueira investido por D. João III no título de vice-rei levando amplos poderes para atalhar os abusos e excessos de alguns idalgos. 

Volta a fazer justiça, impondo a ordem com mão de ferro, mas adoeceu gravemente em Cochim, onde faleceu a 24 de Dezembro do mesmo ano.

Em 1538 os seus restos mortais foram repatriados para a Vidigueira, para a capela da Quinta do Carmo e transladados no final do século passado para o Mosteiro dos Jerónimos.