sexta-feira, 19 de julho de 2013

Figuras da 1ª dinastia

A Figura de D. Sebastião

Nasceu em 20 de Janeiro de 1554 filho do príncipe D. João, jurado herdeiro do trono em 1554 e D. Joana de Áustria, filha de Carlos V. Morreu na batalha de Alcácer-Quibir em 4 de Agosto de 1578. D. Sebastião nasceu vinte dias depois da morte do seu pai, sendo por isso "O Desejado". Pouco inteligente e pouco culto ( Joel Serrão - Dicionário de História de Portugal ) de temperamento irrequieto e impulsivo, extraordinariamente vaidoso, nunca admitiu a mais pequena observação ou ouviu qualquer conselho. 

Ainda que tivesse ficado na história como O Desejado, as suas incapacidades de governante foram trágicas para Portugal, levando-nos em Alcácer-Quibir à nossa maior derrota militar, seguida da perda da independência. Os seus desequilíbrios mentais, agora muito na moda, são descritos em pormenor na História de Portugal de Veríssimo Serrão.


Fugia das mulheres e do amor como o diabo da cruz, tanto porque julgava esse sentimento efeminado incompatível com os seus hábitos guerreiros, e porque o seu espírito religioso lhe fazia ver o ideal da vida humana na castidade ascética. D. Sebastião tornou-se completamente um escravo dos jesuítas, que tudo tinham feito por lhe desenvolver o fervor religioso, que animavam o seu afastamento das mulheres, porque a influencia duma mulher, esposa ou amante, destruiria para sempre a influência do confessor. 

Como as cortes insistiam para que el-rei escolhesse noiva entre as princesas europeias, D. Sebastião resignou-se, e principiou a negociar-se o seu casamento com a célebre Margarida de Valois, irmã de Carlos IX. No entanto o embaixador francês em Lisboa escreveu a Carlos IX, indicando-lhe que D. Sebastião sofria de "blenorragia", estranha doença para quem detestava o sexo fraco, e assim os propósitos de casamento foram cancelados.

Durante uma viagem que fez pelas províncias, fugindo da peste de Lisboa, praticou as maiores extravagâncias. Mandava abrir os túmulos dos reis seus antepassados, extasiava-se diante dos que tinham sido guerreiros, mostrava o mais completo desdém pelos pacíficos, principiando a inspirar a todos os mais sérios receios esta sua índole destemperada e bravia que se curvava ao jugo dos jesuítas. 

Batalha de Alcacer Quibir
Ficou extasiado pelo tamanho das ossadas de D. Afonso III, e repreendeu severamente os restos de D. Pedro I no seu túmulo, que não foi aberto, pelas suas loucuras amorosas com Inês de Castro ! Os restos mortais de D. Sebastião foram sepultados no Mosteiro dos Jerónimos em 1582, com a presença de Filipe I de Portugal. Os negócios de Estado foram sempre um peso para ele, tendo sempre alijado em outros os cuidados da governação. 

Nunca casou," Falar-lhe em casamento é falar-lhe em morte" informava o embaixador de Espanha, e o padre José de Castro conhecedor dos arquivos secretos do Vaticano, dizia que o rei nunca casou porque não podia casar.

A Figura de Fernão Lopes

Fernão Lopes, ( 1380 - 1460 ), historiador português, o primeiro e maior dos cronistas reais portugueses e um dos melhores escritores de prosa em português do século XV. Ocupa um espaço especial na historiografia medieval portuguesa porque foi um dos primeiros a tentar chegar à verdade histórica através da evidência de documentos históricos.

Nada se sabe ao certo sobre a vida inicial de Fernão Lopes, e o seu nome é mencionado primeiramente em 1418, quando dirigiu os arquivos reais por largo tempo. Em 1434 o Rei D. Duarte pediu a Fernão Lopes para escrever as crónicas de Portugal desde as origens da monarquia até aos tempos de D. João I.


O novo cronista preparou-se para esta tarefa estudando os arquivos reais e viajando pelo reino examinando os arquivos monásticos e outros, observando epitáfios e familiarizando-se com a topografia de cidades e campos de batalha. Quando se retirou em 1454, tinha completado a sua história de Portugal até 1459.

Todas as suas crónicas até à morte de D. Afonso IV ( 1357 ) desapareceram até ao século XVI quando foram utilizadas por Rui de Pina, que fez uma transcrição incompleta das suas obras. Permaneceram intactas a Crónica de D. Pedro I, uma crónica mais elaborada Crónica de D. Fernando, e uma massiva Crónica de D. João I, que ainda que incompleta, tem cerca de 400 capítulos. Esta última foi o primeiro trabalho de Lopes a ser impresso em 1644. 

Como muito dos documentos em que Fernão Lopes se baseou para escrever as crónicas já desapareceram, o valor dos seus trabalhos é importante para o estudo da História medieval portuguesa. Fernão Lopes escreveu numa prosa rica, ligeiramente arcaica, com um distinto gosto popular, numa linguagem fluente , e o seu estilo foi característico do período em que viveu. 

Condensado da Enciclopédia Britânica

O sucessor de Fernão Lopes foi Gomes Eanes de Zurara, que continuou a crónica mas com um nível artístico muito mais reduzido. O seu trabalho principal foi a Crónica da Tomada de Ceuta e a  Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné 


Cronologia de Fernão Lopes

C. de 1380: Em Lisboa, numa família de camponeses ou de mesteirais, nasce Fernão Lopes. Terá frequentado a Escola Catedral de Lisboa. 

1418: Regista-se o mais antigo documento existente sobre o cronista, revelando a sua condição de Guarda-Mor da Torre do Tombo. Assinala-se também a sua posição como escrivão de D. João I e do infante D. Duarte. 

1419: Por ordem do infante D. Duarte, começa a redigir a Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal; escreve depois as crónicas de D. Pedro e D. Fernando, bem como as duas primeiras partes da crónica de D. João I. 

1422: Exerce a função de escrivão da puridade do infante D. Fernando. 

1434: D. Duarte, acabado de subir ao trono, concede ao cronista uma tença de 14 000 réis anuais e carta de nobreza, como reconhecimento pelos seus méritos. Passa a usar o título de «vassalo de el-rei». 

1437: Na fracassada expedição a Tânger, fica também prisioneiro o seu filho, Mestre Martinho, médico de D. Fernando. 

1439: O regente D. Pedro confirma a tença concedida por D. Duarte, falecido no ano anterior. 

c.1443: Seu filho morre no cativeiro. 1449: D. Afonso V aumenta a tença anual para 20 000 réis anuais. 

1451-52: A idade avançada obriga-o a afastar-se do seu trabalho na Torre do Tombo vindo em 1454 a ser substituído no cargo de «guardador das escrituras do Tombo» por Gomes Eanes de Zurara. 

1459: Regista-se o seu envolvimento num litígio para deserdar um neto, Nuno Martins, filho bastardo do mestre Martinho. Fernão Lopes terá morrido pouco tempo depois, provavelmente em 1460.


Infante Don Pedro 

(Lisboa 1392-1449): Segundo filho de D. João I e de Filipa de Lancaster. Nasce em 9 de Janeiro de 1392. Durante a sua infância recebe uma cuidada educação e, desde 1408, acumula um importante património. João I l e dá-lhe a vila de Penela, os realengos de Campores e Rabaçal, o Castelo da Lousã, os Paços de Tentúgal e muitos outros senhorios.

D.Pedro era neto de John of Gaunt, 1º Duque de Lencastre e bisneto de Eduardo III, rei de Inglaterra..

AS SETE PARTIDAS DO MUNDO

O Infante D. Pedro assenta arraiais no ontem que perdura enquanto pressente o amanhã que tarda, terreno movediço, vacilações. Teme perder o equilíbrio, lusco-fusco das transições. Gostaria de saber e sentir o que se passa no resto do mundo e decide viajar. Não só para visitar e conhecer as principais Cortes da Europa mas também a Terra Santa e, se possível, o Reino do Preste João.

Com a anuência do pai e os bolsos recheados de dinheiro e cartas de crédito sobre banqueiros italianos, resolve partir de Portugal. Convida o seu irmão D. Henrique a acompanhá-lo. Mas este já está empenhado nas navegações ao longo da costa de África e pede escusas. Pede também que D. Pedro lhe recolha cartas de marear e narrativas de viagem de mercadores genoveses e venezianos e ainda que obtenha o máximo de informações sobre o Preste João das Índias.

Em 1418 o Infante D. Pedro larga de Lisboa acompanhado por numeroso séquito, cavaleiro andante. Quem fica a administrar as suas terras é o seu irmão mais novo, Infante D. Fernando. Apesar de ter apenas 16 anos, é varão ajuizado. A paz já está firmada entre Portugal e Castela e em Valhadolid encontra-se com o rei de Castela (afinal seu primo), o qual lhe cede alguns intérpretes de línguas orientais.

De Espanha ruma para a Hungria, onde o imperador Segismundo o acolhe calorosamente. Por ele, bate-se contra os hereges hussitas da Boémia e, durante cinco anos, envolve-se em batalhas na Alemanha. Recebe do imperador o feudo de Treviso. Em 1424 deixa Álvaro Gonçalves de Ataíde como governador de Treviso e dirige-se para Chipre e desta ilha para a Terra Santa, recapitulando o itinerário dos antigos cruzados.

Em Roma é recebido pessoalmente pelo papa Martín V. Estando em Flandres, escreve a seu irmão D. Duarte uma carta na que o aconselha sobre o bom governo do seu reino.
Na ilha de Patmos é recebido faustosamente por Amurat II, Sultão da Turquia. Pressente que a expansão otomana irá converter-se num grave problema para toda a Europa. Parte para Constantinopla e dali navega até ao norte de África, Alexandria e Cairo. Visita a Palestina e a Terra Santa. Regressa ao Cairo e em 1425 embarca para o sul da Europa.

Alcança Paris donde passa para a Corte da Dinamarca e daqui para a Inglaterra onde o seu tio Henrique IV, irmão de D. Filipa de Lencastre, o investe como Cavaleiro da Ordem da Jarreteira. Segue para Ostende, na Flandres, onde combina o casamento da sua irmã Isabel com Filipe, o Bom. Demora-se dois anos na Corte flamenga. Exerce influências para intensificar o comércio luso-flamengo. É de Bruges que, em 1427, escreve a D. Duarte, seu irmão, carta que há-de ficar famosa.

Em 1428 retorna à Hungria e daqui, como duque de Treviso, segue para Veneza, onde o doge o recebe com múltiplas dádivas, entre as quais um exemplar do Livro de Marco Polo que entregará mais tarde ao Infante D. Henrique. Ainda em Veneza compra um mapa-múndi com o traçado das vias comerciais entre o Oriente e a cristandade. Mapa-múndi que também oferecerá a seu irmão Henrique.

De Veneza avança para Roma onde é recebido pelo Papa Martinho V. Retorna à Península Ibérica. Combina o casamento de D. Duarte com D. Leonor, irmã do rei de Navarra. Também combina o seu próprio noivado com D. Isabel, filha dos condes de Urgel, Catalunha.Por Valhadolid, Zamora e Salamanca ruma para a Guarda. Chega a Coimbra em 19 de Setembro de 1428, mesmo a tempo de assistir ao casamento de D. Duarte com D. Leonor de Aragão. Dez anos demorou a viagem do Infante D. Pedro pelas “Sete Partidas do Mundo”. Muito viu e assimilou, muito sabe.

D. Pedro frisa que mais fortes são as nações que se impõem pela cultura e prestígio dos seus colégios e universidades e aponta como modelo as de Paris e Oxford. Também demonstra ter ideias muito claras sobre política financeira e social, eclesiástica, militar e judicial. Exige que se calem os interesses privados quando está em jogo o bem geral do país.Mas uma coisa é opinar como exercer o poder, outra será exercê-lo entre o ontem que perdura e o amanhã que tarda, vacilações que já veremos

No seu regresso casa-se com Isabel de Urgel e continua aumentando o seu património com doações da Coroa. Nas cortes de Évora de 1436 manifesta-se contrário à expediçãoción a Tánger e, depois do fracasso, és favoravel à devolução de Ceuta em troca da vida seu irmão Don Fernando. DEpois da morte de D. Duarte (1438) produz-se uma repartição de poder com Leonor de Aragão.

O agravamento das divergências produz o afastamento da raínha, que se exila em Castela. D. Pedro assume a regência e desenvolve uma política hostil à nobreza que apoiara D. Leonor. Manteve-se no poder até cerca de 1448 em que Afonso V o afasta da corte. Morre na batalha de Alfarrobeira lutando contra as tropas reais.

Cronologia do Infante D. Pedro

1392: Nasce em Lisboa o Infante D. Pedro, quarto filho de el-Rei D. João I e D. Filipa de Lencastre. -
1415: Morte da rainha D. Filipa de Lencastre. O Infante D. Pedro participa na conquista de Ceuta e ali é armado cavaleiro; no regresso é-lhe concedido o título de duque de Coimbra. -
1418 a 1428: Longa viagem do Infante D. Pedro às “Setes Partidas do Mundo”: as principais Cortes da Europa e a Terra Santa. -
1429: O Infante D. Pedro casa com D. Isabel, filha dos Condes de Urgel (Catalunha).
1433: Por morte d’el-Rei D. João I, D. Duarte sobe ao trono. -
1436: Nas Cortes de Leiria o Infante D. Pedro opõe-se à conquista de Tânger. -
1437: Durante a falhada conquista de Tânger é aprisionado D. Fernando: início do martírio do Infante Santo. -
1438: Morte de el-Rei D. Duarte. -
1439: Em virtude da menoridade do futuro Afonso V, o Infante D. Pedro (seu tio), assume a regência de Portugal. Isenta de impostos alfandegários os produtos do arquipélago da Madeira. Manda iniciar o povoamento dos Açores. -
1441: As Cortes aprovam o projecto de casamento de D. Afonso, o príncipe herdeiro, com D. Isabel, filha do Infante D. Pedro. Este concede ao Infante D. Henrique, seu irmão, o monopólio da navegação, guerra e comércio das terras para além do Cabo Bojador. -
1443: Em nome de D. Afonso V o Infante D. Pedro funda, em Coimbra, um novo Estudo Geral. Isenta de impostos alfandegários os produtos do arquipélago dos Açores. -
1444: Em nome de D. Afonso V, o Infante D. Pedro promulga as Ordenações Afonsinas. -
1445: D. Leonor, mãe de D. Afonso V, morre em Toledo. -
1446: Nas Cortes de Lisboa o Infante D. Pedro entrega o poder a D. Afonso V, mas este, com apenas 14 anos, pede que ele o ajude na governação do Reino. -
1448: Por intriga dos nobres, entre os quais o conde de Barcelos (também duque de Bragança) e o conde de Ourém, D. Afonso V dispensa os serviços do Infante D. Pedro. -
1449: O Infante D. Pedro é morto no recontro de Alfarrobeira (perto de Alverca).

A Figura de Cristóvão Colombo

Navegador e explorador genovês. Não se sabe a data de nascimento e até se nasceu ou não em Génova, e morreu em Valladolid em 20 de Maio de 1506. Assim, dizem que chegou a Lisboa em finais de 1476 como agente de comerciantes genoveses. Viveu dez anos em Portugal, e por cá casou, estudando tudo o que pôde sobre cartografia e navegação. 

Convenceu-se que seria possível atingir, cruzando o Atlântico, a Ásia pelo Ocidente.Portanto, segundo a teoria mais aceite, Colombo teria sido um tecelão de seda genovês, um homem simples da plebe.

Apesar dessa origem simples, Colombo teria bons conhecimentos de várias línguas (como o latim e o hebraico), dematemática, de cosmografia, de geometria, além de conhecer todos os instrumentos de marinha e navegação, a ponto de ter sido considerado por alguns como o mais instruído homem do mar em toda a Espanha.

Seria o tecelão mais instruído que jamais tinha havido na História da Humanidade !

Casou com a filha de Bartolomeu Perestrelo, em 1455, primeiro donatário da Ilha de Porto Santo e de Isabel Moniz, chamada de Filipa Moniz, que nasceu em 1430 e faleceu em 1484-85, também referida por autores posteriores como Filipa Perestrelo, Filipa Moniz Perestrelo ou Filipa Perestrelo Moniz, Filipa, enquanto donzela, viveu retirada no Mosteiro de Santos-o-Velho. Teve um filho Diogo Colombo Moniz nascido em 1474, que foi 2º Almirante e Vice-rei das Índias.Viveu na Madeira alguns anos, estudando ventos, correntes e destroços de plantas, árvores e madeiras que o mar ia depositando nas costas de Porto Santo.

Durante a sua estadia em Portugal, Colombo correspondeu-se com Paolo del Pozzo Toscanelli. Nessa correspondência passou intencionalmente a Toscanelli uma estimativa (incorreta) de que a distância era mais curta que a aceite pela Junta de Matemática de D. João II. Este órgão aceitava a afirmação de Ptolomeu de que a massa de terras (a Eurásia e a África) ocupava 180 graus da esfera terrestre, com 180 graus de mar.

Desembarque de Colombo


De facto só ocupa cerca de 120 graus. Colombo teria usado os cálculos de Pierre d'Ailly, acreditando que a massa ocupada por terras era de 225 graus, deixando 135 graus de mar e atribuindo um comprimento menor ao grau de longitude terrestre; estes factos, em conjunto com o globo de Martin Behaim, teriam tido a virtude de convencer os castelhanos, no Concelho de Salamanca onde apresentou o seu projeto a um grupo de religiosos e leigos, a patrocinar a sua expedição.

A circunferência verdadeira da Terra é de aproximadamente quarenta mil quilómetros. Colombo teria afirmado que era de trinta mil e seiscentos quilómetros, estimando assim que a distância ao Japão era de cerca de quatro mil quatrocentos e quarenta e quatro quilómetros.

Colombo conseguiu finalmente fazer aprovar o projecto da sua viagem junto dos Reis Católicos, após a conquista de Granada, com a ajuda do confessor da rainha Isabel de Castela. Os termos da sua contratação tornavam-no almirante dos mares da Índia a descobrir e governador e vice-rei das terras do Oriente a que se propunha chegar, em competição com os portugueses que exploravam aRota do Cabo.

Estas teorias e considerações, não conseguiram o apoio de D. João II, para tentar descobrir o caminho marítimo para a Índia navegando para ocidente, pois os seus especialistas já tinham um conhecimento mais perfeito das dimensões terrestres. Assim, Colombo procurou outros apoios, e consegui-os junto de Fernando de Aragão e de Isabel a Católica e partiu de Palos, a 3 de Agosto de 1492, com três pequenos navios, o Niña, o Pinta, e o navio almirante, o Santa Maria.

Avistou terra a 12 de Outubro, a actual ilha de São Salvador, e em poucas semanas chegou a Cuba e aoHaiti, regressando a Espanha em Março de 1493. Numa segunda viagem (de 1493 a 1496) visitouGuadalupe, Montserrat, Antígua, Porto Rico e Jamaica.

Na terceira viagem às Américas, em 1498, depois de atingir Trinidad, envolveu-se em disputas com os colonos enviados para o Haiti pelo que, em 1500, o governador mandou-o, acorrentado, de regresso a Espanha. Libertado e recompensado pelo rei, fez uma última viagem, a quarta, em 1502-04, na qual esperava encontrar um estreito que conduzisse à Índia, mas chegou ás Honduras, Costa Rica e Nicarágua.

Morreu pobre, em Valladolid, e foi sepultado na catedral de Sevilha. Transladado depois para a Catedral de São Domingos na ilha Hispaniola em 1542. Com a conquista desta ilha pela França em 1795, foi transladado para Havana em Cuba. Em 1898 durante a guerra Hispano-Americana, parte dos seus restos chegou a Sevilha, onde estão sepultados. Análise de DNA provaram em 2004, que os 200 gramas de ossos que estão em Sevilha pertencem a Colombo

Em 1968 o local do naufrágio do Santa Maria, afundado ao largo de Hispaniola em 25 de Dezembro de 1492, foi descoberto.

João Rodrigues Cabrilho - Chega à Califórnia


João Rodrigues Cabrilho, também conhecido como Juan Rodríguez Cabrillo, foi um navegador e explorador português do século XVI.

Ao serviço da coroa espanhola efectuou importantes explorações marítimas no Oceano Pacífico (costa Oeste dos actuais EUA) e terrestres na América do Norte, participando na conquista da Capital Azteca de Tenochtitlan , com o conquistador espanhol Hernán Cortés em 1521, participou também com Pedro de Alvarado e mais 300 europeus, na conquista dos territórios que compreendem hoje as Honduras, Guatemala e San Salvador, entre 1523 e 1535, ajudando a fundar Oaxaca (um dos 31 Estados do México).

Ao serviço da Espanha, no mês de Junho do ano de 1542, João Rodrigues largou amarras de Navidade, na costa Oeste do México, navegando para o Norte, e três meses depois alcançou a Baia de San Diego, tornando-se o primeiro europeu a desembarcar no que é actualmente o Estado da Califórnia.


Monumento a Cabrilho em San Diego-Califórnia
A nacionalidade portuguesa de João Rodrigues não oferece dúvidas, pois é o próprio cronista e Chefe das Índias Espanholas, D. António Herrera y Tordesillas, que na sua Historia General de los hechos de los Castellanos en lás Islas y tierra firme del Mar Oceano o confirma, ao dizer ter D. António de Mendonça aprestado os navios "São Salvador" e "Victoria" para prosseguirem na exploração costeira da Nova Espanha y que nombrô por Capitan dellos a Juan Rodriguez Cabrillo Português, persona muy pratica en las cosas de la mar ( em português: e que nomeou por Capitão deles, João Rodrigues Cabrilho, português, pessoa mui experimentada nas coisas do mar).

Morreu a 3 de Janeiro de 1543 no Sul do actual estado americano da Califórnia, desconhecendo-se o local da sua sepultura.

J

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A Inquisição em Portugal


A Inquisição

Tribunal eclesiástico, estabelecido em 1233, cuja função era examinar e averiguar osacusados de heresia, por forma a que sendo culpados a autoridade civil lhes pudesse aplicar o castigo devido. O objectivo era suprimir a heresia e as opiniões dissidentes. A sentença era pronunciada durante o auto-de-fé.

A Inquisição funcionou em França, Itália, Espanha, Portugal e no sacro-império romano. Mais tarde, estendeu-se às Américas. Os julgamentos eram realizados em segredo, sob tortura, e as penas infligidas variavam, desde multas, até à morte pelo fogo, passando pelo açoitamento e prisão.


Historicamente, pode-se considerar que desde o tempo de Constantino, o Grande, existiu a preocupação de estabelecer leis contra a heresia. As penas variaram conforme as épocas históricas, tendo existido penas desde a confiscação de bens até à prescrição da pena de morte, sendo ainda de considerar o desterro ou a excomunhão.

Não obstante, as leis mais severas, como a pena de morte, foram destinadas aos Maniqueus, aos Donatistas e, por extensão, aos Cátaros e aos Albigenses. Todavia, sempre existiram vozes discordantes no seio da própria estrutura eclesiástica, como foram os casos de Ambrósio, João Crisóstomo e Santo Agostinho, entre tantos outros que não aceitaram a prescrição da pena de morte para os casos de heresia.

Os tribunais, destinados originalmente a inquirir os casos de heresia, passaram a averiguar casos de bruxaria, sodomia, pedofolia, zoofilia, bigamia, entre muitos outros. Ao abrigo do papel de inquisidor muitos abusos foram cometidos, de tal modo que a Inquisição foi lentamente desvirtuada, só recuperando o seu crédito no século XVI, com Sisto V passando a ser conhecida por Santo Ofício. 

A organização da Inquisição dependeu de cada país. Por exemplo, a Inquisição espanhola fundada em 1478, tinha como característica própria a total dependência ao monarca que, nomeava o inquisidor. No decurso da Inquisição espanhola, até à sua abolição em 1834, foram julgados, com aplicação rigorosa da legislação contra a heresia, cerca de 60 000 casos. Apesar dos abusos documentados verifica-se que o protestantismo não conseguiu exercer a sua influência, bem como o misticismo não se alastrou nesse território. 

A partir dos séculos XI e XII, o sentimento religioso atingiu o seu ponto mais alto passando a ser as próprias comunidades cristãs a utilizarem a violência contra as correntes consideradas anticristãs. É devido a esta situação que decorre a necessidade de institucionalizar a Inquisição.

As primeiras medidas, nomeadamente, confiscação de bens, destinadas à abolição da heresia foram tomadas no Concílio III de Latrão, em 1179. Seguidamente, adoptaram-se outras medidas como a aplicação das leis civis contra os hereges, noconcílio de Verona, em 1184. No Concílio IV de Latrão, em 1215, continuou-se a adoptar medidas contra os hereges, mas ainda sem incluir a pena de morte. 

Foi com Gregório IX, em 1231, que se institucionalizou a Inquisição, graças à lei imperial que aprovava a aplicação da pena de morte contra os hereges através do poder civil. Igualmente, se destinava essa tarefa aos Dominicanos, apesar de inicialmente os Franciscanos também terem desempenhado o papel de inquisidores. Vários manuais foram redigidos para o bom desempenho da tarefa, sendo exemplo o Manual Prático do Inquisidor de Bernardo Gui. Inicialmente não era aplicada a tortura, tendo sido Inocêncio IV a introduzi-la em 1252, todavia já era considerado lugar comum que o herege deveria ser encarado como inimigo do Estado. 

Em Portugal, a Inquisição foi introduzida a partir do século XIV, sendo nomeados inquisidores-mor Frei Martinho Velasques, Frei Vicente de Lisboa e Frei Afonso de Alprão, respectivamente em 1376, 1399 e 1413.

O seu objectivo real estava em conseguir mais uma arma para a , centralização do poder régio e para o controlo por parte da Coroa. Os monarcas portugueses pretendiam também o que os Reis Católicos haviam obtido do papa Sixto IV a partir de 1478, embora as circunstâncias nos dois países se revelassem inteiramente diferentes. Nem judeus nem mouros ameaçavam em Portugal a unidade da fé, como pudera ser invocado em Castela.

Além disso, os perigos políticos da Inquisição tinham-se tomado óbvios ao Papado como mais um poderoso instrumento nas mãos da Coroa. D. João III e os seus conselheiros lutaram demoradamente para obter a criação da Inquisição. As arrastadas manobras diplomáticas e as intrigas complexas duraram muitos anos, com o Papado resistindo tenazmente e com judeus e cristãos-novos, nos bastidores, subornando ambas as partes para impedir o feito que os prejudicava.

A Inquisição veio a ser finalmente «comprada» a Roma por D. João III (1536), mas com grandes restrições a uma plena liberdade de acção. Só em 1547 foram essas restrições levantadas pelo papa Paulo III, passando a Inquisição portuguesa a dispor de plenos poderes. No entretanto, as primeiras vítimas haviam já sido queimadas em Évora (1543). Começava nova época para a história de Portugal. 

Em 1539, foi nomeado inquisidor geral o infante D. Henrique, irmão de D. João III, conhecido pela sua adversidade aos cristãos-novos tendo sido realizado o primeiro auto-de-fé em 1540. Em 1570, foi criado o Conselho Geral que garantia acessória ao inquisidor-mor. Os tribunais de primeira instância foram reduzidos a três unidades, contra as seis iniciais, ficando Évora, Coimbra e Lisboa e tendo sido eliminados Porto, Lamego e Tomar. 

A inquisição foi "nacionalizada" pelo Marquês de Pombal cerca de 1759, que nomeou inquisidor-mor o seu irmão, e extinta simbolicamente em 1820/21, quando já ninguém se encontrava preso à ordem do Santo Ofício.


Congregação para a Doutrina da Fé

É a mais antiga das nove congregações da Cúria Romana, um dos órgãos da Santa Sé. Substituiu a Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício, que anteriormente chamava-se Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal da Idade Moderna e era responsável pela criação da Inquisição em si.

A Congregação para a Doutrina da Fé engloba a Comissão Teológica Internacional e a Pontifícia Comissão Bíblica.

Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal foi fundada pelo Papa Paulo III em 21 de julho de 1542, com o objetivo de defender a Igreja da heresia. É historicamente relacionada com a Inquisição. Até 1908 era denominada comoSacra Congregação da Romana e Universal Inquisição quando passou a se chamar Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício. Em 7 de dezembro de 1965, após o Concílio Vaticano II, o órgão foi novamente reformado durante o pontificado de Paulo VI sendo substituído pela organização atual.

Este órgão encarregava-se de averiguar casos de apostasia e heresia entre os católicos, principalmente aqueles pertencentes ao próprio clero. O julgamento implicava penas como prisão, excomunhão, uso de vestes que identificassem o herege etc. Além disso, ao contrário do que comumente se afirma, a pena de morte era evitada e concedida apenas na minoria dos casos, mesmo porque o perdão era concedido àquelas pessoas que se arrependessem durante o julgamento. Neste ponto, deve-se evitar confusão com a Inquisição Espanhola, liderada pelos reis da Espanha em sua busca da unificação do seu reino.

domingo, 14 de julho de 2013

Évora - Património Mundial


ÉVORA - Património Mundial
Veja este site também em http://geocities.ws/atoleiros

Designação : Centro Histórico da cidade de Évora / Centro Urbano Intramuros da Cidade

  
Localização : Évora, Évora, Santo Antão *
Acesso : A2, A6, EN. 114, EN. 256, EN. 18
Protecção : Património Mundial - UNESCO, 1986
Enquadramento : Urbano. Assenta numa colina, estendendo-se pelas suas encostas até à vasta planície, para onde se expande desde o Séc. 19. A sua máxima altitude é de 302 metros onde se localiza a Acrópole. 
Rodeada de uma cintura de muralhas da Idade Média e do Séc. 17 segundo o sistema Vauban, mostra desde longe, na planura alentejana toda a sua monumentalidade donde sobressai a mole majestosa da Sé.


Descrição :

As origens da cidade de Évora ainda continuam envolvidas no pó dos séculos. As referências de Plínio e Ptolomeu marcam com rigor histórico a posição geográfica da cidade, nó de circulação de grandes vias, de relevante importância na era romana. Júlio César, Imperador Romano, substitui o topónimo cúneo de Ebora, por Liberalitas Julia.

Da presença romana, de que se encontram inúmeros vestígios, destaca-se, como um dos mais importantes a nível peninsular, o Templo Romano, e as recentemente descobertas Termas Romanas. O primeiro perímetro muralhado, a Cerca Velha, de que ainda se conservam importantes fiadas de aparelho romano, algumas torres e a Porta de D. Isabel.

O segundo perímetro ou Cerca Nova iniciada por D. Afonso IV, continuada por D. Pedro I e D. Fernando, surpreende pelo seu aspecto monumental. Posteriormente, no Séc.17 fizeram-se novas fortificações e alguns baluartes. No Centro Histórico, durante a Idade Média, vão surgir edifícios notáveis, como a Sé Catedral, o Palácio e a Igreja Real de São Francisco, e inúmeros conventos que ocupam com as suas cercas os terrenos livres junto à Muralha Medieval.
Estas instalações, de grande dimensão irão estruturar a nova cidade intramuros, seguindo-se uma época de grandes trabalhos de urbanismo, incluindo a construção do Aqueduto da Água de Prata, sobre antigo traçado de um Aqueduto Romano.
O facto de os reis viverem longas temporadas na cidade e, para ela convocarem Cortes gerais Reais, tornam-na nos Séc. 16 e 17 um importante ponto convergente da cultura, arte e administração, sendo considerada a segunda capital do país.


A cal branca, elemento preponderante e básico que robustece as estruturas, imprimindo tonalidades serenas e repousantes, preenchendo as vastas superfícies lisas dos alçados, de poucas e estreitas aberturas debroadas a cor viva, donde sobressaem chaminés de ressalto, por vezes polilobadas e as cornijas molduradas.
Os monumentos das mais variadas épocas, palácios e conventos, quais marcos históricos e estilísticos, integrados na paisagem urbana, atestam como no devir do tempo se vão interligando os antigos e os modernos num tecido urbano ímpar em Portugal.
Uma das notas dominantes e características da Arquitectura Regional, tanto na cidade como no concelho é a sua feição populista. 


Habituado à vida dura de trabalho e ao clima, muito quente no Verão e muito frio no Inverno, o nativo procurou defender-se destes incómodos edificando a sua habitação conforme a longa experiência de séculos e a natureza dos materiais empregues. Datam do Séc. 15 as mais arcaicas manifestações arquitectónicas de Évora, com os seus pórticos Góticos, de granito, por vezes moldurados, embebidos em alçados de taipa ou reforçados de alvenaria.
Os exemplos, que chegaram aos nossos dias, amalgamados nos arruamentos medievos, constituem a fusão de formas e estilos vários olvidando os cânones clássicos da arte de construir, por isso mesmo transmitem um pitoresco e típico equilíbrio de linhas, de massa de formas, sombras e volumes, que profundamente caracterizam a arquitectura popular alentejana. 


Cronologia :
Séc. 2 a. C. - Conquistada por Decimo Junius Brutus 
Séc. 1 a. C. - Júlio César dignifica Évora com o título de Liberalitas Julia; 
Séc. 5 - Sob o domínio visigótico volta a chamar-se Évora; 
714 - Tomada de Évora pelos muçulmanos; 
166 - Tomada de Évora aos mulçumanos por Geraldo Sem Pavor - Carta de Foral de D. Afonso Henriques; 
1257 - Foral de Évora; 
1340 - D. Afonso IV convoca para Évora as Cortes Gerais; 
1383 - 1385 - Tumultos de Évora em apoio ao Mestre de Avis
1421 - Matrimónio de D. Duarte; 
1437 - D. Duarte convoca para Évora Cortes Gerais; 
1481 - D. João II convoca para Évora Cortes gerais; 
1490 - Segunda convocatória de Côrtes por D. João II
1498 - Nasce em Évora o humanista André de Rezende
1501 - D. Manuel I doa a Évora Foral de Leitura Nova; 
1535 - D. João III convoca Cortes gerais para Évora; 
1536 - Morre em Évora Garcia de Rezende; 
1540 - A  de Évora é elevada a metropolita; 
1559 - Criação da Universidade de Évora pelo Cardeal D. Henrique; 
1637 - Alterações de Évora como protesto contra o domínio Castelhano; 
1663 - Ocupação castelhana de Évora por D. João de Austria a 14 de Maio, sendo a cidade libertada a 25 de Junho pelo Conde Vila Flor;
1755 - Terremoto do 1ºde Novembro que atingiu Évora com grau de intensidade 7 a 8; 
1759 - Extinção da Universidade de Évora pelo Marquês de Pombal
1805 - Fundação da Biblioteca Pública pelo Arcebispo D. Frei Manuel do Cenáculo; 
1808 - O General françês Loison ataca e conquista a cidade; 1834 - é assinada em Évora a abdicação de D. Miguel; 
1918 - Rebenta uma revolta militar contra Sidónio Pais; 
1919 - Fundação do nóvel "Grupo Pró-Évora"
1985 - Criação na Câmara Municipal do Gabinete Técnico Local para o Centro Histórico; 
1986, 28 de Novembro - Classificação pela UNESCO do Centro Histórico da Cidade de Évora Património da Humanidade

Características Particulares : 
Durante todas as sucessivas culturas que passaram pelo território nacional, foi sempre Évora um importante aglomerado. Ocupada por godos e muçulmanos, após conquistada aos romanos, é reconstruida e adaptada a sua malha urbana. 

Do longo domínio muçulmano, do Séc. 8 ao 13, muitos vestígios nos surgem, com especial incidência no tecido urbano e na tipologia dos edifícios que se fecham para as ruas e se abrem sobre pátios ou jardins interiores. A residência real, quase constante, e a Universidade são factores que influenciaram decisivamente o "facies" erudito que a cidade ostenta. 

É uma cidade renascentista, com os seus palácios, conventos e igrejas do Séc. 16, que ainda hoje mantêm vivo o seu carácter próprio, que o barroco não destruiu. Não deixa, apesar de erudita, a sua arquitectura de estar impregnada dum sabor local, espontâneo em certos pormenores de soluções de continuidade, que acusam uma persistência popular. 

Presente sempre a majestosa Sé, o Templo Romano, e o dédalo de arruamentos medievais definidos por palácios, solares e casas nobres que testemunham ter sido esta cidade a segunda, em importância artística, cultural e administrativa, logo após a de Lisboa. Do hibridismo erudito e espontâneo, a que não falta o sentido do improviso onde ganha uma frescura e ingenuidade revelando nunca se ter libertado das raízes da terra. 

O contraste do granito com a caiação é um aspecto definido na arquitectura de Évora, as soluções de coberturas em arco, abóbadas e abobadilhas definem-se com uma maior amplitude de variação. Note-se que aos irmãos Arrudas se deve muito do eruditismo arquitectónico na cidade. O ser um Centro Histórico bem delimitado por dois panos de muralhas, que transmitem o devir histórico do aglomerado, é sem dúvida notável a par do valor dos seus imóveis quer religiosos quer civis.

 Para mais fácil compreensão do que resumidamente fica referido propomos dois percursos urbanos onde se podem apreciar as multifacetadas vivências e arquitecturas desta cidade. Primeiro Percurso - Inicia-se na Porta de Avis, Lg. de Avis, R. de Santa Maria, R. do Cano, R. Pedro Simões, Trav. dos Nunes, R. do Menino Jesus, R. de D. Isabel, R. de Olivença, Pr. do Sertório, Trav. do Sertório, R. Nova, Pr. do Geraldo, R. da Républica, Pr. 1º de Maio e termina no Jardim Municipal. 
 


É um percurso que pode demorar boa parte da manhã mas que permite ver do Romano ao Renascimento. O segundo percurso inicia-se no Lg. da Porta de Moura, segue pela R. da Freiria de Baixo, Lg. de São Miguel, Largo do Colégio, R. Cardeal Rei, Universidade, Lg. de São Miguel, R. da Freiria de Cima, Lg. Dr. Mário Chicó, Lg. do Conde de Vila Flor, R. Augusto Filipe Simões, R. Francisco Soares Lusitano, R. das Casas Pintadas, Lg. Alexandre Herculano, R. de Vasco da Gama, Lg. do Marquês de Marialva, Lg. D. Miguel de Portugal, R. 5 de Outubro, e termina na Pr. do Geraldo. 
É um percurso que andando na Acrópole mostra a presença romana no seu melhor exemplar e a Idade Média na sua pujança.

sábado, 13 de julho de 2013

D. Fernando o Infante Santo

O Infante D. Fernando (1402-1443)

O Beato Fernando de Portugal, dito o Infante Santo (Santarém, 29 de Setembro de 1402 –Fez, 5 de Junho de 1443 ) era o oitavo filho do rei João I de Portugal e de sua mulher Filipa de Lencastre, o mais novo dos membros da Ínclita Geração.

Cedo se mostrou interessado na questão religiosa e, ainda muito jovem, foi ordenado 2º Administrador da Ordem de Avispor seu pai, que o fizera também 1º Senhor de Salvaterra de Magos e de Atouguia da Baleia.

Escudo armas D- Fernando
Por ser o irmão mais novo, não teve acesso, como os mais velhos, a tantas riquezas, e intenta pôr-se ao serviço do Papa, do Imperador, ou de outro soberano europeu para ganhar prestígio e prebendas. O próprio Papa Eugénio IV chegou a oferecer-lhe, em 1434 o título de cardeal que recusou2 . Por incentivo dos irmãos mais velhos acaba por desistir, virando as suas atenções para a luta da cruzada em Marrocos, da qual lhe poderia vir imensa boa fortuna.

Assim, em 1437 participa numa expedição militar ao Norte de África, comandada pelo irmão mais velho o Infante D. Henrique, mas com o voto desfavorável dos outros infantes, Pedro, Duque de Coimbra e João, Infante de Portugal e do próprio Rei D. Duarte que, vítima de estranhos pressentimentos, só muito a contragosto consentiu na partida da expedição. 

O Rei terá entregue ao Infante D. Henrique uma carta com algumas recomendações úteis, que foram por algum motivo ignoradas. A campanha revelou-se um desastre e, para evitar a chacina total dos portugueses, estabeleceu-se uma rendição pela qual as forças portuguesas se retiram, deixando o infante como penhor da devolução de Ceuta ( conquistada pelos portugueses em1415). No entanto, o Infante pareceu ter pressentido o seu destino, pois ao despedir-se do seu irmão D. Henrique, lhe terá dito 

"Rogai por mim a El-Rei, que é a última vez que nos veremos!"

A divisão na metrópole entre os apoiantes da entrega imediata de Ceuta, ou a sua manutenção, conseguindo por outras vias (diplomática ou bélica), o resgate do infante, foi coeva da morte de D. Duarte (que morreu vítima da epidemia de peste que contaminou o Reino e ao que parece, de desgosto pelo fracasso da expedição a Tânger e do cativeiro de D. Fernando), o que impediu um desfecho favorável à situação.
D. Fernando

Fernando foi entretanto levado para Fez, sendo tratado ora com todas as honras, ora como um prisioneiro de baixa condição (sobretudo depois de uma tentativa de evasão gorada, patrocinada por Portugal). Daí escreve ao seu irmão D. Pedro, então regente do reino, um apelo, pedindo a sua libertação a troco de Ceuta. 

Mas a divisão verificada na Corte em torno deste problema delicado e diversas ocorrências ocorridas com os governadores da praça-forte levam a que D. Fernando assuma o seu cativeiro com resignação cristã e morra no cativeiro de Fez em 1443 — acabando assim o problema da devolução ou não de Ceuta por se resolver naturalmente. Pelo seu sacrifício em nome dos interesses nacionais, viria a ganhar o epíteto de Infante Santo.

Pesará sempre a lembrança da morte trágica de D. Fernando, e com a maioridade de Afonso V, seu sobrinho, desejoso de feitos guerreiros contra o Infiel em África, sucedem-se as tentativas de conquista, viradas sempre para Tânger, a fim de o vingar - primeiro em 1458 (acabando por desistir, dada a aparente inexpugnabilidade da cidade, e voltando-se para Alcácer Ceguer), depois nas "correrrias" de 1463-1464, enfim a tomada de Arzila em 1471, embora uma vez mais o objectivo fosse Tânger. 

De resto, após a tomada de Arzila, os mouros de Tânger, sentindo-se desprotegidos (pois eram a única praça muçulmana no meio de terra de cristãos) e abandonados pelo seu chefe (que a troco do reconhecimento, por Afonso V, do título de rei de Fez, concedia ao monarca português o domínio de todo a região a Norte de Arzila, na qual Tânger se encontrava), deixaram a cidade, facto que muito custou ao rei português, por se ver assim impossibilitado de fazer pagar cara a morte de D. Fernando, seu tio.

Devoção

Por meio desse mesmo tratado concluído com o agora rei de Fez, os restos mortais do Infante, que se achavam naquela cidade, passaram para as mãos dos portugueses, tendo sido solenemente transferidos para o Mosteiro da Batalha, onde hoje repousam ao lado dos pais e irmãos, na Capela do Fundador.

O seu culto religioso foi aprovado em 1470 e os bolandistas o incluem no rol dos beatos portugueses.

Uma teoria recente sobre os Painéis de São Vicente de Fora defende que os mesmos têm como figura central o próprio Infante Santo, e não S. Vicente, estando o mesmo rodeado pelos seus irmãos e família nos painéis centrais. Este conhecido quadro de Nuno Gonçalves seria assim uma homenagem nacional ao Infante mártir, morto no exílio por defesa do território nacional.


quarta-feira, 10 de julho de 2013

A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto

A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto

Fernão Mendes Pinto segundo a Enciclopédia Britânica


Fernão Mendes Pinto (N. c. 1510, Montemor-o-Velho, -M. 8 de Julho de 1583, Almada, perto de Lisboa), Aventureiro português e autor da Peregrinação - Viagens e Aventuras de Fernão Mendes Pinto ( 1614 ), uma obra prima da literatura, contando a impressão que causou a um europeu a civilização asiática, principalmente a da China no século XVI.Pinto foi para a Índia em 1537 e mais tarde afirmou ter viajado, lutado e negociado em quási todas as partes da Ásia durante perto de 21 anos e ter também experimentado as mais drásticas reviravoltas da fortuna, tendo sido " preso 13 vezes e 17 vendido como escravo"

Na China, por exemplo, foi condenado por roubar tumbas reais, e como castigo, cortaram-lhe os polegares de ambas mãos e foi sentenciado a trabalhos forçados na contrução da Grande Muralha.A Peregrinação foi escrita depois de Pinto ter regressado a Portugal. Estabeleceu-se em Almada, casou, e recebeu uma pensão do rei Filipe II. A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto tem pouco valor no aspecto de descrição geográfica, mas é grande interesse por descrever a impressão causada num português inteligente pelas civilizações orientais e pelo seu criticismo ao comportamento dos seus compatriotas na Ásia.

Condensado da Enciclopédia Britânica



Nota - A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Os Lusíadas de Luís de Camões e o Políptico de São Vicente, são segundo a douta e sisuda e douta Enciclopédia Britânica as únicas três obras que considera "masterpieces" da Arte Universal, produzidas por portugueses, portanto dignas do maior respeito. Mas por vezes também é interessante ler uma descrição colorida e simples dessas obras

"Minto"
Fernão Mendes Pinto ou Fernão Mendes "Minto"

Histórias

Conta Fernão Mendes Pinto. Mais espantados ficariam se as tivessem visto como eu as vi: cortejos com milhares de figurantes, multidões em movimentos aguerridos, manadas de elefantes conduzidos por soldados (como se cavalos de batalha fossem aquelas alimárias), naufrágios em que se perderam tesouros e mais tesouros. Travessias de pântanos e florestas com feras muitas, combates em alto mar em que todos (ou quase todos) pereceram, cidades cercadas e logo mais totalmente destruídas por incêndios, princesas formosas em seus palácios deslumbrantes e mendigos mutilados, paixões e desvarios.

Em menino e moço, com a morte diante dos olhos, tive outra vez que fugir. Em Alfama, no cais de pedra tomei uma caravela para Setúbal mas, ao largo de Sesimbra, fomos abordados por corsários franceses. Escapei da morte, até hoje não sei ao certo como. Em vez de me venderem como escravo no norte de África, acabaram por me largar na praia de Melides, desígnios de Deus...


PEREGRINAÇÕES

Treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia, Feliz, China, Tartária, Maçágar, Samatra e muitas outras daquele oriental arquipélago dos confins da Ásia, a que os escritores chins, siameses, guéus e léquios nomeiam nas suas geografias como Pestana do Mundo. 

Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha idade e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me. 

Como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória; porque vejo que não contente de me pôr na minha pátria, logo no começo da minha mocidade, em tal estado, que nela sempre vivi em miséria e em pobreza, e não sem alguns sobressaltos e perigo de vida, me quis também levar às partes da Índia, onde em lugar do remédio que eu ia buscar a elas, me foram crescendo com a idade os trabalhos e os perigos.

Quando vejo que do meio de todos estes perigos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanto tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos.

Desde a Arábia ao arquipélago dos japões, ora como enviado do capitão de Malaca, ora como mercador e até como pirata no bando de António Faria. Cruza todas as rotas entre Malaca e a Pestana do Mundo, demanda e fundeia e assalta e rouba e profana mausoléus para tomar as jóias dos defuntos e mata populações indefesas e é cercado e surrado e foge e pede esmola de porta em porta e é preso e escravizado e vendido por todos esses portos do Oriente. 

Umas vezes é a má sorte que o lança na miséria, doutras um golpe d’asa que o empurra para a fortuna fabulosa. Cruza o império chinês até à Mongólia e acompanha ao arquipélago dos japões Diogo Zeimoto, o primeiro português, o primeiro europeu a introduzir ali as armas de fogo.

Passou-se na ilha de Kiushu e corri grande perigo. Os desta terra, para quem este modo de tiro de fogo foi cousa que até então não tinham visto, tamanho caso que fizeram disso, que o não sei encarecer. O segundo filho de el-rei, por nome Arichandono, moço de dezasseis até dezassete anos, e a quem ele era muito afeiçoado, me requereu algumas vezes que o quisesse ensinar a atirar, de que me eu escusei sempre, dizendo que havia mister muito tempo para o aprender. 

Porém ele não aceitando esta minha razão, fez queixume de mim a seu pai, o qual, pelo comprazer, me rogou que lhe desse um par de tiros para lhe satisfazer aquele apetite; a que respondi que dois, e quatro, e cento, e quantos sua alteza mandasse. E porque ele neste tempo estava comendo com seu pai, ficou para depois que dormisse a sesta, o qual ainda aquele dia não teve efeito porque foi aquela tarde com a rainha sua mãe a um pagode de grande romagem, onde se fazia uma festa pela saúde de el-rei.

E logo ao outro dia seguinte, que foi um sábado, véspera de Nossa Senhora das Neves, se veio pela sesta à casa onde eu estava sem trazer consigo mais que só dois moços fidalgos, onde me achou dormindo sobre uma esteira; e vendo estar a espingarda pendurada, não me quis acordar, com propósito de tirar primeiro um par de tiros, parecendo-lhe, como ele depois dizia, que naqueles que ele tomava não se entenderiam os que lhe eu prometera. 

E mandando a um dos moços fidalgos que fosse muito caladamente acender o morrão, tirou a espingarda donde estava, e querendo-a carregar como algumas vezes me tinha visto fazer, como não sabia a quantidade de pólvora que lhe havia de lançar, encheu o cano em comprimento de mais de dois palmos, e lhe meteu o pelouro, e a pôs no rosto e apontou para uma laranjeira que estava defronte. E pondo-lhe o fogo, quis a desventura que arrebentou por três partes, e deu nele, e lhe fez duas feridas, uma das quais lhe decepou quase o dedo polegar da mão direita, de que o moço logo caiu no chão como morto, o que vendo os dois que com ele estavam, foram fugindo caminho do paço, e, gritando pelas ruas, iam dizendo:

"A espingarda do estrangeiro matou o filho de el-rei!"

Levantou-se um tamanho tumulto na gente, que toda a cidade se fundia, acudindo com armas e grandes gritas à casa onde o pobre de mim estava, e já então qual Deus sabe, porque acordando eu com esta revolta e vendo jazer o moço no chão junto de mim, ensopado todo em sangue, sem acudir a pé nem a mão, me abracei com ele já tão desatinado e fora de mim, que não sabia onde estava. Abreviando: a minha sorte foi o moço acordar e apontar para mim, dizendo a seu pai: "Se o matarem, eu morro outra vez"..

É ainda nessa Pestana do Mundo que Fernão se deixa avassalar pela personalidade de Francisco Xavier que ali vivia em missão de converter os japões à doutrina da nossa Santa Madre Igreja. Mas tempos depois morre o Santo e Mendes Pinto, em fúria mística (ou talvez por temer regressar ao Reino por via de alguma coisa que aqui lhe mete mede) troca o ouro pelo Cristo e, já em Goa, distribui toda a sua riqueza pelos pobres e pela Companhia de Jesus, na qual ingressa como irmão leigo. 

Isto acontece em 1554. Três anos depois amansa e retira-se da Companhia; mas por bem, continuando a manter relações amigáveis com os padres. 

Por bem, por bem. Ainda o ano passado estiveram aqui dois padres jesuítas a colher muitas informações sobre S. Francisco Xavier, com quem eu muito trabalhei e convivi lá no arquipélago dos japões. E foi por influência desses dois padres que el-rei D. Filipe, o Segundo, acabou por me conceder, o mês passado, uma tença anual de dois moios de trigo.

Em 1558 Fernão regressa finalmente a Portugal. Talvez aquelas boas relações com os jesuítas tenham sido afinal o escudo que ambicionava para se defender do que parecia temer aqui...

Mas isso agora não conta, só conta o que ele conta. E é tudo tão vivo e tão bem contado, saltando de cena para cena com tanta pressa, que chego até a perder o fôlego. A narrativa começou ao raiar do dia, agora o sol já vai descendo para o ocaso e entrementes comemos apenas uma fatia de vianda e bebemos um ou dois copos de vinho tinto. 

Parece que para achar desculpa para tantos crimes e sangueiras, Fernão usa como disfarce o cognome de António Faria, o grão pirata. Atrocidades que ele relata de forma tão natural e inocente quanto o respirar, o comer, o beber e o dormir. De rebate de consciência parece que não sofre, nem ele nem qualquer dos outros portugueses dados à pirataria lá pelas bandas do Oriente.

Fernão troça dos sacerdotes orientais que atiram punhados de arroz sobre as cabeças dos fiéis, Ri dos chins que oferecem banquetes a seus familiares defuntos (banquetes que são depois comidos pelos sacerdotes). Escarnece dos gentios do reino do Pão que afirmam ser grande pecado comer carne de porco. 

Louvais a Deus depois de fartos, com as mãos alevantadas e com os beiços untados, como homens que lhes parece que basta arreganhar os dentes ao céu, sem satisfazer o que têm roubado. Pois entendei que o Senhor da Mão Poderosa não nos obriga tanto a bulir com os beiços quanto nos defende tomar o alheio – quanto mais roubar e matar, que são dois pecados tão graves quanto depois de mortos conhecereis no rigoroso castigo da sua divina justiça.Não, não, isso dizem os chins. 

Eu digo que D. Afonso de Albuquerque é vero herói lusitano, varão assinalado por via das guerras ganhas e de muitas outras obras valerosas.Parece que Fernão põe na boca dos gentios palavras e opiniões que são da sua lavra. Não se arrisca é a assumi-las como suas. Nos turvos tempos em que estamos mergulhados, cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Só em Janeiro de 1583, por influência dos dois jesuítas que vieram inquiri-lo sobre a vida de S. Francisco Xavier, é que obteve de el-rei a ambicionada recompensa. Por ela esperou portanto 25 anos. Não tivesse ele trazido do Oriente ainda alguns meios de fortuna (que lhe permitiram, inclusive, casar e comprar esta quinta do Pragal) e teria, certamente, morrido à fome


1614, finalmente a Peregrinação vem a lume. Esteve muito tempo encalhada entre o Paço e o Santo Ofício.

Fernão Mendes Pinto veio a falecer em Julho de 1583, por súbito agravamento da sua doença. Finou-se cinco anos depois de D. Sebastião ter sido derrotado e morto em Alcácer Quibir.. 

Fernão começou a escrever as suas memórias em 1569 e deu o livro por concluído em 1578. Mas entre a morte do autor e a edição da sua obra, decorreram 30 anos e cinco já tinham decorrido entre a conclusão do texto e o passamento do escritor. 

Houve licença em 1603 mas só foi editada em 1614. Parece que Francisco de Andrade, cronista-mor do ainda chamado Reino de Portugal, tenha demorado mais 10 anos a tomar o peso de cada uma das suas palavras e a castrar os seus passos mais rudes para não ferir as susceptibilidades de el-rei D. Filipe II e dos novos inquisidores do Santo Ofício.Em 1603, depois de vasculhada pelos padres jesuítas, houve licença para a edição da obra. Licença dada talvez pelos mesmos padres que o interrogaram sobre S. Francisco Xavier. Mas nem assim foi editada. E bem expurgado foi, pois nela não consta sequer a passagem de Fernão pela Companhia de Jesus, em Goa...Cronologia de Fernão Mendes Pinto

C.1510: Nasce Fernão Mendes Pinto em Montemor-o-Velho. - c.1521: A família de Fernão parte (ou talvez fuja) para Lisboa. -

c.1523: Em viagem por mar de Lisboa a Setúbal é aprisionado por corsários franceses - 1537: Embarca para o Oriente. -

1539: Por incumbência do capitão de Malaca faz contactos diplomáticos com o rei dos Batas e Araús. -

1542: A sua primeira viagem ao Japão, em companhia de Diogo Zeimoto, que ali introduz as armas de fogo. -

c.1553: No Japão, conhece, colabora e torna-se admirador de S. Francisco Xavier. -

1554: Em Goa, entrega toda a sua fortuna aos pobres e à Companhia de Jesus, na qual ingressa como irmão leigo. -

1557: Sai da Companhia de Jesus. - 1

558: Regressa a Portugal. -

c.1562: Já casado com Maria Correia Brito (trinta anos mais nova do que ele), retira-se para a Quinta que comprara no Pragal (perto de Almada) -

1569: Começa a escrever a Peregrinação que será concluída em 1578. -

1583: Em Janeiro, Filipe II concede a Fernão uma tença anual de dois moios de trigo; em Julho do mesmo ano, Fernão Mendes Pinto morre no Pragal - 1614: Primeira edição (expurgada) da Peregrinação.Home

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O Convento do Varatojo

O Convento de Varatojo situa-se na freguesia de Santa Maria do Castelo e São Miguel, em Torres Vedras, Distrito de Lisboa, Portugal. É obra do rei D. Afonso V, que em cumprimento de um voto que fizera a Santo António para auxiliá-lo nas conquistas do norte de África, o mandou levantar. Foi o próprio rei, com grande acompanhamento de clero, nobreza e povo, que lançou a primeira pedra em Fevereiro de 1470.

Sofre obras de vulto após o terramoto de 1531 que lhe imprimem um cunho maneirista a que se vêm somar as campanhas barrocas e novecentistas.

Com o decreto da extinção das ordens religiosas e da expropriação de todos os seus bens, assinado por D. Pedro IV em 28 de Maio de 1834, o convento passa para as mãos do estado. Em 1845 é vendido em hasta pública. Em 1861, passa de novo para a posse da ordem Franciscana, foi de novo extinto entre 1918 e 1928, quando voltou a pertencer aos Franciscanos função que ainda mantém na actualidade.

Foi classificado como Monumento Nacional em 23 de Junho de 1910.

Descrição :


Planta rectangular irregular constituído por vários corpos e integrando igreja, de planta longitudinal e nave única. Átrio com capela de Nossa Senhora da Sobreira à esquerda. Escada forrada de azulejos conduz à portaria, com lambril de azulejos de padrão, tecto mudéjar, portal de 3 arquivoltas em gablete; ladeia-o pedras esculpidas com armas de Portugal e empresa de D. Afonso V.

Nave com lambril recortado de azulejos, 6 capelas colaterais, com retábulos de talha, sendo 2 do lado da Epístola mais profundas; púlpito de mármore no lado do Evangelho, coro-alto com cadeiral e crucifixo sobre teia. Cobertura em abóbada de berço. Na capela-mor lambril de azulejos com cenas da vida de Santo António encimadas por 4 pinturas sobre tábua; retábulo de mármores embutidos, talha branca e dourada e tela representando "Entrega do Menino a Santo António".

Abóbada de berço com caixotões. Sacristia forrada a azulejos legendados em espanhol, arcaz, armários de parede e 2 tábuas com "Milagre da Mula" e "Pentecostes". Claustro de 2 pisos, o 1º com arcos quebrados sobre colunas chanfradas e tecto pintado com divisa de D. Afonso V; na ala N., portal de arco trilobado decorado dá acesso à capela do Senhor Jesus, forrada de azulejos ponta de diamante. 2º piso em arquitraves. Casa do Capítulo com lambril de albarradas, representando professos notáveis.


Tipologia :
Arquitectura religiosa, maneirista e barroca. Igreja conventual de planimetria maneirista - planta longitudinal, com capelas colaterais encimadas por tribuna num dos lados e sem transepto.
Caracteristicas Particulares :

Conserva elementos de diversos estilos: gótico - o portal integrado em gablete, os baixos relevos com representação heráldica que o ladeiam (já de um gótico flamejante), e o claustro;

Manuelino - tecto mudéjar da portaria, alguns painéis pintados e os portais do claustro e o da capela do S. Jesus;

Maneirista - o púlpito e os azulejos ponta de diamante; barroco - os azulejos de albarradas, padrão ou figurativo, sendo os da capela-mor Joaninos (D. João V); os da sacristia são atribuídos a Policarpo de Oliveira; a talha dos retábulos, sendo o mor do estilo nacional; a da capela de Nossa Senhora das Dores é já rocaille. A tela da capela-mor é do italiano Bacarelli.

Fr. José Maria da Cruz Amaral OFM

O Padre Franciscano José Maria da Cruz Amaral, nasceu em São Romão em 2 de Novembro de 1910, filho de António Maria da Cruz e de Maria Benedita Mendes. Faleceu em 19 de Abril de 1993 no Seminário da Luz em Lisboa. Foi sepultado em São Romão.

Em 1921 foi para Tui, Espanha, onde fez o Liceu e tira o curso de Filosofia. Em 1935 completou o curso de Teologia no Seminário do Varatojo e foi ordenado sacerdote franciscano. Quase todas as suas actividades de sacerdote franciscano desenvolveram-se em África durante cerca de 38 anos. Esteve em Moçambique na missão de Amatongas, no Chimoio e terminou por ser colocado na Beira onde orientou o semanário Missão Africana.

Também aí foi um criadores da Emissora Aero-Clube da Beira. Em 1943 foi também pároco de Vila Pery, e no ano seguinte regressou a Portugal e foi capelão substituto do Reformatório de S. Bernardino em Peniche.

Voltou ao continente Africano, à então província da Guiné, onde esteve até à revolução do 25 de Abril. Na Guiné, foi professor do Liceu Honório Barreto, vogal da Assembleia Legislativa, e até 1968 director do Arauto, o único jornal da Guiné que foi extinto pelo general Arnaldo Schultz, em represália contra a linha editorial do Arauto, que procurou denunciar a anarquia militar e civil do seu governo da província.

Depois da substituição de Schultz pelo general Spínola como governador da Guiné, este último convidou o Padre Cruz Amaral para director do novo jornal A Voz da Guiné, agora já jornal oficial da província

Esta sua nomeação para director do jornal oficial do governo da Guiné, trouxe-lhe bastantes conflitos com os seus superiores eclesiásticos, pois o Vaticano na altura, alinhava com a tese "Os Ventos da História", e não via com bons olhos o envolvimento do Padre José Maria, um religioso, nesse jornal oficial do Governo da Guiné.
Esta pequena disputa Estado - Vaticano, que o padre José Maria da Cruz Amaral, nunca procurou, mas acabou por ser o elemento fundamental, marcaram-no bastante, e nunca gostou de falar do assunto.

Na Guiné, de 1946 a 1955 foi também membro da administração da Emissora Oficial da Guiné, sendo por essa razão convidado como representante oficial da Guiné ás comemorações do V Centenário da morte do Infante D. Henrique, em 1960. Como jornalista, representando a imprensa local, integrou a comitiva da visita do Presidente Américo Tomás na sua deslocação a Moçambique.

De regresso a Portugal, a Ordem Franciscana deu-lhe a escolher o local onde gostaria de residir. Escolheu o Mosteiro do Varatojo, local calmo e sossegado, mas viajava muito a Lisboa, ficando sempre instalado em casa de amigos e familiares ou na casa da Ordem Franciscana, na Rua Silva Carvalho.

Em 1985, comemorou as suas bodas de Ouro Sacerdotais, conjuntamente com Fr. José de Montalverne seu colega de curso, que foram festejadas pela Ordem Franciscana, com uma missa e uma pequena festa para familiares e amigos na casa franciscana da Rua Silva Carvalho, sede da Província Franciscana em Portugal. A festa de comemoração repetiu-se também, dias depois, no Convento do Varatojo.

O autor desta página, considerava o Padre José Maria da Cruz Amaral como o melhor dos seus amigos, lembrando com saudade os passeios que dava com ele no claustro do Varatojo, nos bons momentos passados nas festas de Santo António, onde sempre comíamos com gosto e admiração no velho refeitório do Convento e das palestras durante os passeios pela quinta.

domingo, 30 de junho de 2013

O Pogrom de 1506

O Pogrom de 1506

Damião de Góis, in "Crónica de D. Manuel I", capítulo CII da Parte I.

"...Nos dois derradeiros capítulos desta primeira parte, tratarei de um tumulto e levantamento que, a dezanove de Abril de 1506, Domingo de Pascoela, houve, em Lisboa, contra os Cristãos-novos.s, para fora da igreja, e mataram-no e queimaram logo o corpo no Rossio.

No mosteiro de São Domingos existe uma capela, chamada de Jesus, e nela há um Crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que deram foros de milagre, embora os que se encontravam na igreja julgassem o contrário. Destes, um Cristão-novo (julgou ver, somente), uma candeia acesa ao lado da imagem de Jesus. Ouvindo isto, alguns homens de baixa condição arrastaram-no pelos cabelo.



Ao alvoroço acudiu muito povo a quem um frade dirigiu uma pregação incitando contra os Cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro com um crucifixo nas mãos e gritando: "Heresia! Heresia!" Isto impressionou grande multidão de gente estrangeira, marinheiros de naus vindos daHolanda, Zelândia, Alemanha e outras paragens.


Juntos mais de quinhentos, começaram a matar os Cristãos-novos que encontravam pelas ruas, e os corpos, mortos ou meio-vivos, queimavam-nos em fogueiras que acendiam na ribeira (do Tejo) e no Rossio. Na tarefa ajudavam-nos escravos e moços portugueses que, com grande diligência, acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo. E, nesse Domingo de Pascoela, mataram mais de quinhentas pessoas.  

A esta turba de maus homens e de frades que, sem temor de Deus, andavam pelas ruas concitando o povo a tamanha crueldade, juntaram-se mais de mil homens (de Lisboa) da qualidade (social) dos (marinheiros estrangeiros), os quais, na Segunda-feira, continuaram esta maldade com maior crueza. E, por já nas ruas não acharem Cristãos-novos, foram assaltar as casas onde viviam e arrastavam-nos para as ruas, com os filhos, mulheres e filhas, e lançavam-nos de mistura, vivos e mortos, nas fogueiras, sem piedade. E era tamanha a crueldade que até executavam os meninos e (as próprias) crianças de berço, fendendo-os em pedaços ou esborrachando-os de arremesso contra as paredes. 

E não esqueciam de lhes saquear as casas e de roubar todo o ouro, prata e enxovais que achavam. E chegou-se a tal dissolução que (até) das (próprias) igrejas arrancavam homens, mulheres, moços e moças inocentes, despegando-os dos Sacrários, e das imagens de Nosso Senhor, de Nossa Senhora e de outros santos, a que o medo da morte os havia abraçado, e dali os arrancavam, matando-os e queimando-os fanaticamente sem temor de Deus.Nesta (Segunda-feira), pereceram mais de mil almas, sem que, na cidade, alguém ousasse resistir, pois havia nela pouca gente visto que por causa da peste, estavam fora os mais honrados.

E se os alcaides e outras justiças queriam acudir a tamanho mal, achavam tanta resistência que eram forçados a recolher-se para lhes não acontecer o mesmo que aos Cristãos-novos.Havia, entre os portugueses encarniçados neste tão feio e inumano negócio, alguns que, pelo ódio e malquerença a Cristãos, para se vingarem deles, davam a entender aos estrangeiros que eram Cristãos-novos, e nas ruas ou em suas (próprias) casas os iam assaltar e os maltratavam, sem que se pudesse pôr cobro a semelhante desventura.

Na Terça-feira, estes danados homens prosseguiram em sua maldade, mas não tanto como nos dias anteriores; já não achavam quem matar, pois todos os Cristãos-novos, escapados desta fúria, foram postos a salvo por pessoas honradas e piedosas, (contudo) sem poderem evitar que perecessem mais de mil e novecentas criaturas. 

Na tarde daquele dia, acudiram à cidade o Regedor Aires da Silva e o Governador Dom Álvaro de Castro, com a gente que puderam juntar, mas (tudo) já estava quase acabado.

Deram a notícia a el-Rei, na vila de Avis, (o qual) logo enviou o Prior do Crato e Dom Diogo Lopo, Barão de Alvito, com poderes especiais para castigarem os culpados. Muitos deles foram presos e enforcados por justiça, principalmente os portugueses, porque os estrangeiros, com os roubos e despojo, acolheram-se às suas naus e seguiram nelas cada qual o seu destino. (Quanto) aos dois frades, que andaram com o Crucifixo pela cidade, tiraram-lhes as ordens e, por sentença, foram queimados." 

Damião de Góis, em "Crónica de D. Manuel I" em capítulo CII da Parte I