sábado, 8 de junho de 2013

Tecnologia na dinastia de Bragança

Tecnologia na dinastia de Bragança

O Aqueduto das Águas Livres

Canal coberto de alvenaria ou pedra destinado à condução de água, onde esta corre a descoberto. Para tal, necessita de ter uma inclinação uniforme e pequena, pelo que é construído sobre arcos de altura diversa, consoante o acidentado do terreno, e subterraneamente, se atravessava montes.

Esta arquitectura está muito presente na Península Ibérica e data desde a presença romana, sendo indispensável para o abastecimento hidráulico das povoações.

Em Portugal contam-se inúmeros aquedutos, sendo de salientar o imponente aqueduto das Águas Livres em Lisboa, o aqueduto dos Arcos do Jardim em Coimbra, o aqueduto dos Pegões Altos em Tomar e o aqueduto da Amoreira em Elvas.

Alguns destes aquedutos desempenharam subsidiariamente funções militares em certas ocasiões, pela sua disposição estratégica no terreno.

Aqueduto das Águas Livre



O aeróstato - Padre Bartolomeu de Gusmão

Pioneiro da aerostática. De origem brasileira (nasceu em Santos), inventou o aeróstato movido a ar aquecido, cerca de setenta anos antes das experiências dos irmãos Montgolfier.

Fez estudos no seminário de Belém da Cachoeira, dos jesuítas, onde evidenciou desde cedo particular aptidão para o domínio da física e da mecânica. Ainda noviço, abandonou a Companhia de Jesus (1701), vindo a ser ordenado sacerdote mais tarde. 


Em 1708, frequentou a faculdade de cânones em Coimbra, tendo doutoran-se em 1720. Interrompeu os estudos para se dedicar a tempo inteiro ao seu invento um pequeno balão ou globo feito de lona ou papel, aquecido pelo fogo. Em 1709, realizou, em Lisboa, as primeiras experiências com a "máquina voadora".

A primeira vez que quis mostrar o seu invento a D. João V, o balão pegou fogo e não voou; contudo, na segunda tentativa, feita no paço real, o "instrumento de voar" elevou-se quatro ou cinco metros, até ao tecto da sala dos embaixadores. 

Há ainda registo de uma terceira experiência, em que o balão foi lançado da ponte da Casa da Índia, tendo subido a uma altura considerável. São apenas lendas as histórias de que Bartolomeu de Gusmão teria voado do castelo de São Jorge ao Terreiro do Paço ou da torre de São Roque ao convento de São Pedro de Alcântara.

A primeira máquina a Vapor

Em 6 de Fevereiro de 1742 a "Gazeta de Lisboa" publicava a seguinte notícia: «A rainha N.S. com os príncipes e o Sr infante D. Pedro foram a uma das casas reais de campo, do sítio de Belém, a que chamam da praia, e ali viram as operações de duas máquinas as quais por meio do peso do ar e da força do vapor levantavam água, dando o frio ocasião a que o peso do ar pudesse a tornar a reduzir em água os vapores, em que o calor a tinha transformado. 

El - rei N.S. com o Sr. infante D. António tinham já visto a operação destas máquinas, que são as que os ingleses chamam simples, as quais em terras abundantes de lenha são de grandíssima utilidade. Deve-se a sua primeira origem ao Marquês de Worcester, e invento da sua prática ao capitão Severi ( sic). Coube ao Dr. Bento de Moura Portugal ( mais tarde morreu aferrolhado nas prisões da Junqueira, por ordem de Pombal em 1760), a a montagem destas máquinas»


Tratava-se da máquina de vapor de Thomas Newcomen, (1663-1729), serralheiro e inventor inglês que em 1698 de parceria com o engenheiro Thomas Savery construíram a primeira máquina a vapor operacional, da qual conseguiram várias patentes. Em 1705 com a ajuda de Jonh Cawley melhora a máquina.

A máquina usava a pressão atmosférica e vapor de baixa pressão, foi largamente usada na maioria dos países da Europa para bombear água e foi melhorada mais tarde em 1725. A máquina de Newcomen foi exportada para a América do Norte até 1755.

Permaneceu praticamente inalterável até 1769, quando o engenheiro e inventor escocês James What inventou um condensador de vapor que aumentava substancialmente a eficiência da máquina a vapor de Newcomen. Em 1790 esta foi totalmente substituída pela máquina de Watt, já com regulador de velocidade.

Demorou quase 78 anos, até que a máquina a vapor fosse aplicada industrialmente em Portugal (1820), ao contrário do que tinha ocorrido na maioria dos países europeus. No entanto a primeira máquina a vapor como força motriz industrial só foi introduzida em 1835, no caminho de ferro em 1864 e na navegação marítima cerca de 1870. 

Assim, enquanto em Portugal em 1835 havia apenas uma máquina a vapor a indústria ingleses já tinha cerca de 10.000 em serviço num total de cerca de 100.000 cavalos-vapor. Em 1881 Portugal dispunha de 328 máquinas com uma potência instalada de 7.052 cavalos-vapor. 

(Condensado do Dicionário de História de Portugal de Joel Serrão)

As primeiras máquinas a vapor

Operavam utilizando-se mais da propriedade de o vapor condensar-se de novo em líquido do que de sua propriedade de expansão. Quando o vapor se condensa, o líquido ocupa menos espaço que o vapor. Se a condensação tem um lugar em um recipiente fechado, cria-se um vácuo parcial, que pode realizar trabalho útil.

Em 1698, Thomas Savery (1650-1715), mecânico inglês, patenteou a primeira máquina à vapor realmente prática, uma bomba para drenagem de água de minas. A bomba de Savery possuía válvulas operadas manualmente, abertas para permitir a entrada de vapor em um recipiente fechado. Despejava-se água fria no recipiente para resfriá-lo e condensar o vapor. Uma vez condensado o vapor, abria-se uma válvula de modo que vácuo no recipiente aspirasse a água através de um cano.

Em 1712, Thomas Newcomen (1663-1729), ferreiro inglês, inventou outra máquina à vapor para esvaziamento da água de infiltração das minas. A máquina de Newcomen possuía uma viga horizontal à semelhança de uma gangorra, da qual pendiam dois êmbolos, um em cada extremidade, Um êmbolo permanecia no interior de um cilindro, 

Quando o vapor penetrava no cilindro, forçava o êmbolo para cima, e acarretava a decida de outra extremidade. Borrifa-se água fria no cilindro, o vapor se condensava e o vácuo sugava o êmbolo de novo para baixo. Isto elevava o outro extremo da viga, que se ligava ao êmbolo de uma bomba na mina.

O Telégrafo, Telefone e a Iluminação Eléctrica em Portugal

O Telégrafo eléctrico 

A inauguração da rede oficial de telégrafo eléctrico em Portugal foi a 1856. Fazia a ligação do Terreiro do Paço às Cortes.

Telegrafo de Hughes
Em 1857 o telégrafo estava ligado com a Espanha. Em 1870 é inaugurado o cabo submarino com a Inglaterra e Gibraltar. Em 1871 entra em funcionamento o cabo telegráfico submarino com a Madeira, Cabo Verde e Pernambuco. Em 1893 é efectuada a ligação desde Carcavelos até Ponta Delgada, Horta e a todo o arquipélago dos Açores. 

Extensão da Rede telegráfica em Portugal: 

Em 1860 - Cerca de 2.000 Kms 

Em 1900 - Cerca de 8.000 Kms 

Em 1911-26 - Cerca de 9.000 Kms

A telegrafia eléctrica tinha sido precedida pela telegrafia de semáforos e telegrafia óptica. Em 1803 já havia telegrafia óptica no Pragal, Guia, Cabo da Roca, castelo de São Jorge e Nossa Senhora do Douro.

O Telefone

Apenas três anos depois de Graham Bell ter registado a patente do telefone, começaram as experiências com estes aparelhos em Portugal. Corria o ano de 1879. Surgiram os primeiros pedidos de instalação de uma rede telefónoca ao Estado português.

No dia 13 de Janeiro de 1882 foi assinado o contrato de concessão das três redes de telefone ( Lisboa, Porto e Braga ) à companhia Edison Gower Bell Telephone of Europe. Era no escritório da companhia na rua do Alecrim que estavam os telefonistas ( homens e mulheres ) que faziam as ligações entre os 22 números a 1,5Km da central telefónica. 

Foram inauguradas cabinas públicas a 10 de Junho de 1882, na estação de Alfândega Grande e na Casa Havaneza no Chiado. Só funcionavam das oito da manhã às nove da noite. Poucas semanas depois o horário foi alterado e permitia-se chamadas nocturnas para a Polícia, Bombeiros ou médicos.

O número de telefones passou rapidamente de 22 para 68, para 104 e em 1889 já havia 1855 telefones na rede de Lisboa e do Porto. A empresa passou a chamar-se The Anglo Portuguese Telephone Company Ltd, uma empresa com técnica britânica mas controlada financeiramente pelo Estado português. 

Foi em 19 de Maio de 1882 que foi publicada a primeira lista telefónica em Portugal, com 22 nomes. Um deles era do Dr. Sousa Martins o médico que muitos consideram santo. 

(Condensado do Dicionário de História de Portugal de Joel Serrão)

O Teatrofone do Jacinto 

Eça de Queiroz descreve nas Cidades e as Serras, o teatrofone do Jacinto que lhe permitia ouvir teatro ou música através do telefone. Sua Majestade o Rei D. Luís I imitou o Jacinto em 1884, quando estava de luto no Palácio de Ajuda, e impossibilitado de assistir à ópera Laureana, no teatro de S. Carlos. 

Instalou uma ligação telefónica entre a Ajuda e o Teatro de São Carlos e assistiu ao espectáculo sem sair do Palácio. No ano seguinte o Teatro de São Carlos criou assinaturas telefónicas para que pudessem ouvir-se os espectáculos da nova temporada lírica, sem sair de casa. A qualidade sonora devia ser um desastre, mas enfim !

Durante o período do Estado Novo as redes telefónicas e telegráficas conheceram notável expansão.

A iluminação Eléctrica em Portugal: 

Já em 1904 se pode documentar em Lisboa a existência de consumidores particulares, que no entanto são excepções. Só a partir da segunda guerra ( 1914 - 1918 ) a luz eléctrica destrona o gás e começa a penetrar nos lares lisboetas. A inauguração da luz eléctrica em Aveiro é só em 1920. 

Em 1866 o Teatro São Carlos já dispõe de central eléctrica privativa para a sua iluminação eléctrica. Em 1889 a Companhia do Gás fornece energia eléctrica para a iluminação da Avenida da Liberdade. A partir de 1902 as Companhias Reunidas de Gás e Electricidade - CRGE começam a alargar a rede de iluminação eléctrica a toda a cidade de Lisboa. 

Em 1955 ainda algumas zonas de Lisboa, como o Bairro de Santa Catarina e outros, tinham iluminação pública a gás, e a zona central da baixa de Lisboa era alimentada com corrente contínua, obrigando a utilização de equipamentos especiais ( comutatrizes - motores de C.C. acoplados directamente a geradores de A.C. ) para transformar a corrente contínua em alterna, necessária para alimentar a maioria dos equipamentos que já se utilizavam nos comércios e casas particulares.

Sala de máquinas da Central da Senhora do Desterro (1907)

Em 1908 foi concedida a primeira concessão da bacia hidrográfica do rio Alva na Serra da Estrela, à Empresa Hidro-Eléctrica da Serra da Estrela. Sendo a Central da Senhora do Desterro, no concelho de Seia, uma das primeiras centrais hidroeléctricas portuguesas e das primeiras zonas do país a serem electrificadas. 
Barragem do Castelo do Bode (1951)

No período do "Estado Novo" melhorou-se a irrigação e a electrificação do País. Construíram-se numerosas barragens, algumas monumentais e tradutoras de uma capacidade técnica excelente. Em 1974, Portugal produzia hidro-electricamente 47% de toda a sua produção energética. Apesar disso, a electrificação total do País achava-se ainda longe de realizada na década de Sessenta. 

O Caminho de Ferro em Portugal

Em 1844 José Bernardo da Costa Cabral fundou com o capital de 20.000 contos a Companhia de Obras Pública de Portugal à qual é concedida a construção de uma linha férrea para ligar Lisboa à fronteira de Espanha. Essa companhia nunca entrou em funcionamento. Cabe a Fontes Pereira de Melo fazer o lançamento da rede ferroviária nacional. 

Os trabalhos principiaram em 1853. Em 28 de Outubro de 1861 é inaugurado o troço ferroviário de Lisboa até ao Carregado. Em 1861 é efectuada a ligação do Barreiro a Vendas Novas. Em 1864 a linha do Norte chega a Gaia.e a do sul chega até Beja. 


 No período de 1875-77 foi construida pelo engenheiro francês Eiffel a ponte de ferro sobre o Douro. Em 1882 entra em funcionamento a linha da Beira Alta. e do Minho, também com a construcção da ponte internacional sobre o rio Mingho.. Em 1889 a linha ferroviária chega a Faro. Em 1863 fica concluida a ligação com a Espanha. A linha do Norte em 1864

Extensão da Rede Ferroviária nacional:

Em 1877 - 952 Kms Em 1894 - 2.353 Kms Em 1902 - 2.381 Kms 

Em 1907 - 2.753 Kms Em 1912 - 2.974 Kms 

Com o "Estado Novo" a rede de caminhos-de-ferro sofreu escassas modificações, e a sua extensão quilométrica poucos aumentos experimentou, à medida que as estradas e o número de automóveis e camionetas se multiplicavam. O que melhorou um pouco foi o material circulante e o serviço em geral.

Em 1926 electrificaram-se os primeiros comboios, mas houve que esperar pelos anos de Cinquenta e Sessenta para se continuar o processo, auxiliado pela introdução de locomotivas Diesel. Em 1968, havia electrificados mais de 400 Km de vias férreas. 

Outra novidade importante foi a inauguração dos primeiros quilómetros de comboios metropolitano, em Lisboa, em 1959 ( 100 anos depois do de Londres ).


O 1º Automóvel em Portugal ( 1895 )


O Panhard & Levassor, o primeiro automóvel em Portugal, 1895

O primeiro carro que entrou e circulou em Portugal foi um Panhard & Lavassor comprado pelo conde de Avilez que depois de uma viagem a Paris, ficou entusiasmado com este novo meio de transporte e encomendou um exemplar á Casa Panhard & Levassor de Paris.

Está actualmente em exposição no Museu da Alfândega na cidade do Porto e é propriedade do Automóvel Clube de Portugal. Como se disse trata-se do primeiro automóvel a entrar em Portugal.


Várias peripécias marcaram a sua entrada em Portugal. Na Alfândega não sabiam qual a designação a atribuir ao objecto, Se uma alfaia agrícola ou uma "locomobile" (máquina movida a vapor). Acabou por se optar pela última designação.

Este foi o veículo protagonista do primeiro acidente de viação em Portugal, quando na sua primeira viagem de Lisboa para Santiago do Cacém, atropelou um burro.

As estradas em Portugal Antes de 1926, a rede de estradas portuguesas não chegava aos 15.000 Kms, todas de má qualidade e traçado mais próprio para carroças do que para veículos modernos. Na prática estavam baseadas nas antigas vias romanas da Lusitânia. 

Nos tempos do marquês de Pombal dizia-se que era mais rápido ir do Porto a Londres por mar, do que viajar por estrada também do Porto a Lisboa. Com a chegada do "Estado Novo" ao poder, a construção e reparação de estradas constituíram, durante muitos anos, o orgulhoso símbolo da nova administração. A rede de estradas chega aos 34.000 kms em 1974. 

A primeira, e durante muito tempo única, auto-estrada, foi aberta ao tráfico na década de 1940, seguindo o modelo das auto-estradas alemãs. A estrada marginal entre Lisboa e Cascais, construída também em 1940, continua ainda hoje a ser a principal via de acesso entre essas duas localidades. Mais importante foi a reparação de estradas, sobretudo nos anos de 1926-30 e de 1931-40, mediante verbas consideráveis, todos os anos atribuídas para esse fim. 


A construção de estradas foi acompanhada pela construção de pontes, edificando-se, entre muitas outras, algumas verdadeiramente espectaculares, como por exemplo a ponte da Arrábida sobre o rio Douro no Porto, inaugurada em 1963, e a ponte sobre o Tejo em Lisboa - a maior ponte suspensa da Europa - aberta ao tráfico em 1966.

Primeira vez que voou um avião em Portugal ( 1910 )

Pioneiros da Aviação Portuguesa

No ano de 1909 foi fundada em Portugal a primeira instituição dedicada à Aviação, o Aeroclube de Portugal, que teve um papel decisivo na divulgação da aeronáutica. Seria o Aeroclube de Portugal a trazer ao nosso país o piloto francês Mamet que fez as primeiras demonstrações com um avião em território português. 

Foi ainda do Aeroclub de Portugal que saíu (em 1914) a comissão que formou a Aviação Militar. Óscar Blank torna-se 1º Português a voar em Paris. Ainda nesse ano, decisivo para a Aviação Portuguesa, mais precisamente em Outubro, surgiu em Lisboa o francês Armand Zipfel , com intenção de ensaiar voos no nosso país. 


No dia 27 de Outubro de 1909, Zipfel compareceu no hipódromo de Belém, a nossa primeira pista oficial de aviação, e com um Voisin Antoinette tentou descolar, mas teve de se contentar com um salto de 200 m, a 8 m de altura.

A 14 de Novembro de 1909, perto de Lisboa, Artur de Morais, Raul Caldeira, Alberto Cortez, Gabriel Cisneiros e Ezequiel Garcia, fizeram os primeiros voos em planador no país. 

Seria o dia 27 de Abril de 1910 aquele em que pela primeira vez se voou num avião em Portugal, por intermédio de Julien Mamet, pilotando um Biénios XI. Descolou do hipódromo de Belém, descreveu um largo círculo a 50 m de altura, sobrevoou a Casa Pia, bordejou o Tejo e regressou novamente ao Hipódromo. Estava consumada a façanha.

Os portugueses sentiram-se estimulados pelo feito, e em 1912, depois da aprendizagem em França, Alberto Sanches de Castro, membro do Aeroclube, era o primeiro português a voar em território nacional, a 27 de Setembro de 1912, no Mouchão da Póvoa de Santa Iria, perto de Lisboa, a bordo de um Voisin Antoinette de 40cv.


Uma palavra ainda para D. Luís de Noronha, sócio do Aeroclube e um dos grandes incentivadores da aviação nacional civil e militar, ideando a constituição de escolas de aeronáutica e que foi o primeiro Português formalmente brevetado.

A Aviação Militar foi oficialmente constituída em Portugal no ano de 1914, nos ramos Exército e Marinha com a criação da Escola de Aviação Militar e Aviação Naval, culminando um processo que se vinha desenvolvendo desde 1912, com António José de Almeida.


quinta-feira, 6 de junho de 2013

O Processo dos Távoras

O Processo dos Távoras

A Casa de Távora foi uma das mais ilustres Casas nobiliárquicas portuguesas. O apelido Távora, utilizado pelos membros desta família, deriva do Rio Távora, em Trás-os-Montes, um afluente do Rio Douro, ou de uma vila ribeirinha com o mesmo nome.
As Origens

A família dos Távoras tem origens antiquíssimas, que alguns estudos genealógicos fazem remontar a um dos filhos de Ramiro II, Rei de Leão. O primeiro Senhor de Távora é Rozendo Hermingues,um nobre hispânico que viveu algures nos finais do século XI, principios do século XII. O senhorio do morgado de Távora permanece na linha varonil desta casa.

Escudo de armas dos Távoras

O hexaneto de Rozendo Hermingues é Lourenço Pires de Távora (c.1350-?), 8º Senhor de Távora, cavaleiro do Reino de Portugal e Senhor do Minhocal e do Couto de S. Pedro das Águias por mercê do Rei D. Pedro I.

Diz-se também, embora não haja provas documentais, que foi esta nobre família transmontana a fundadora do Mosteiro de S. Pedro das Águias. O filho primogénito de Lourenço Pires de Távora é Álvaro Pires de Távora (c.1370-?), 1º Senhor do Mogadouro por mercê do Rei D. Fernando I.

Processo dos Távoras refere-se a um escândalo político português do século XVIII. Os acontecimentos foram desencadeados pela tentativa de assassinato do Rei D. José I em 1758, e culminaram na execução pública de toda a família Távora e dos seus parentes próximos em 1759.

Alguns historiadores interpretam (mal) o assunto como uma tentativa do primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal) de limitar os poderes crescentes de famílias da alta nobreza.

Introdução

No seguimento do terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755, que destruiu o palácio real, o rei D. José I vivia num grande complexo de tendas e barracas instaladas na Ajuda, às saídas da cidade. Este era o presente centro da vida política e social portuguesa.

D. José I
Apesar de constituírem acomodações pouco espectaculares, as tendas da Ajuda eram o centro de uma corte tão "glamorosa" e rica, num país pobre, como a de Versalhes de Luís XV de França. O rei vivia rodeado pela sua equipa administrativa, liderada pelo primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, e pelos seus nobres. O primeiro-ministro era um homem severo, filho de um fidalgo de província, com algum desprezo para com a velha e inútil nobreza, que o desprezava. Desavenças entre ele e os nobres eram frequentes e toleradas pelo rei, que confiava em Sebastião de Melo pela sua liderança competente após o terramoto.

D. José I era casado com Mariana Vitoria de Borbón, princesa espanhola, e tinha 4 filhas. Apesar de ter uma vida familiar alegre, (o rei adorava as filhas e apreciava brincar com elas e levá-las em passeio), D. José I tinha uma amante: Teresa Leonor, mulher de Luís Bernardo, herdeiro da família de Távora.

A rainha sabia da aventura do marido, e mais que uma vez fez comentários muito ofensivos para os Távoras, devidos ao comportamento de Teresa Leonor.


A Marquesa Leonor de Távora e o seu marido Francisco Assis, conde de Alvor (e antigo vice-rei da India), eram as cabeças de uma das famílias mais poderosas do reino, ligadas às casas de Aveiro, Cadaval, São Vicente e de Alorna.

Eram também inimigos cerrados de Sebastião de Melo. Leonor de Távora era uma mulher política, preocupada com os negócios do Reino, entregue a seu ver a um novo-rico sem educação. Ela era também uma devota católica, com forte afiliação aos jesuítas, tendo como confessor um deles, Gabriel Malagrida.

O caso Távora - A tentativa de assassinato de D. José I

Na noite de 3 de Setembro de 1758, D. José I seguia sem escolta numa carruagem que percorria uma rua secundária nos arredores de Lisboa. O rei regressava para as tendas da Ajuda de uma noite com a amante D. Teresa Leonor casada com o herdeiro da Casa de Távora, D. Luís Bernardo. Pelo caminho, no local onde hoje se encontra a Igreja da Memória, - mandada construir nesse sítio por D. José I, para agradecer a Deus de o ter salvo do atentado, a carruagem foi interceptada por três homens, que dispararam sobre os ocupantes.

D. José I foi ferido num braço e nas costas, o seu condutor também ficou ferido gravemente, havia outro grupo preparado para terminar o assalto à carruagem no caminho da Ajuda, mas o rei em vez de seguir na direcção das tendas, mandou o cocheiro seguir para Belém, para casa do seu cirurgião, ou talvez para casa do Conde de Angeja. Regressou depois à Ajuda mas escoltado por uma força militar de dragões.

O caso de adultério da "marquesinha de Távora" com D. José I, fazia com que os Marqueses de Távora estivessem cheios de rancor pela ofensa feita à Casa de Távora, e tentaram mesmo junto de Roma que o casamento de D. Teresa com D. Luís Bernardo fosse anulado. Por outro lado, tempo a alta nobreza de Portugal, estava cheia de inveja e despeito pela posição de "Sebastião José" no governo do País, e vendo que não se conseguia livrar dele, chegou à conclusão que só com a morte do rei, se poderia ver livre do "fidalgote" intruso e odiado.

Marquês de Pombal
Sebastião de Melo tomou o controle imediato da situação. Mantendo em segredo o ataque e os ferimentos do rei, ele efectuou julgamento rápido. Poucos dias depois, dois homens foram presos e torturados. Os homens confessaram a culpa e que tinham tido ordens da família dos Távoras, que estavam a conspirar pôr o duque de Aveiro, José Mascarenhas, no trono. Ambos foram enforcados no dia seguinte, mesmo antes da tentativa de regicídio ter sido tornada pública.

Nas semanas que se seguem, a marquesa Leonor de Távora, o seu marido, o conde de Alvor, todos os seus filhos, filhas e netos foram encarcerados. Os conspiradores, o duque de Aveiro e os genros dos Távoras, o marquês de Alorna e o conde deAtouguia foram presos com as suas famílias. Gabriel Malagrida, o jesuíta confessor de Leonor de Távora foi igualmente preso.

Foram todos acusados de alta traição e de regicídio. As provas apresentadas em tribunal eram simples:

a) As confissões dos assassinos executados,

b) A arma do crime pertencia ao duque de Aveiro

c) O facto de apenas os Távoras poderem ter sabido dos afazeres do rei nessa noite, uma vez que ele regressava de uma ligação com Teresa de Távora, presa com os outros. Os Távoras negaram todas as acusações mas foram condenados à morte. Os seus bens foram confiscados pela coroa, o seu nome apagado da nobreza e os brasões familiares foram proibidos. A varonia Távora e morgadio foram então transferidos para a casa dos condes de São Vicente.

A sentença ordenou a execução de todos, incluindo mulheres e crianças. Apenas as intervenções da Rainha Mariana e de Maria Francisca, a herdeira do trono, salvaram a maioria deles. A marquesa, porém, não seria poupada. Ela e outros acusados que tinham sido sentenciados à morte foram torturados e executados publicamente em 13 de Janeiro de 1759 num descampado perto de Lisboa.


A execução foi violenta mesmo para a época, as canas das mãos e dos pés dos condenados foram partidas com paus e as suas cabeças decapitadas e depois os restos dos corpos queimados e as cinzas deitadas ao rio Tejo. O rei esteve presente, juntamente com a sua corte, absolutamente desnorteada. Os Távoras eram seus semelhantes, mas o rei quis que a lição fosse aprendida e para que nunca mais a nobreza se rebelasse contra a autoridade régia.

O terreno da execução foi salgado, simbolicamente, para que nunca mais nada ali crescesse. No local, hoje chamado Beco do Chão Salgado (junto à fábrica de pastéis de Belem), existe um marco alusivo ao acontecimento mandado erigir por D. José com uma lápide que pode ser lida . As armas da família Távora foram picadas e o nomeTávora foi mesmo proibido de ser citado.

Gabriel Malagrida, influente jesuíta italiano e antigo confessor de D. João V, que se ajoelhava aos seus pés para pedir perdão pelos seus pecados, e que considerava o Terramoto de Lisboa como um castigo divino pela falta de religiosidade do povo de Lisboa, e o apregoava por todo lado, acusando o ministro de herege, foi primeiramente desterrado para Setúbal.

Mas o jesuíta continuou a pregar contra Pombal e este que não gostava de críticas, acusou-o àInquisição. Julgado como herege foi garrotado e queimado vivo em Setembro de 1761, e a ordem dos jesuítas declarada ilegal. Todos as suas propriedades foram confiscadas e os jesuítas expulsos do território português, na Europa e no Ultramar (o filme "A missão" retrata a expulsão de uma comunidade jesuíta da floresta brasileira). A família Alorna e as filhas do Duque de Aveiro foram condenadas a prisão perpétua em mosteiros e conventos.

Sebastião de Melo foi feito Conde de Oeiras pelo seu tratamento competente do caso, e posteriormente, em 1770, obteve o título de Marquês de Pombal, o nome pelo qual é conhecido hoje.

A Igreja da Memória na Ajuda Lisboa, foi manada erguer por D. José I por ter escapado com vida do atentado. Por pedido do 5º Marquês de Pombal o túmulo de Sebastião José foi transferido para esta Igreja em 1923.


Igreja da Boa Memória
Discussão

A culpa ou inocência dos Távoras é ainda debatida hoje por historiadores portugueses, embora ninguém que opine honestamente poder negar as relações de Leonor de Távora com o D. José I. . Por um lado, as más relações entre a alta nobreza e o rei estão bem documentadas. A falta de um herdeiro masculino ao trono era motivo de desagrado para muitos, e o Duque de Aveiro era de facto uma opção.

Por outro lado, alguns referem uma coincidência: com a condenação dos Távoras e dos Jesuítas, desapareceram os inimigos de Sebastião de Meloe a nobreza foi domada. Adicionalmente, os acusados Távoras argumentaram que a tentativa de assassínio de D. José I teria sido um assalto comum, uma vez que o rei viajava sem guarda nem sinais de distinção numa perigosa rua de Lisboa.

Outra pista de suposta inocência é o facto de nenhum dos Távoras ou familiares terem tentado escapar de Portugal nos dias que se seguiram ao atentado. Suzanne Chantal no seu livro, "Portugal ao Tempo do Terramoto", descreve este atentado e este processo, sem partidarismos, e descreve em pormenor bem documentado todos os seus pormenores


quarta-feira, 5 de junho de 2013

O Terramoto de Lisboa (1755)

O Terramoto de Lisboa (1755)

Na manhã de 1 de Novembro, dia de Todos os Santos, um violento terramoto fez-se sentir em Lisboa, Setúbal e no Algarve. Na capital, local onde atingiu maior intensidade ( modernamente crê-se que com grau 9 na escala de Ritcher ), foi acompanhado por um maremoto ( Tsunami ) com ondas que parecem ter chegado aos 20 metros, e que chegou até às costas dos Estados Unidas da América.

O maremoto varreu o Terreiro do Paço e um gigantesco incêndio que, durante 6 dias, completaram o cenário de destruição de toda a Baixa de Lisboa. Este trágico acontecimento foi tema de uma vasta literatura que se desenvolveu um pouco por toda a Europa, e de que é exemplo o poema de Voltaire Le Désastre de Lisbonne (1756).

Lisboa já havia sentido muitos terramotos nos tempos modernos, oito no século XIV, cinco no século XVI, incluindo o de 1531que destruiu 1.500 casas, e o de 1597 que destruiu três ruas, e três no século XVI. No século XVIII foram mencionados os terramotos de 1724 e 1750. Este último precisamente no dia da morte de D. João V, mas ambos de consequências menores.

Em 1755, ruíram importantes edifícios, como o Teatro da Ópera, o palácio do duque de Cadaval, o palácio real e o Arquivo da Torre do Tombo cujos documentos foram salvos, o mesmo não acontecendo com as bibliotecas dos Dominicanos e dos Franciscanos. Ao todo, terão sido destruídos cerca de 10 000 edifícios e terão morrido entre 12 000 a 15 000 pessoas, ou talvez muito mais. (Estudos modernos indicam que numa cidade com 275.000 habitantes tenham morrido entre 70 a 90.000 pessoas)

Manuel da Maia
Foi neste contexto de tragédia e confusão que Sebastião José de Carvalho e Melo, então secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, revelou as suas grandes capacidades de chefia e organização ao encarregar-se da restituição da ordem; enquanto as pessoas influentes e a própria família real se afastavam de Lisboa, Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal) passou à prática a política de enterrar os mortos e cuidar dos vivos.

Impediu a fuga da população ao providenciar socorros e ao distribuir alimentos. Puniu severamente os que se dedicavam ao roubo de habitações e de imediato começou a pensar na reconstrução de Lisboa.

Neste mesmo ano, Manuel da Maia, engenheiro-mor do reino, já se encontrava a estudar o problema da reconstrução e levantava a questão de construir uma nova cidade sobre os escombros da antiga ou construir uma nova cidade em Belém, zona menos sujeita a abalos sísmicos. Escolhida a primeira das soluções, foi adoptado um modelo em que eram proibidas as obras de iniciativa particular; os proprietários dos terrenos foram obrigados a reconstruir segundo o plano geral num espaço de 5 anos, sob pena de serem obrigados a vender os terrenos.

De um total de 6 plantas traçadas pelos colaboradores de Manuel da Maia, a escolhida foi a de Eugénio dos Santos, arquitecto do Senado da cidade, que chefiou os trabalhos até 1760, altura em que faleceu e foi substituído por Carlos Mardel, arquitecto húngaro imigrado em Portugal.

À cidade medieval de ruas estreitas deu lugar um traçado racional de linhas rectilíneas em que os prédios têm todos a mesma altura. De toda a cidade pombalina, assim designada por ter resultado da iniciativa do marquês de Pombal, destaca-se a praça do Comércio, majestosa "sala de entrada" na cidade, com a estátua equestre de D. José I, monarca da altura, da autoria do escultor Machado de Castro.

Marquês da Pombal e a reconstrução de Lisboa

O Terramoto

O sismo fez-se sentir na manhã de 1 de Novembro, dia que coincide com o feriado do Dia de Todos-os-Santos. O epicentro não é conhecido com exactidão, havendo diversos sismólogos que propõem locais distanciados de centenas de quilómetros. No entanto, todos convergem para um epicentro no mar, entre 150 a 500 km a sudoeste de Lisboa.

Devido a um forte sismo ocorrido em 1969, no Banco de Gorringe, este local tem sido apontado como tendo forte probabilidade de aí se situar o epicentro em 1755.Relatos da época afirmam que os abalos foram sentidos, consoante o local, entre 6 minutos e 2 horas e meia, causando fissuras gigantescas de 5 metros que cortaram o centro da cidade de Lisboa.

Com os vários desmoronamentos os sobreviventes procuraram refúgio na zona portuária e assistiram ao recuo das águas, revelando o fundo do mar cheio de destroços de navios e cargas perdidas. Poucas dezenas de minutos depois, um maremoto de grandes proporções, que actualmente se supõe ter atingido 20 metros de altura, fez submergir o porto e o centro da cidade. Nas áreas que não foram afectadas pelo tsunami, o fogo logo se alastrou, e os incêndios duraram pelo menos 5 dias.

Lisboa não foi a única cidade portuguesa afectada pela catástrofe. Todo o sul de Portugal, sobretudo o Algarve, foi atingido e a destruição foi generalizada. Além da destruição causada pelo sismo, o tsunami que se seguiu destruiu no Algarve fortalezas costeiras e habitações, registando-se ondas com até 30 metros de altura. As ondas de choque do sismo foram sentidas por toda a Europa e norte da África. As cidades marroquinas Fez e Meknès sofreram danos e perdas de vida consideráveis.


Os maremotos originados pela movimentação tectónica varreram locais desde do norte de África (como Safim e Agadir até ao norte da Europa, nomeadamente até à Finlândia (através de seichas e através do Atlântico, afectando os Açores e a Madeira e locais tão longínquos como Antígua, Martinica e Barbados. Diversos locais em torno do golfo de Cádis foram inundados: o nível das águas subiu repentinamente em Gibraltar e as ondas chegaram até Sevilha através do rio Guadalquivir, Huelva e Ceuta.

De uma população de 275 mil habitantes em Lisboa, crê-se que 90 mil morreram. Outros 10 mil foram vitimados em Marrocos. Cerca de 85% das construções de Lisboa foram destruídas, incluindo palácios famosos e bibliotecas, conventos e igrejas, hospitais e todas as estruturas. Várias construções que sofreram poucos danos pelo terramoto foram destruídas pelo fogo que se seguiu ao abalo sísmico.

A recém construída Casa da Ópera, aberta apenas seis meses antes, foi totalmente consumida pelo fogo. O Palácio Real, que se situava na margem do Tejo, onde hoje existe o Terreiro do Paço, foi destruído pelos abalos sísmicos e pelo tsunami. Dentro, a biblioteca de 70 mil volumes e centenas de obras de arte, incluindo pinturas de Ticiano, Rubens, e Correggio, foram perdidas. O precioso Arquivo Real com documentos relativos à exploração oceânica e outros documentos antigos também foram perdidos.

O terramoto destruiu ainda as maiores igrejas de Lisboa, especialmente a Catedral de Santa Maria, e as Basílicas de São Paulo, Santa Catarina, São Vicente de Fora, e a da Misericórdia. As ruínas do Convento do Carmo ainda hoje podem ser visitadas no centro da cidade. O túmulo de Nuno Álvares Pereira, nesse convento, perdeu-se também.

O Hospital Real de Todos os Santos foi consumido pelos fogos e centenas de pacientes morreram queimados. Registos históricos das viagens de Vasco da Gama e Cristóvão Colombo foram perdidos, e incontáveis construções foram arrasadas (incluindo muitos exemplares da arquitectura do período Manuelino em Portugal).

O dia seguinte

Quase por milagre, a família real escapou ilesa à catástrofe. O Rei D. José I e a corte tinham deixado a cidade depois de assistir a uma missa ao amanhecer, encontrando-se em Santa Maria de Belém, nos arredores de Lisboa, na altura do sismo. A ausência do rei na capital deveu-se à vontade das princesas de passar o feriado fora da cidade. Depois da catástrofe, D. José I ganhou uma fobia a recintos fechados e viveu o resto da sua vida num complexo luxuoso de tendas no Alto da Ajuda, em Lisboa.

D. José I
Tal como o rei, o Marquês do Pombal, Ministro da Guerra e futuro Primeiro-ministro de Portugal, sobreviveu ao terramoto. Com o pragmatismo que caracterizou a sua futura governação, ordenou ao exército a imediata reconstrução de Lisboa. Conta-se que à pergunta "E agora?" respondeu "Enterram-se os mortos e cuidam-se os vivos" mas esse diálogo é provavelmente apócrifo. A sua rápida resolução levou a organizar equipas de bombeiros para combater os incêndios e recolher os milhares de cadáveres para evitar epidemias.

O ministro e o rei contrataram arquitectos e engenheiros, e em menos de um ano depois do terramoto já não se encontravam em Lisboa ruínas e os trabalhos de reconstrução iam adiantados. O rei desejava uma cidade nova e ordenada e grandes praças e avenidas largas e rectilíneas marcaram a planta da nova cidade. Na altura alguém perguntou ao Marquês de Pombal para que serviam ruas tão largas, ao que este respondeu que um dia "hão-de achá-las estreitas".

O novo centro da cidade, hoje conhecido por Baixa Pombalina é uma das zonas nobres da cidade. São os primeiros edifícios mundiais a serem construídos com protecções anti-sísmica, que foram testadas em modelos de madeira, utilizando-se tropas a marchar para simular as vibrações sísmicas.

Segundo descreve Suzanne Chantal no seu livro "Portugal no tempo do Terramoto", a família real escapou ilesa da catástrofe. O rei D. José I e a corte tinham deixado a cidade, depois de assistir à missa ao nascer do sol , cumprindo o desejo de uma das filhas do rei para passar o feriado longe de Lisboa. Depois da catástrofe, D. José I ficou com tanto medo de viver dentro de paredes , que passou a viver num enorme complexo de tendas e pavilhões nas colinas da Ajuda, nos arredores de Lisboa. O Marquês instalou também o todo o seu governo em tendas do mesmo tipo.

Essa claustrofobia real nunca diminuiu , e só depois da morte da sua morte é que a sua filha Maria I começou a construir o Palácio Real da Ajuda , que está no local do antigo acampamento de tendas . Tal como o rei, o primeiro-ministro Sebastião de Melo ( Marquês de Pombal ) sobreviveu ao terremoto, o que D. José considerou de excelente augúrio para os destinos do seu reino com esse ministro. Quando lhe perguntaram sobre o que se tinha de fazer.

Brigadas de bombeiros foram enviadas para apagar os grandes incêndios, e equipas de presos e cidadãos comuns foram obrigados a remover os milhares de cadáveres antes de propagação de doenças. Ao contrário do costume, mas com a devida autorização escrita do Patriarca de Lisboa, muitos corpos foram carregados em barcaças e deitados ao mar, para além da foz do rio Tejo. 

Quando lhe perguntaram como fazer com os pedaços dos corpos despedaçados e que iam ser lançados ao mar, misturados uns com os outros, o Marquês respondeu : "Deus lá no Céu, saberá a que corpo pertencem". 

Para impedir a desordem na cidade em ruínas , os regimentos do exército Português foram chamados à pressa das unidades espalhadas pelo país, impedindo os habitantes que não tinham qualquer tipo de ferimentos de fugir, e que foram obrigados a trabalhar na limpeza e reconstrução da cidade. O marquês de Tancos, D. João Manoel de Noronha, foi mandado ao Alentejo, com forças militares, para conseguir provisões de trigo.

Para evitar e punir os roubos e o saqueio dos bens das habitações destruídas, Pombal criou equipas de três funcionários, um juiz, um padre e um carrasco, e quem fosse apanhado a roubar ou a saquear, era ali mesmo julgado e pendurado nas muitas forcas que foram montadas para o efeito. Bastava aparecer com moedas chamuscadas nos bolsos para poder ser julgado como saqueador. Todas as embarcações que estacionavam no Tejo, junto a Lisboa, foram inspeccionadas para verificar se tinham bens saqueados na cidade.

O rei e o primeiro-ministro tomaram imediatamente medidas para reconstruir a cidade . Em 4 de dezembro de 1755 , pouco mais de um mês após o terramoto, Manuel da Maia , engenheiro-chefe do reino , apresentou os seus planos para a reconstrução de Lisboa. Maia apresentou cinco opções de para a construção de uma cidade completamente nova .

O primeiro plano era reconstruir a cidade antiga , utilizando materiais reciclados , que era a opção mais barata .

O segundo e terceiro planos reconstruir na forma antiga, mas alargar as ruas,

A quarta opção e a mais corajosa era a de arrasar toda a baixa de Lisboa, e reconstruir,  impondo novas regras de construção. O ministro e o Rei escolheram a quarta solução.

Quem tinha já construido fora deste ordenamento, foi obrigado a demolir, pois caso contrário seria demolido pelo estado e os proprietários teriam que pagar essa demolição. Quem não tivesse fundos para a reconstrução, era obrigado a vender a propriedade ou o seu local.

Em menos de um ano, a cidade foi limpa de detritos,para se ter uma cidade nova e perfeitamente ordenada,. O rei encomendou a construção de grandes praças, retilíneas, grandes avenidas e ruas - Alargar - as nova divisa de Lisboa.

A Baixa Pombalina teve dos primeiros edifícios construidos na Europa com proteção anti-sísmica. Para os esgotos, o Marquês ordenou que tivessem uma dimensão onde um homem pudesse a andar a a cavalo dentro deles. Quando lhe criticaram a largura das ruas, ele constestou : "Ainda um dia as vão achar estreitas". 

Eram feitos pequenos modelos de madeira construídas para teste, e os terramotos eram simulados pelo marchar de tropas à sua volta. A Baixa de Lisboa, hoje conhecida como a Baixa Pombalina, é uma das famosas atracções da cidade. Seções de outras cidades portuguesas, como a Vila Real de Santo António no Algarve, também foram reconstruídas de acordo com princípios pombalinos.

Segundo Suzanne Chantal, o embaixador de Espanha morreu esmagado pelo portal do palácio da embaixada de Espanha quando esta se desmoronou e ele pretendia fugir para a rua. Conta também que o embaixador de França que no edifício da sua embaixada não sofreu nenhum dano com o terramoto,  nem uma cerâmica partida, entretinha mais tarde as damas na corte de Paris, a descrever de forma jocosa a morte do embaixador de Espanha. Também uma freira que escapou incólume do derrube do seu convento, não quis sair do local. porque atribuía a um milagre o ter escapado com vida e sem nenhum ferimento. 

O Convento de Odivelas na 1ª metade do século XVIII era um vasto e rico convento que incluía para alem da igreja, dois claustros, acomodações para as cerca de 300 freiras, para as recolhidas e para as criadas. Existia ainda toda uma série de dependências onde as freiras se dedicavam à música, doçaria e bordados. Também em Odivelas e nomeadamente no Mosteiro de S. Dinis o terramoto foi sentido e causou estragos.

A nível arquitectónico, a igreja, de traça gótica, apresentava, como hoje, uma cabeceira com a capela-mor e duas colaterais que correspondiam a estrutura das naves - uma principal e duas laterais. A nave principal era mais extensa do que a igreja actual porque incluía a zona do coro. A norte e a ocidente estendia-se uma extensa área rural - a cerca, com a sua horta, pomar e todas as dependências necessárias ao trabalho agrícola. 

No corpo da igreja abateram as paredes laterais e uma grande parte da abóbada de pedra das três naves. Permaneceram de pé, como hoje se observa, a capela-mor e as duas capelas laterais. Resistiu também o portal lateral. Adossado à igreja, o Claustro Novo incluía a sala do capítulo, junto a qual se encontrava a escada que dava acesso ao piso superior. Neste situavam-se os dormitórios das freiras e também os aposentos da célebre madre Paula, a famosa amante de D, João V.

Não ruíram completamente mas ficaram muito danificados e impossíveis de habitar os dormitórios e as demais serventias do convento, e houve zonas que foram caindo nos dias posteriores ao terramoto, especialmente o resto das abóbadas. No chamado Claustro Novo (o mais antigo) ruíram duas alas - a nascente e a norte. Resistiu a casa do capítulo, embora a sua abóbada tenha caído.

Mosteiro de São Dinis - Convento de Odivelas
O desabamento da abóbada da igreja não provocou a morte de nenhuma freira - nem de conversas nem de recolhidas. O túmulo de D. Dinis ficou também bastante danificado: as pedras da abóbada que sobre ele tombaram destruíram praticamente a imagem de S. Luís (na cabeceira do tumulo) e mutilaram a cara e as mãos da estátua jacente do rei.

No entanto, informações da Memória Paroquial dão conta da morte de 32 pessoas desta freguesia, predominantemente mulheres, e de um religioso da Ordem de S. Bernardo que aqui se encontravam para assistir aos serviços religiosos, além de outras pessoas, não contabilizadas, de fora da freguesia.

O Livro de Óbitos de Odivelas faz referência a estas mortes, nos dados relativos ao dia 1 de Novembro. Trinta terão ocorrido imediatamente e as outras nos dias subsequentes. Do número total de mortos, só dez se conseguiram retirar do local para serem enterrados, tendo os outros ficado soterrados nas ruínas.

A reconstrução iniciou-se pela zona da Igreja e foi realizada num prazo relativamente curto, já que passados dois anos esta área estava concluída. A igreja fica então com a imagem que hoje se nos apresenta - uma nave única que por necessidades técnicas e funcionais se adapta a cabeceira gótica.

Também as alas nascente e norte do Claustro Novo foram reconstruídas com características arquitectónicas diferentes das originais, apresentando uma construção mais ao gosto neoclássico que contrasta com as alas ocidental e sul de trava gótica. Permanece ainda visível o arranque dos arcos que, partindo da cabeceira, faziam a articulação com as naves.

Impossibilitadas de viver no mosteiro arruinado e com zonas em risco de desabar, parte das freiras procura refúgio na cerca do convento e outra parte resolve sair da clausura, (como fizeram freiras de muitos outros conventos) vivendo em casas fora dos limites dos mosteiros. Esta última atitude é alvo de um decreto de 9 de Janeiro de 1756, obrigando todas as freiras novamente a clausura e sem poderem voltar livremente para casa depois dos serviços religiosos como tinham feito até então. Durante este tempo, os actos de culto eram celebrados na denominada casa do lagar do azeite. 

Na cerca, provavelmente na zona a ocidente do coro, construíram-se barracas de madeira onde viveram as freiras até que as obras de reconstrução do mosteiro terminassem e pudessem regressar em segurança, o que aconteceu em 1760. 

A Casa Pia, uma instituição fundada por D. Maria I (conhecida como "Maria, a Piedosa"), e organizado pela Intendente de polícia Pina Manique, em 1780, foi fundada depois da desordem social provocada pelo terramoto de 1755 em Lisboa.

Implicações Sociais

O Terramoto de Lisboa abalou muito mais que a cidade e os seus edifícios. Lisboa era a capital de um país católico, com grande tradição de edificação de conventos e igrejas e empenhado na evangelização das suas colónias. O facto de o terramoto ocorrer num dia santo e destruir várias igrejas importantes levantou muitas questões religiosas por toda a Europa. Para a mentalidade religiosa do século XVIII, seria uma manifestação da ira divina de difícil explicação.

Na política, o terramoto foi também devastador. O ministro Marquês do Pombal era o favorito do rei mas não do agrado da alta nobreza, que competia pelo poder e favores do monarca. Depois de 1 de Novembro, a eficácia da resposta do Marquês do Pombal (cujo título lhe é atribuído em 1770) garante-lhe um maior poder e influência perante o rei, que também aproveita para reforçar o seu poder e consolidar o Absolutismo.


                                 Alegoria do Terramoto de 1755 por João Glama Strobërle. 

Isto leva a um descontentamento da aristocracia que iria culminar na tentativa de regicídio e na subsequente eliminação dos Távoras. Para além do agravamento das tensões políticas em Portugal, a destruição da cidade de Lisboa frustrou muitas das ambições coloniais do Império Português de então.

Os Jesuitas também ajudaram nas maquinações contra o Marquês de Pombal, e no Brasil já constituíam um Estado dentro dum Estado. Em Lisboa o padre Jesuita Malagrida, que tinha sido confessor de D. João V, assitido aos seus últimos momentos e portanto considerava-se como protegido pelo seu prestígio, escreveu e distribuiu panfletos ("Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto" (1756), onde se dizia que o terramoto tinha sido castigo de Deus, e que se não contribuíssem generosamente para os cofres religiosos, Deus voltava a castigá-los.

As várias réplicas do sismo que continuavam a sentir-se, mais de 250 durante 5 ou 6 meses, mantinham o povo assustado e temeroso. Malagrida teve até o "atrevimento" de ir entregar um desses panfletos à casa de Pombal na rua do século em Lisboa, uma zona que não tinha sido devastada pelo sismo. O Marquês já tinha explicado ao povo que o sismo tinha sido um fenómeno natural, que não tinha nada com o religioso e que se tinha sentido desde o norte da Europa até às costas do continente americano. Portanto Pombal achou que o panfleto do padre era um desafio à autoridade do Estado.

Mas Malagrida que tinha sido desterrado para Setúbal e os jesuitas insistiram nas suas insinuações. O  Marquês perdeu a paciência, e anos mais tarde, em 1781 o padre foi acusado de herege, condenado à morte pela Inquisição, garrotado e acabou na fogueira. Os Jesuitas foram expulsos de Portugal, de Espanha e de França, e o Papa  Clemente XIV através da bula "Dominus ac Redemptor" acabou por extinguir a Ordem dos Jesuítas, e todos os seus bens em Portugal passaram ao Estado. O actual Hospital de São José, era um Colégio Jesuíta e passou a substituir o Hospital de Todos os Santos que ardeu no incêndio devido ao Terramoto. 

O terramoto e a Filosofia Iluminista
O ano de 1755 insere-se numa era fulcral de uma grande transformação social: a Revolução Industrial, o Iluminismo, o Capitalismo lançam as bases de uma sociedade moderna em alguns países da Europa Ocidental. O terramoto influenciou de forma determinante muitos pensadores europeus do Iluminismo. Foram muitos os filósofos que fizeram menção ou aludiram ao terramoto nos seus escritos, dos quais se destaca Voltaire, no seu Candide e no Poème sur le désastre de Lisbonne ("Poema sobre o desastre de Lisboa"). 
Voltaire
A arbitrariedade da sobrevivência foi, provavelmente, o que mais marcou o autor, que satirizou a ideia, defendida por autores como Gottfried Wilhelm Leibniz e Alexander Pope, de que "este é o melhor dos mundos possíveis"; como escreveu Theodor Adorno, o terramoto de Lisboa foi suficiente para Voltaire refutar a teodiceia de Leibniz" (Negative Dialectics, 361). 
Mais tarde, no século XX, também citando Adorno, o terramoto passou a ser comparado aoHolocausto - uma catástrofe de tais dimensões que só poderia ter um impacto profundo e transformador na cultura e filosofia europeias. Esta interpretação de Theodor Adorno serve de ilustração à sua interpretação da história, que é bastante crítica da sociedade
O conceito do sublime, embora já tivesse sido formulado antes de 1755, foi desenvolvido na Filosofia e elevado a tema de maior importância por Immanuel Kant, em parte como resultado das suas tentativas para compreender a enormidade do terramoto de Lisboa e dotsunami. Kant publicou três textos distintos sobre o terramoto. O jovem Kant, fascinado com o fenómeno, reuniu toda a informação que conseguiu sobre o desastre, através de notícias impressas, servindo-se desses dados para formular uma teoria relacionada com a origem dos sismos. 

Immanuel Kant
A teoria de Kant, que envolvia o deslocamento de enormes cavernassubterrâneas insufladas por gases a alta temperatura, foi, ainda que mais tarde se mostrasse falsa, uma das primeiras tentativas sistematizadas a tentar explicar os sismos através de causas naturais, em vez de causas sobrenaturais. De acordo com o filósofo marxista Walter Benjamin, o pequeno caderno de Kant sobre o assunto representa, provavelmente, o início da Geografia científica na Alemanha. 

O mesmo autor chega a afirmar: "E foi, certamente, o início da Sismologia" (frase essa que é mais controversa - talvez o início da Sismologia moderna tenha começado mesmo em Portugal com os estudos incentivados pelo Marquês de Pombal).

O pensador pós-moderno Werner Hamacher chega a defender a tese de que as consequências do terramoto se estenderam ao vocabulário da Filosofia, transtornando as metáforas da "fundamentação" e dos "fundamentos" das teorias filosóficas, mostrando como estes podem ser facilmente "abalados" pela incerteza: "Sob a impressão exercida pelo terramoto de Lisboa, que tocou a mentalidade europeia numa das suas épocas mais sensíveis, as metáforas da fundamentação ("ground" = chão, em inglês) e dos abalos perderam totalmente a sua inocência aparente; deixavam de ser meras figuras de estilo" (pág. 263). Hamacher defende mesmo que a certeza fundadora da filosofia de Descartes sofreu um considerável abalo após o terramoto.

História dos Terramotos de Lisboa

Infelizmente, os Terramotos não eram novidade na zona da cidade de Lisboa que é de grande instabilidade sísmica. A DGMEN menciona só para a Sé de Lisboa, destruições causadas por terramotos nos anos de : 1321 - 1337 - 1344 - 1347 - 1356 - 1531- 1755 e no sismo já muito recente de de 1969. Foram também notáveis os terramotos de 1724 e 1750.

Veja-se Dicionário de História de Portugal de Joel serrão.

O nascimento da SISMOLOGIA

A competência do ministro não se limitou à acção de reconstrução da cidade. O Marquês do Pombal ordenou um inquérito, enviado a todas as paróquias do país para apurar a ocorrência e efeitos do terramoto. O questionário incluía as seguintes questões:

Quanto tempo durou o terramoto?
Quantas réplicas se sentiram?
Que tipo de danos causou o terramoto?
Os animais tiveram comportamento estranho?
Que aconteceu nos poços?

As respostas estão ainda arquivadas na Torre do Tombo. Através das respostas do inquérito foi possível aos cientistas da actualidade recolherem dados fiáveis e reconstituírem o fenómeno numa perspectiva cientifica. O inquérito do Marquês do Pombal foi a primeira iniciativa de descrição objectiva no campo da sismologia, razão pela qual é considerado um precursor da ciência da sismologia.

As causas geológicas do terramoto e da actividade sísmica na região de Lisboa são ainda causa de debate científico, existindo indícios geológicos da ocorrência de grandes abalos sísmicos com uma periodicidade de aproximadamente 300 anos.

Lisboa encontra-se junto de uma falha tectónica, mas a grande maioria dos terramotos tão intensos como o sismo de 1755 só acontece nas zonas de fronteira entre placas. Alguns geólogos portugueses avançaram a ideia de que o sismo estaria relacionado com a zona de "subducção" do oceano Atlântico, entre as placas tectónicas euro-asiática e africana . Na imagem acima, gaiola pombalina, usada na construção dos novos edificios.

Sismos em Portugal

Portugal tem sido afetado por vários sismos de magnitude moderada a forte, que muitas vezes resultaram em danos importantes em várias cidades do país.

A maior parte dos sismos graves tiveram origem em zonas interplacas, cuja sismicidade pode considerar-se elevada, uma vez que Portugal está perto da fronteira entre a placa africana e a placa Euro-Asiática (podem ser sismos de magnitude elevada, têm origem no oceano e têm períodos de retorno de algumas centenas de anos – aponta-se para que sismos com a intensidade do de 1755 seja cerca de 250 anos). Os epicentros dos maiores sismos localizam-se perto do Banco de Gorringe, a Sudoeste do Cabo de São Vicente. Sismos de alguma importância em Portugal Continental:

216 b.C- Sismo que atingiu toda a Hispânia, na época da batalha de Canas.

382 – sismo seguido da submersão de ilhas ao largo do Cabo de São Vicente. 20 de Janeiro ou 26 de Janeiro de 382

1531- Um terramoto em Lisboa, matou 30.000 pessoas, cerca de 20% da sua população da época : 

"Guardando a ordem dos anos, direi do seguinte, de trinta um, no principio do qual ouve neste reino de Portugal muito trabalho, por aver nele peste e terremotos, com tremer a terra e caírem casas e edeficios, onde morreo muita jente ; e tal espanto e medo pôs que andávão as jentes espantadas e fora de si, que não ousávão a entrar, nem dormir em povoado, e saíão-se ao campo, onde dormião em choupanas e tendas que pera iso fazíão, e asaz foi isto mais em Lisboa e polo Tejo acima que em outra parte, e em especial em Vila Franca, Povos, Castanheira, Azambuja, até Santarém, e foi este terremoto a vinte de janeiro do ano de trinta um ; e, como Noso Senhor é misericordioso, ouve por bem sosegar o tempo."


Gravura do grande terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de1755, mostra o terceiro sismo mais forte registado no mundo, provável magnitude de 9.0.

Em 1 de Novembro de 1755 seguido de maremoto (Terramoto de 1755) – foi mais sentido no Algarve do que em Lisboa (pensa-se que a sua origem teve origem numa região e não num epicentro, a sua mais provável magnitude é de 9.0).

28 de Fevereiro de 1969 – epicentro no Banco de Gorringe, magnitude 7,3.
17 de Dezembro de 

2009 - epicentro a 100 km da ponta de Sagres, magnitude 6,0.

A sismicidade é moderada nos sismos de origem intraplaca, passando a baixa no Norte de Portugal (o que não implica que nestas zonas não possam ocorrer sismos com magnitudes significativas, mas o seu período de retorno é na ordem dos milhares ou dezenas de milhar de anos). 

Falhas intraplaca em Portugal Continental:

Vale Inferior do Tejo (VIT) – sismo com epicentro em Benavente(1909) e sismo de 1531.

Falha de Loulé – sismo de 1722 que foi ao largo de Tavira, logo não teve origem nesta falha geológica) e sismo de 1856.

Falha de Portimão – 1719.

Falha da Vilariça – é uma falha relativamente estável.

Vale submarino do Sado – deu origem a um dos maiores sismos em zonas intraplacas a nível global (1858).

Falha Nazaré-Pombal.
Outros – 60 a.C. seguido de maremoto (perto da Galiza).

O Arquipélago dos Açores também é bastante afectado pelos sismos (principalmente os grupos Central e Oriental), e por vezes esta actividade está associada à actividade vulcânica. Ainda que o arquipélago dos Açores esteja no limite de placas, esta sismicidade é causada por um hot spot ou pluma mantélica. A sismicidade não tem grande importância no arquipélago da Madeira.

A Baixa Pombalina - A reconstrução de Pombal

A baixa de Lisboa, também chamada Baixa Pombalina ou Lisboa Pombalina por ter sido edificada por ordem do Marquês de Pombal, na sequência doterramoto de 1755, cobrindo uma área de cerca de 23,5 hectares. Situa-se entre o Terreiro do Paço, junto ao rio Tejo, e o Rossio e a Praça da Figueira, e longitudinalmente entre o Cais do Sodré, o Chiado e o Carmo, de um lado, e aSé e a colina do Castelo de São Jorge, do outro.

A freguesia de São Nicolau ocupa a parte central da Baixa, sendo rodeada, no sentido dos ponteiros do relógio, pelas freguesias dos Mártires, Sacramento, Santa Justa, São Cristóvão e São Lourenço e Madalena.

Urbanismo

Rua Augusta

Baixa é formada por um conjunto de ruas rectas e perpendicularesorganizadas para ambos os lados de um eixo central constituído pela Rua Augusta. Os edifícios têm uma arquitectura semelhante, com rés-do-chão comerciais e andares superiores para habitação. 

As dimensões de vãos e pés-direitos eram uniformes, o que permitiu a construção mais rápida com recurso a elementos pré-fabricados, como é o caso das cantarias das janelas de dois únicos tipos — um para as fachadas das ruas principais e outro para as fachadas das ruas secundárias.

As fundações dos edifícios assentam sobre estacaria em pinho verde, cravada em terrenos de aluvião abaixo do nível freático, servindo de embasamento para os alicerces. Ao nível das lojas, as salas são abobadadas com tijoleira e rematadas por arcos de cantaria. 

Os andares superiores foram construídos com uma das particularidades notáveis das estruturas pombalinas, a designada gaiola pombalina, uma estrutura interior de madeira com travamento, projectada para distribuir as forças sísmicas.

É um dos primeiros exemplos de construção anti-ssísmica. Os modelos  arquitectónicos foram testados com a utilização de tropas em marcha para simular um terramoto. Para a prevenção e combate aos incêndios, todos os quarteirões tinham poços de água nos saguões e as paredes entre os edifícios eram mais altas que o telhado para prevenir a progressão do fogo (paredes corta-fogo).


Praça da Figueira - Local do antigo Hospital de Todos os Santos
A Baixa dispôs da primeira verdadeira rede de esgotos domésticos, dando para colectores subterrâneos sob as ruas. Foi apreciada como candidata portuguesa à lista de Património Mundial em 7 de Dezembro de 2004, declarando-a superior às áreas planeadas em Edimburgo, Turim eLondres; inclusivamente, a inscrição alega que os planos da reconstrução de Londres após o Grande Incêndio "não implementa princípios gerais" tais como os conseguidos na zona pombalina.


Arco do Triunfo na Rua Augusta
A parte central da Baixa corresponde à zona aplanada resultante do enchimento aluvionar do antigo esteiro do Tejo, onde desaguavam as (agora encanadas) ribeiras do Vale Pereiro e de Arroios. Ao enchimento aluvionar somou-se o aterro realizado com o entulho das ruínas e demolições da cidade pré-terramoto, elevando o nível médio da Baixa em mais de um metro.

No tempo dos romanos o esteiro era o centro de actividades portuárias, de salga de peixe e de produção de garum. As diferentes fases de evolução do esteiro e da ocupação da Baixa podem ser percebidas no Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros.


O Terramoto de 1531

Com um epicentro algures entre Azambuja e Vila Franca de Xira, no dia 26 de Janeiro de 1531, faz hoje 479 anos, um terramoto destruiu parcialmente Lisboa. Sismo que, segundo se julga, pouco terá ficado a dever ao de 1755. No entanto, a cidade não era tão grande, nem tão populosa, embora para a época, fosse considerada de enorme dimensão – teria cerca de 100 mil habitantes (contra os 275 mil de 1755).

As zonas da cidade que foram atingidas não terão também sido as mesmas. Como exemplo desta afirmação, o Hospital de Todos os Santos, no Rossio, não ficou significativamente danificado, vindo porém a desaparecer no sismo de 1755. Sabe-se também que, embora com menos danos registados, o Ribatejo e o Alentejo foram regiões duramente atingidas. Desde o dia 7 que se verificavam abalos, mas o mais grave foi o de 26 quando, ao princípio da madrugada, a terra tremeu por três vezes.

30 mil mortos

Não há registo de maremoto, tsunami ou grandes incêndios, como na catástrofe de 224 anos depois. Em todo o caso, o número de vítimas que a tradição consagra é o de 30 mil. Tendo em conta a população da cidade, foi igualmente uma tragédia de grandes dimensões.

Por outro lado, as fontes de informação disponíveis para estudar o terramoto de 1755, não são tão copiosas para o de 1531. Sabemos, no entanto, que houve danos muito consideráveis. Na principal rua de Lisboa, a Rua Nova, tombaram varandas e muitos dos edifícios abriram enormes fendas. Uma parte do palácio real, o Paço da Ribeira, sofreu grandes estragos. A Torre de Belém e o Mosteiro de Belém (Jerónimos) foram também duramente atingidos.

António de Castilho, filho do arquitecto João de Castilho, descreveu os estragos em Lisboa, particularmente no Rossio, onde caiu a Igreja de Nossa Senhora da Escada., uma parte do Paço dos Estaus (onde se acolhiam os altos dignitários estrangeiros), parte das naves do Convento de São Domingos (onde está hoje o Teatro de D. Maria II). Houve danos na Sé, no Convento do Carmo, na Igreja de São João da Praça e, como já, disse, numa ala do Paço da Ribeira.

De notar que o Bairro Alto, um dos primeiros bairros europeus a ser construído com planta em quadrícula, foi edificado para responder à destruição provocada pelo terramoto de 1531. Especulação sobre os terrenos, comprando quase de graça e vendendo depois por preço elevado, foi o negócio de um tal Duarte Belo (de que ainda existe memória numa Rua da Bica Duarte Belo, aquela que é percorrida pelo elevador da Bica).

Era um armador e negociante que possuía na Boavista (onde fica hoje a rua do mesmo nome) umas casas e um terreno no qual existia uma bica, designada pelos seus utentes como «Bica dos Olhos ». Em 1726, publicava-se em Lisboa no «Arquipégio Medicinal» um anúncio recomendando, como remédio infalível para terçolhos e outros males da vista, a lavagem dos olhos na «Bica do Duarte Belo ». Tinha de ser antes do Sol nascer, para garantir a cura.

O rei D.João III que estava no Paço de Benavente, teve ir para Alhos Vedros e depois para Azeitão, porque os seus aposentos de Benavente ficaram destruídos. Em Santarém, na Castanheira, em Vila Franca de Xira, na Azambuja, onde sacudidos pelo sismo os sinos tocaram sozinhos, no Lavradio, em Setúbal. Digamos que o terramoto de 1531 afectou toda a região de Lisboa e o vale do Tejo.

Os testemunhos, muito mais escassos do que os de 1755, existem, no entanto: Além do já citado António de Castilho, há uma carta de um anónimo castelhano ao marquês de Tarifa, Fradique Enríquez de Ribera, descrevendo as destruições em Lisboa, nomeadamente na Rua dos Fornos, onde ruíram numerosas casas e as da Rua Nova. Na carta, descrevia-se também o pavor da população lisboeta que dormia vestida para poder fugir ao primeiro sinal de novo sismo.

Em 1755, a par com as «explicações» tradicionais – castigo divino pelos desmandos humanos – surgiram abordagens diferentes, científicas umas (com os naturais limites da ciência contemporânea) e outras procurando explicar racionalmente o que sucedera. Em 1531, o estado dos conhecimentos sobre o mosaico multidisciplinar que permite compreender fenómenos naturais desta natureza, era mais do que incipiente.
Cálculo das ondas do Tsunami

No entanto, quando frades de Santarém relacionaram os danos verificados na cidade pela presença de judeus, ou melhor, de «cristãos novos», visto que os judeus haviam sido expulsos no reinado de D. Manuel, Gil Vicente combateu esta tentativa de culpabilizar os hebreus, numa carta que leu perante os próprios frades, atacou as prédicas dos clérigos que aterrorizavam os fiéis anunciando-lhes que os cataclismos eram resultado da ira divina contra os pecados dos homens.

Com o mesmo esclarecedor objectivo, escreveu uma carta a D. João III condenando a perseguição aos judeus. Curioso o facto de, em 1755, uma das tais «explicações» encontradas para o sismo, tenha sido a das perseguições feitas aos judeus, a par com hábitos debochados importados de França e de Itália e com a proibição de os crentes lerem a Bíblia.

Como ficou Lisboa depois deste terramoto, sabêmo-lo cruzando os dados que nos proporcionam as obras de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, «Lisboa em 1551» («Em que brevemente se contêm algumas coisas assim eclesiásticas como seculares que há na cidade de Lisboa», «Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552», de João Brandão (de Buarcos) e na «Descrição da Cidade de Lisboa», de Damião de Góis. 

Uma gravura de Georgius Braun Agrippinensis, pertencente ao volume I de «Civitates Orbis Terrarum», publicada em 1593, permite compreender melhor aqueles livros, todos eles publicados em edições recentes prefaciadas e anotadas por José da Felicidade Alves. Um livro de António Borges Coelho, «Ruas e Gentes na Lisboa Quinhentista», muito ilustrado, mostra também a cidade entre os terramotos de 1531 e 1755.

MAGNITUDE dos Terramotos

Magnitude é uma medida quantitativa do tamanho do terremoto. Ela está relacionada com a energia sísmica liberada no foco e também com a amplitude das ondas registradas pelos sismógrafos.

Para cobrir todos os tamanhos de terremotos, desde os microtremores de magnitude negativas até os grandes terremotos com magnitudes superiores a 8.0, foi idealizada uma escala logarítmica, sem limites. No entanto, a própria natureza impõem um limite superior a esta escala já que ela está condicionada ao próprio limite de resistência das rochas da crosta terrestre.

Magnitude e energia podem ser relacionadas pela fórmula descrita por Gutenberg e Richter em 1935:

log E = 11,8 + 1,5M

onde:

E= energia liberada em erg;
M=magnitude do terremoto.

O erg é a unidade de energia ou de trabalho no sistema de unidades centímetro-grama-segundo (CGS), símbolo "erg". Etimologicamente, sua origem vem do Grego ergon que significa trabalho. O impacto gerado a partir da colisão de um pequeno mosquito com uma parede é aproximadamente 1 erg. O erg é uma unidade bastante pequena, equivalente a 1grama·centímetro/segundo. Assim, é igual a 1 × 10−7 joule ou 0.1 µJ.

1 erg = 5,0345 ×1015 cm-1

1 erg = 10−7 Joule = 100 nJoule

1 erg = 624.15 GeV = 6.2415 ×E11 eV

De acordo com esta fórmula, um sismo com M=9 como o Lisboa, libertaria uma energia de 1,995E25 ergs ou 1,995E18 joules ou 554E9 Kw/h ! Cerca de 22.170 vezes a potência da bomba atómica de Hiroshima (22Kilotons) ! Uma energia equivalente a uma bomba de cerca de 500 MegaTons !

A maior bomba que foi deflagrada até hoje, num teste, foi a TsarBomb na ex-URSS de 50 Megatons.