quarta-feira, 5 de junho de 2013

O Terramoto de Lisboa (1755)

O Terramoto de Lisboa (1755)

Na manhã de 1 de Novembro, dia de Todos os Santos, um violento terramoto fez-se sentir em Lisboa, Setúbal e no Algarve. Na capital, local onde atingiu maior intensidade ( modernamente crê-se que com grau 9 na escala de Ritcher ), foi acompanhado por um maremoto ( Tsunami ) com ondas que parecem ter chegado aos 20 metros, e que chegou até às costas dos Estados Unidas da América.

O maremoto varreu o Terreiro do Paço e um gigantesco incêndio que, durante 6 dias, completaram o cenário de destruição de toda a Baixa de Lisboa. Este trágico acontecimento foi tema de uma vasta literatura que se desenvolveu um pouco por toda a Europa, e de que é exemplo o poema de Voltaire Le Désastre de Lisbonne (1756).

Lisboa já havia sentido muitos terramotos nos tempos modernos, oito no século XIV, cinco no século XVI, incluindo o de 1531que destruiu 1.500 casas, e o de 1597 que destruiu três ruas, e três no século XVI. No século XVIII foram mencionados os terramotos de 1724 e 1750. Este último precisamente no dia da morte de D. João V, mas ambos de consequências menores.

Em 1755, ruíram importantes edifícios, como o Teatro da Ópera, o palácio do duque de Cadaval, o palácio real e o Arquivo da Torre do Tombo cujos documentos foram salvos, o mesmo não acontecendo com as bibliotecas dos Dominicanos e dos Franciscanos. Ao todo, terão sido destruídos cerca de 10 000 edifícios e terão morrido entre 12 000 a 15 000 pessoas, ou talvez muito mais. (Estudos modernos indicam que numa cidade com 275.000 habitantes tenham morrido entre 70 a 90.000 pessoas)

Manuel da Maia
Foi neste contexto de tragédia e confusão que Sebastião José de Carvalho e Melo, então secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, revelou as suas grandes capacidades de chefia e organização ao encarregar-se da restituição da ordem; enquanto as pessoas influentes e a própria família real se afastavam de Lisboa, Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal) passou à prática a política de enterrar os mortos e cuidar dos vivos.

Impediu a fuga da população ao providenciar socorros e ao distribuir alimentos. Puniu severamente os que se dedicavam ao roubo de habitações e de imediato começou a pensar na reconstrução de Lisboa.

Neste mesmo ano, Manuel da Maia, engenheiro-mor do reino, já se encontrava a estudar o problema da reconstrução e levantava a questão de construir uma nova cidade sobre os escombros da antiga ou construir uma nova cidade em Belém, zona menos sujeita a abalos sísmicos. Escolhida a primeira das soluções, foi adoptado um modelo em que eram proibidas as obras de iniciativa particular; os proprietários dos terrenos foram obrigados a reconstruir segundo o plano geral num espaço de 5 anos, sob pena de serem obrigados a vender os terrenos.

De um total de 6 plantas traçadas pelos colaboradores de Manuel da Maia, a escolhida foi a de Eugénio dos Santos, arquitecto do Senado da cidade, que chefiou os trabalhos até 1760, altura em que faleceu e foi substituído por Carlos Mardel, arquitecto húngaro imigrado em Portugal.

À cidade medieval de ruas estreitas deu lugar um traçado racional de linhas rectilíneas em que os prédios têm todos a mesma altura. De toda a cidade pombalina, assim designada por ter resultado da iniciativa do marquês de Pombal, destaca-se a praça do Comércio, majestosa "sala de entrada" na cidade, com a estátua equestre de D. José I, monarca da altura, da autoria do escultor Machado de Castro.

Marquês da Pombal e a reconstrução de Lisboa

O Terramoto

O sismo fez-se sentir na manhã de 1 de Novembro, dia que coincide com o feriado do Dia de Todos-os-Santos. O epicentro não é conhecido com exactidão, havendo diversos sismólogos que propõem locais distanciados de centenas de quilómetros. No entanto, todos convergem para um epicentro no mar, entre 150 a 500 km a sudoeste de Lisboa.

Devido a um forte sismo ocorrido em 1969, no Banco de Gorringe, este local tem sido apontado como tendo forte probabilidade de aí se situar o epicentro em 1755.Relatos da época afirmam que os abalos foram sentidos, consoante o local, entre 6 minutos e 2 horas e meia, causando fissuras gigantescas de 5 metros que cortaram o centro da cidade de Lisboa.

Com os vários desmoronamentos os sobreviventes procuraram refúgio na zona portuária e assistiram ao recuo das águas, revelando o fundo do mar cheio de destroços de navios e cargas perdidas. Poucas dezenas de minutos depois, um maremoto de grandes proporções, que actualmente se supõe ter atingido 20 metros de altura, fez submergir o porto e o centro da cidade. Nas áreas que não foram afectadas pelo tsunami, o fogo logo se alastrou, e os incêndios duraram pelo menos 5 dias.

Lisboa não foi a única cidade portuguesa afectada pela catástrofe. Todo o sul de Portugal, sobretudo o Algarve, foi atingido e a destruição foi generalizada. Além da destruição causada pelo sismo, o tsunami que se seguiu destruiu no Algarve fortalezas costeiras e habitações, registando-se ondas com até 30 metros de altura. As ondas de choque do sismo foram sentidas por toda a Europa e norte da África. As cidades marroquinas Fez e Meknès sofreram danos e perdas de vida consideráveis.


Os maremotos originados pela movimentação tectónica varreram locais desde do norte de África (como Safim e Agadir até ao norte da Europa, nomeadamente até à Finlândia (através de seichas e através do Atlântico, afectando os Açores e a Madeira e locais tão longínquos como Antígua, Martinica e Barbados. Diversos locais em torno do golfo de Cádis foram inundados: o nível das águas subiu repentinamente em Gibraltar e as ondas chegaram até Sevilha através do rio Guadalquivir, Huelva e Ceuta.

De uma população de 275 mil habitantes em Lisboa, crê-se que 90 mil morreram. Outros 10 mil foram vitimados em Marrocos. Cerca de 85% das construções de Lisboa foram destruídas, incluindo palácios famosos e bibliotecas, conventos e igrejas, hospitais e todas as estruturas. Várias construções que sofreram poucos danos pelo terramoto foram destruídas pelo fogo que se seguiu ao abalo sísmico.

A recém construída Casa da Ópera, aberta apenas seis meses antes, foi totalmente consumida pelo fogo. O Palácio Real, que se situava na margem do Tejo, onde hoje existe o Terreiro do Paço, foi destruído pelos abalos sísmicos e pelo tsunami. Dentro, a biblioteca de 70 mil volumes e centenas de obras de arte, incluindo pinturas de Ticiano, Rubens, e Correggio, foram perdidas. O precioso Arquivo Real com documentos relativos à exploração oceânica e outros documentos antigos também foram perdidos.

O terramoto destruiu ainda as maiores igrejas de Lisboa, especialmente a Catedral de Santa Maria, e as Basílicas de São Paulo, Santa Catarina, São Vicente de Fora, e a da Misericórdia. As ruínas do Convento do Carmo ainda hoje podem ser visitadas no centro da cidade. O túmulo de Nuno Álvares Pereira, nesse convento, perdeu-se também.

O Hospital Real de Todos os Santos foi consumido pelos fogos e centenas de pacientes morreram queimados. Registos históricos das viagens de Vasco da Gama e Cristóvão Colombo foram perdidos, e incontáveis construções foram arrasadas (incluindo muitos exemplares da arquitectura do período Manuelino em Portugal).

O dia seguinte

Quase por milagre, a família real escapou ilesa à catástrofe. O Rei D. José I e a corte tinham deixado a cidade depois de assistir a uma missa ao amanhecer, encontrando-se em Santa Maria de Belém, nos arredores de Lisboa, na altura do sismo. A ausência do rei na capital deveu-se à vontade das princesas de passar o feriado fora da cidade. Depois da catástrofe, D. José I ganhou uma fobia a recintos fechados e viveu o resto da sua vida num complexo luxuoso de tendas no Alto da Ajuda, em Lisboa.

D. José I
Tal como o rei, o Marquês do Pombal, Ministro da Guerra e futuro Primeiro-ministro de Portugal, sobreviveu ao terramoto. Com o pragmatismo que caracterizou a sua futura governação, ordenou ao exército a imediata reconstrução de Lisboa. Conta-se que à pergunta "E agora?" respondeu "Enterram-se os mortos e cuidam-se os vivos" mas esse diálogo é provavelmente apócrifo. A sua rápida resolução levou a organizar equipas de bombeiros para combater os incêndios e recolher os milhares de cadáveres para evitar epidemias.

O ministro e o rei contrataram arquitectos e engenheiros, e em menos de um ano depois do terramoto já não se encontravam em Lisboa ruínas e os trabalhos de reconstrução iam adiantados. O rei desejava uma cidade nova e ordenada e grandes praças e avenidas largas e rectilíneas marcaram a planta da nova cidade. Na altura alguém perguntou ao Marquês de Pombal para que serviam ruas tão largas, ao que este respondeu que um dia "hão-de achá-las estreitas".

O novo centro da cidade, hoje conhecido por Baixa Pombalina é uma das zonas nobres da cidade. São os primeiros edifícios mundiais a serem construídos com protecções anti-sísmica, que foram testadas em modelos de madeira, utilizando-se tropas a marchar para simular as vibrações sísmicas.

Segundo descreve Suzanne Chantal no seu livro "Portugal no tempo do Terramoto", a família real escapou ilesa da catástrofe. O rei D. José I e a corte tinham deixado a cidade, depois de assistir à missa ao nascer do sol , cumprindo o desejo de uma das filhas do rei para passar o feriado longe de Lisboa. Depois da catástrofe, D. José I ficou com tanto medo de viver dentro de paredes , que passou a viver num enorme complexo de tendas e pavilhões nas colinas da Ajuda, nos arredores de Lisboa. O Marquês instalou também o todo o seu governo em tendas do mesmo tipo.

Essa claustrofobia real nunca diminuiu , e só depois da morte da sua morte é que a sua filha Maria I começou a construir o Palácio Real da Ajuda , que está no local do antigo acampamento de tendas . Tal como o rei, o primeiro-ministro Sebastião de Melo ( Marquês de Pombal ) sobreviveu ao terremoto, o que D. José considerou de excelente augúrio para os destinos do seu reino com esse ministro. Quando lhe perguntaram sobre o que se tinha de fazer.

Brigadas de bombeiros foram enviadas para apagar os grandes incêndios, e equipas de presos e cidadãos comuns foram obrigados a remover os milhares de cadáveres antes de propagação de doenças. Ao contrário do costume, mas com a devida autorização escrita do Patriarca de Lisboa, muitos corpos foram carregados em barcaças e deitados ao mar, para além da foz do rio Tejo. 

Quando lhe perguntaram como fazer com os pedaços dos corpos despedaçados e que iam ser lançados ao mar, misturados uns com os outros, o Marquês respondeu : "Deus lá no Céu, saberá a que corpo pertencem". 

Para impedir a desordem na cidade em ruínas , os regimentos do exército Português foram chamados à pressa das unidades espalhadas pelo país, impedindo os habitantes que não tinham qualquer tipo de ferimentos de fugir, e que foram obrigados a trabalhar na limpeza e reconstrução da cidade. O marquês de Tancos, D. João Manoel de Noronha, foi mandado ao Alentejo, com forças militares, para conseguir provisões de trigo.

Para evitar e punir os roubos e o saqueio dos bens das habitações destruídas, Pombal criou equipas de três funcionários, um juiz, um padre e um carrasco, e quem fosse apanhado a roubar ou a saquear, era ali mesmo julgado e pendurado nas muitas forcas que foram montadas para o efeito. Bastava aparecer com moedas chamuscadas nos bolsos para poder ser julgado como saqueador. Todas as embarcações que estacionavam no Tejo, junto a Lisboa, foram inspeccionadas para verificar se tinham bens saqueados na cidade.

O rei e o primeiro-ministro tomaram imediatamente medidas para reconstruir a cidade . Em 4 de dezembro de 1755 , pouco mais de um mês após o terramoto, Manuel da Maia , engenheiro-chefe do reino , apresentou os seus planos para a reconstrução de Lisboa. Maia apresentou cinco opções de para a construção de uma cidade completamente nova .

O primeiro plano era reconstruir a cidade antiga , utilizando materiais reciclados , que era a opção mais barata .

O segundo e terceiro planos reconstruir na forma antiga, mas alargar as ruas,

A quarta opção e a mais corajosa era a de arrasar toda a baixa de Lisboa, e reconstruir,  impondo novas regras de construção. O ministro e o Rei escolheram a quarta solução.

Quem tinha já construido fora deste ordenamento, foi obrigado a demolir, pois caso contrário seria demolido pelo estado e os proprietários teriam que pagar essa demolição. Quem não tivesse fundos para a reconstrução, era obrigado a vender a propriedade ou o seu local.

Em menos de um ano, a cidade foi limpa de detritos,para se ter uma cidade nova e perfeitamente ordenada,. O rei encomendou a construção de grandes praças, retilíneas, grandes avenidas e ruas - Alargar - as nova divisa de Lisboa.

A Baixa Pombalina teve dos primeiros edifícios construidos na Europa com proteção anti-sísmica. Para os esgotos, o Marquês ordenou que tivessem uma dimensão onde um homem pudesse a andar a a cavalo dentro deles. Quando lhe criticaram a largura das ruas, ele constestou : "Ainda um dia as vão achar estreitas". 

Eram feitos pequenos modelos de madeira construídas para teste, e os terramotos eram simulados pelo marchar de tropas à sua volta. A Baixa de Lisboa, hoje conhecida como a Baixa Pombalina, é uma das famosas atracções da cidade. Seções de outras cidades portuguesas, como a Vila Real de Santo António no Algarve, também foram reconstruídas de acordo com princípios pombalinos.

Segundo Suzanne Chantal, o embaixador de Espanha morreu esmagado pelo portal do palácio da embaixada de Espanha quando esta se desmoronou e ele pretendia fugir para a rua. Conta também que o embaixador de França que no edifício da sua embaixada não sofreu nenhum dano com o terramoto,  nem uma cerâmica partida, entretinha mais tarde as damas na corte de Paris, a descrever de forma jocosa a morte do embaixador de Espanha. Também uma freira que escapou incólume do derrube do seu convento, não quis sair do local. porque atribuía a um milagre o ter escapado com vida e sem nenhum ferimento. 

O Convento de Odivelas na 1ª metade do século XVIII era um vasto e rico convento que incluía para alem da igreja, dois claustros, acomodações para as cerca de 300 freiras, para as recolhidas e para as criadas. Existia ainda toda uma série de dependências onde as freiras se dedicavam à música, doçaria e bordados. Também em Odivelas e nomeadamente no Mosteiro de S. Dinis o terramoto foi sentido e causou estragos.

A nível arquitectónico, a igreja, de traça gótica, apresentava, como hoje, uma cabeceira com a capela-mor e duas colaterais que correspondiam a estrutura das naves - uma principal e duas laterais. A nave principal era mais extensa do que a igreja actual porque incluía a zona do coro. A norte e a ocidente estendia-se uma extensa área rural - a cerca, com a sua horta, pomar e todas as dependências necessárias ao trabalho agrícola. 

No corpo da igreja abateram as paredes laterais e uma grande parte da abóbada de pedra das três naves. Permaneceram de pé, como hoje se observa, a capela-mor e as duas capelas laterais. Resistiu também o portal lateral. Adossado à igreja, o Claustro Novo incluía a sala do capítulo, junto a qual se encontrava a escada que dava acesso ao piso superior. Neste situavam-se os dormitórios das freiras e também os aposentos da célebre madre Paula, a famosa amante de D, João V.

Não ruíram completamente mas ficaram muito danificados e impossíveis de habitar os dormitórios e as demais serventias do convento, e houve zonas que foram caindo nos dias posteriores ao terramoto, especialmente o resto das abóbadas. No chamado Claustro Novo (o mais antigo) ruíram duas alas - a nascente e a norte. Resistiu a casa do capítulo, embora a sua abóbada tenha caído.

Mosteiro de São Dinis - Convento de Odivelas
O desabamento da abóbada da igreja não provocou a morte de nenhuma freira - nem de conversas nem de recolhidas. O túmulo de D. Dinis ficou também bastante danificado: as pedras da abóbada que sobre ele tombaram destruíram praticamente a imagem de S. Luís (na cabeceira do tumulo) e mutilaram a cara e as mãos da estátua jacente do rei.

No entanto, informações da Memória Paroquial dão conta da morte de 32 pessoas desta freguesia, predominantemente mulheres, e de um religioso da Ordem de S. Bernardo que aqui se encontravam para assistir aos serviços religiosos, além de outras pessoas, não contabilizadas, de fora da freguesia.

O Livro de Óbitos de Odivelas faz referência a estas mortes, nos dados relativos ao dia 1 de Novembro. Trinta terão ocorrido imediatamente e as outras nos dias subsequentes. Do número total de mortos, só dez se conseguiram retirar do local para serem enterrados, tendo os outros ficado soterrados nas ruínas.

A reconstrução iniciou-se pela zona da Igreja e foi realizada num prazo relativamente curto, já que passados dois anos esta área estava concluída. A igreja fica então com a imagem que hoje se nos apresenta - uma nave única que por necessidades técnicas e funcionais se adapta a cabeceira gótica.

Também as alas nascente e norte do Claustro Novo foram reconstruídas com características arquitectónicas diferentes das originais, apresentando uma construção mais ao gosto neoclássico que contrasta com as alas ocidental e sul de trava gótica. Permanece ainda visível o arranque dos arcos que, partindo da cabeceira, faziam a articulação com as naves.

Impossibilitadas de viver no mosteiro arruinado e com zonas em risco de desabar, parte das freiras procura refúgio na cerca do convento e outra parte resolve sair da clausura, (como fizeram freiras de muitos outros conventos) vivendo em casas fora dos limites dos mosteiros. Esta última atitude é alvo de um decreto de 9 de Janeiro de 1756, obrigando todas as freiras novamente a clausura e sem poderem voltar livremente para casa depois dos serviços religiosos como tinham feito até então. Durante este tempo, os actos de culto eram celebrados na denominada casa do lagar do azeite. 

Na cerca, provavelmente na zona a ocidente do coro, construíram-se barracas de madeira onde viveram as freiras até que as obras de reconstrução do mosteiro terminassem e pudessem regressar em segurança, o que aconteceu em 1760. 

A Casa Pia, uma instituição fundada por D. Maria I (conhecida como "Maria, a Piedosa"), e organizado pela Intendente de polícia Pina Manique, em 1780, foi fundada depois da desordem social provocada pelo terramoto de 1755 em Lisboa.

Implicações Sociais

O Terramoto de Lisboa abalou muito mais que a cidade e os seus edifícios. Lisboa era a capital de um país católico, com grande tradição de edificação de conventos e igrejas e empenhado na evangelização das suas colónias. O facto de o terramoto ocorrer num dia santo e destruir várias igrejas importantes levantou muitas questões religiosas por toda a Europa. Para a mentalidade religiosa do século XVIII, seria uma manifestação da ira divina de difícil explicação.

Na política, o terramoto foi também devastador. O ministro Marquês do Pombal era o favorito do rei mas não do agrado da alta nobreza, que competia pelo poder e favores do monarca. Depois de 1 de Novembro, a eficácia da resposta do Marquês do Pombal (cujo título lhe é atribuído em 1770) garante-lhe um maior poder e influência perante o rei, que também aproveita para reforçar o seu poder e consolidar o Absolutismo.


                                 Alegoria do Terramoto de 1755 por João Glama Strobërle. 

Isto leva a um descontentamento da aristocracia que iria culminar na tentativa de regicídio e na subsequente eliminação dos Távoras. Para além do agravamento das tensões políticas em Portugal, a destruição da cidade de Lisboa frustrou muitas das ambições coloniais do Império Português de então.

Os Jesuitas também ajudaram nas maquinações contra o Marquês de Pombal, e no Brasil já constituíam um Estado dentro dum Estado. Em Lisboa o padre Jesuita Malagrida, que tinha sido confessor de D. João V, assitido aos seus últimos momentos e portanto considerava-se como protegido pelo seu prestígio, escreveu e distribuiu panfletos ("Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto" (1756), onde se dizia que o terramoto tinha sido castigo de Deus, e que se não contribuíssem generosamente para os cofres religiosos, Deus voltava a castigá-los.

As várias réplicas do sismo que continuavam a sentir-se, mais de 250 durante 5 ou 6 meses, mantinham o povo assustado e temeroso. Malagrida teve até o "atrevimento" de ir entregar um desses panfletos à casa de Pombal na rua do século em Lisboa, uma zona que não tinha sido devastada pelo sismo. O Marquês já tinha explicado ao povo que o sismo tinha sido um fenómeno natural, que não tinha nada com o religioso e que se tinha sentido desde o norte da Europa até às costas do continente americano. Portanto Pombal achou que o panfleto do padre era um desafio à autoridade do Estado.

Mas Malagrida que tinha sido desterrado para Setúbal e os jesuitas insistiram nas suas insinuações. O  Marquês perdeu a paciência, e anos mais tarde, em 1781 o padre foi acusado de herege, condenado à morte pela Inquisição, garrotado e acabou na fogueira. Os Jesuitas foram expulsos de Portugal, de Espanha e de França, e o Papa  Clemente XIV através da bula "Dominus ac Redemptor" acabou por extinguir a Ordem dos Jesuítas, e todos os seus bens em Portugal passaram ao Estado. O actual Hospital de São José, era um Colégio Jesuíta e passou a substituir o Hospital de Todos os Santos que ardeu no incêndio devido ao Terramoto. 

O terramoto e a Filosofia Iluminista
O ano de 1755 insere-se numa era fulcral de uma grande transformação social: a Revolução Industrial, o Iluminismo, o Capitalismo lançam as bases de uma sociedade moderna em alguns países da Europa Ocidental. O terramoto influenciou de forma determinante muitos pensadores europeus do Iluminismo. Foram muitos os filósofos que fizeram menção ou aludiram ao terramoto nos seus escritos, dos quais se destaca Voltaire, no seu Candide e no Poème sur le désastre de Lisbonne ("Poema sobre o desastre de Lisboa"). 
Voltaire
A arbitrariedade da sobrevivência foi, provavelmente, o que mais marcou o autor, que satirizou a ideia, defendida por autores como Gottfried Wilhelm Leibniz e Alexander Pope, de que "este é o melhor dos mundos possíveis"; como escreveu Theodor Adorno, o terramoto de Lisboa foi suficiente para Voltaire refutar a teodiceia de Leibniz" (Negative Dialectics, 361). 
Mais tarde, no século XX, também citando Adorno, o terramoto passou a ser comparado aoHolocausto - uma catástrofe de tais dimensões que só poderia ter um impacto profundo e transformador na cultura e filosofia europeias. Esta interpretação de Theodor Adorno serve de ilustração à sua interpretação da história, que é bastante crítica da sociedade
O conceito do sublime, embora já tivesse sido formulado antes de 1755, foi desenvolvido na Filosofia e elevado a tema de maior importância por Immanuel Kant, em parte como resultado das suas tentativas para compreender a enormidade do terramoto de Lisboa e dotsunami. Kant publicou três textos distintos sobre o terramoto. O jovem Kant, fascinado com o fenómeno, reuniu toda a informação que conseguiu sobre o desastre, através de notícias impressas, servindo-se desses dados para formular uma teoria relacionada com a origem dos sismos. 

Immanuel Kant
A teoria de Kant, que envolvia o deslocamento de enormes cavernassubterrâneas insufladas por gases a alta temperatura, foi, ainda que mais tarde se mostrasse falsa, uma das primeiras tentativas sistematizadas a tentar explicar os sismos através de causas naturais, em vez de causas sobrenaturais. De acordo com o filósofo marxista Walter Benjamin, o pequeno caderno de Kant sobre o assunto representa, provavelmente, o início da Geografia científica na Alemanha. 

O mesmo autor chega a afirmar: "E foi, certamente, o início da Sismologia" (frase essa que é mais controversa - talvez o início da Sismologia moderna tenha começado mesmo em Portugal com os estudos incentivados pelo Marquês de Pombal).

O pensador pós-moderno Werner Hamacher chega a defender a tese de que as consequências do terramoto se estenderam ao vocabulário da Filosofia, transtornando as metáforas da "fundamentação" e dos "fundamentos" das teorias filosóficas, mostrando como estes podem ser facilmente "abalados" pela incerteza: "Sob a impressão exercida pelo terramoto de Lisboa, que tocou a mentalidade europeia numa das suas épocas mais sensíveis, as metáforas da fundamentação ("ground" = chão, em inglês) e dos abalos perderam totalmente a sua inocência aparente; deixavam de ser meras figuras de estilo" (pág. 263). Hamacher defende mesmo que a certeza fundadora da filosofia de Descartes sofreu um considerável abalo após o terramoto.

História dos Terramotos de Lisboa

Infelizmente, os Terramotos não eram novidade na zona da cidade de Lisboa que é de grande instabilidade sísmica. A DGMEN menciona só para a Sé de Lisboa, destruições causadas por terramotos nos anos de : 1321 - 1337 - 1344 - 1347 - 1356 - 1531- 1755 e no sismo já muito recente de de 1969. Foram também notáveis os terramotos de 1724 e 1750.

Veja-se Dicionário de História de Portugal de Joel serrão.

O nascimento da SISMOLOGIA

A competência do ministro não se limitou à acção de reconstrução da cidade. O Marquês do Pombal ordenou um inquérito, enviado a todas as paróquias do país para apurar a ocorrência e efeitos do terramoto. O questionário incluía as seguintes questões:

Quanto tempo durou o terramoto?
Quantas réplicas se sentiram?
Que tipo de danos causou o terramoto?
Os animais tiveram comportamento estranho?
Que aconteceu nos poços?

As respostas estão ainda arquivadas na Torre do Tombo. Através das respostas do inquérito foi possível aos cientistas da actualidade recolherem dados fiáveis e reconstituírem o fenómeno numa perspectiva cientifica. O inquérito do Marquês do Pombal foi a primeira iniciativa de descrição objectiva no campo da sismologia, razão pela qual é considerado um precursor da ciência da sismologia.

As causas geológicas do terramoto e da actividade sísmica na região de Lisboa são ainda causa de debate científico, existindo indícios geológicos da ocorrência de grandes abalos sísmicos com uma periodicidade de aproximadamente 300 anos.

Lisboa encontra-se junto de uma falha tectónica, mas a grande maioria dos terramotos tão intensos como o sismo de 1755 só acontece nas zonas de fronteira entre placas. Alguns geólogos portugueses avançaram a ideia de que o sismo estaria relacionado com a zona de "subducção" do oceano Atlântico, entre as placas tectónicas euro-asiática e africana . Na imagem acima, gaiola pombalina, usada na construção dos novos edificios.

Sismos em Portugal

Portugal tem sido afetado por vários sismos de magnitude moderada a forte, que muitas vezes resultaram em danos importantes em várias cidades do país.

A maior parte dos sismos graves tiveram origem em zonas interplacas, cuja sismicidade pode considerar-se elevada, uma vez que Portugal está perto da fronteira entre a placa africana e a placa Euro-Asiática (podem ser sismos de magnitude elevada, têm origem no oceano e têm períodos de retorno de algumas centenas de anos – aponta-se para que sismos com a intensidade do de 1755 seja cerca de 250 anos). Os epicentros dos maiores sismos localizam-se perto do Banco de Gorringe, a Sudoeste do Cabo de São Vicente. Sismos de alguma importância em Portugal Continental:

216 b.C- Sismo que atingiu toda a Hispânia, na época da batalha de Canas.

382 – sismo seguido da submersão de ilhas ao largo do Cabo de São Vicente. 20 de Janeiro ou 26 de Janeiro de 382

1531- Um terramoto em Lisboa, matou 30.000 pessoas, cerca de 20% da sua população da época : 

"Guardando a ordem dos anos, direi do seguinte, de trinta um, no principio do qual ouve neste reino de Portugal muito trabalho, por aver nele peste e terremotos, com tremer a terra e caírem casas e edeficios, onde morreo muita jente ; e tal espanto e medo pôs que andávão as jentes espantadas e fora de si, que não ousávão a entrar, nem dormir em povoado, e saíão-se ao campo, onde dormião em choupanas e tendas que pera iso fazíão, e asaz foi isto mais em Lisboa e polo Tejo acima que em outra parte, e em especial em Vila Franca, Povos, Castanheira, Azambuja, até Santarém, e foi este terremoto a vinte de janeiro do ano de trinta um ; e, como Noso Senhor é misericordioso, ouve por bem sosegar o tempo."


Gravura do grande terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de1755, mostra o terceiro sismo mais forte registado no mundo, provável magnitude de 9.0.

Em 1 de Novembro de 1755 seguido de maremoto (Terramoto de 1755) – foi mais sentido no Algarve do que em Lisboa (pensa-se que a sua origem teve origem numa região e não num epicentro, a sua mais provável magnitude é de 9.0).

28 de Fevereiro de 1969 – epicentro no Banco de Gorringe, magnitude 7,3.
17 de Dezembro de 

2009 - epicentro a 100 km da ponta de Sagres, magnitude 6,0.

A sismicidade é moderada nos sismos de origem intraplaca, passando a baixa no Norte de Portugal (o que não implica que nestas zonas não possam ocorrer sismos com magnitudes significativas, mas o seu período de retorno é na ordem dos milhares ou dezenas de milhar de anos). 

Falhas intraplaca em Portugal Continental:

Vale Inferior do Tejo (VIT) – sismo com epicentro em Benavente(1909) e sismo de 1531.

Falha de Loulé – sismo de 1722 que foi ao largo de Tavira, logo não teve origem nesta falha geológica) e sismo de 1856.

Falha de Portimão – 1719.

Falha da Vilariça – é uma falha relativamente estável.

Vale submarino do Sado – deu origem a um dos maiores sismos em zonas intraplacas a nível global (1858).

Falha Nazaré-Pombal.
Outros – 60 a.C. seguido de maremoto (perto da Galiza).

O Arquipélago dos Açores também é bastante afectado pelos sismos (principalmente os grupos Central e Oriental), e por vezes esta actividade está associada à actividade vulcânica. Ainda que o arquipélago dos Açores esteja no limite de placas, esta sismicidade é causada por um hot spot ou pluma mantélica. A sismicidade não tem grande importância no arquipélago da Madeira.

A Baixa Pombalina - A reconstrução de Pombal

A baixa de Lisboa, também chamada Baixa Pombalina ou Lisboa Pombalina por ter sido edificada por ordem do Marquês de Pombal, na sequência doterramoto de 1755, cobrindo uma área de cerca de 23,5 hectares. Situa-se entre o Terreiro do Paço, junto ao rio Tejo, e o Rossio e a Praça da Figueira, e longitudinalmente entre o Cais do Sodré, o Chiado e o Carmo, de um lado, e aSé e a colina do Castelo de São Jorge, do outro.

A freguesia de São Nicolau ocupa a parte central da Baixa, sendo rodeada, no sentido dos ponteiros do relógio, pelas freguesias dos Mártires, Sacramento, Santa Justa, São Cristóvão e São Lourenço e Madalena.

Urbanismo

Rua Augusta

Baixa é formada por um conjunto de ruas rectas e perpendicularesorganizadas para ambos os lados de um eixo central constituído pela Rua Augusta. Os edifícios têm uma arquitectura semelhante, com rés-do-chão comerciais e andares superiores para habitação. 

As dimensões de vãos e pés-direitos eram uniformes, o que permitiu a construção mais rápida com recurso a elementos pré-fabricados, como é o caso das cantarias das janelas de dois únicos tipos — um para as fachadas das ruas principais e outro para as fachadas das ruas secundárias.

As fundações dos edifícios assentam sobre estacaria em pinho verde, cravada em terrenos de aluvião abaixo do nível freático, servindo de embasamento para os alicerces. Ao nível das lojas, as salas são abobadadas com tijoleira e rematadas por arcos de cantaria. 

Os andares superiores foram construídos com uma das particularidades notáveis das estruturas pombalinas, a designada gaiola pombalina, uma estrutura interior de madeira com travamento, projectada para distribuir as forças sísmicas.

É um dos primeiros exemplos de construção anti-ssísmica. Os modelos  arquitectónicos foram testados com a utilização de tropas em marcha para simular um terramoto. Para a prevenção e combate aos incêndios, todos os quarteirões tinham poços de água nos saguões e as paredes entre os edifícios eram mais altas que o telhado para prevenir a progressão do fogo (paredes corta-fogo).


Praça da Figueira - Local do antigo Hospital de Todos os Santos
A Baixa dispôs da primeira verdadeira rede de esgotos domésticos, dando para colectores subterrâneos sob as ruas. Foi apreciada como candidata portuguesa à lista de Património Mundial em 7 de Dezembro de 2004, declarando-a superior às áreas planeadas em Edimburgo, Turim eLondres; inclusivamente, a inscrição alega que os planos da reconstrução de Londres após o Grande Incêndio "não implementa princípios gerais" tais como os conseguidos na zona pombalina.


Arco do Triunfo na Rua Augusta
A parte central da Baixa corresponde à zona aplanada resultante do enchimento aluvionar do antigo esteiro do Tejo, onde desaguavam as (agora encanadas) ribeiras do Vale Pereiro e de Arroios. Ao enchimento aluvionar somou-se o aterro realizado com o entulho das ruínas e demolições da cidade pré-terramoto, elevando o nível médio da Baixa em mais de um metro.

No tempo dos romanos o esteiro era o centro de actividades portuárias, de salga de peixe e de produção de garum. As diferentes fases de evolução do esteiro e da ocupação da Baixa podem ser percebidas no Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros.


O Terramoto de 1531

Com um epicentro algures entre Azambuja e Vila Franca de Xira, no dia 26 de Janeiro de 1531, faz hoje 479 anos, um terramoto destruiu parcialmente Lisboa. Sismo que, segundo se julga, pouco terá ficado a dever ao de 1755. No entanto, a cidade não era tão grande, nem tão populosa, embora para a época, fosse considerada de enorme dimensão – teria cerca de 100 mil habitantes (contra os 275 mil de 1755).

As zonas da cidade que foram atingidas não terão também sido as mesmas. Como exemplo desta afirmação, o Hospital de Todos os Santos, no Rossio, não ficou significativamente danificado, vindo porém a desaparecer no sismo de 1755. Sabe-se também que, embora com menos danos registados, o Ribatejo e o Alentejo foram regiões duramente atingidas. Desde o dia 7 que se verificavam abalos, mas o mais grave foi o de 26 quando, ao princípio da madrugada, a terra tremeu por três vezes.

30 mil mortos

Não há registo de maremoto, tsunami ou grandes incêndios, como na catástrofe de 224 anos depois. Em todo o caso, o número de vítimas que a tradição consagra é o de 30 mil. Tendo em conta a população da cidade, foi igualmente uma tragédia de grandes dimensões.

Por outro lado, as fontes de informação disponíveis para estudar o terramoto de 1755, não são tão copiosas para o de 1531. Sabemos, no entanto, que houve danos muito consideráveis. Na principal rua de Lisboa, a Rua Nova, tombaram varandas e muitos dos edifícios abriram enormes fendas. Uma parte do palácio real, o Paço da Ribeira, sofreu grandes estragos. A Torre de Belém e o Mosteiro de Belém (Jerónimos) foram também duramente atingidos.

António de Castilho, filho do arquitecto João de Castilho, descreveu os estragos em Lisboa, particularmente no Rossio, onde caiu a Igreja de Nossa Senhora da Escada., uma parte do Paço dos Estaus (onde se acolhiam os altos dignitários estrangeiros), parte das naves do Convento de São Domingos (onde está hoje o Teatro de D. Maria II). Houve danos na Sé, no Convento do Carmo, na Igreja de São João da Praça e, como já, disse, numa ala do Paço da Ribeira.

De notar que o Bairro Alto, um dos primeiros bairros europeus a ser construído com planta em quadrícula, foi edificado para responder à destruição provocada pelo terramoto de 1531. Especulação sobre os terrenos, comprando quase de graça e vendendo depois por preço elevado, foi o negócio de um tal Duarte Belo (de que ainda existe memória numa Rua da Bica Duarte Belo, aquela que é percorrida pelo elevador da Bica).

Era um armador e negociante que possuía na Boavista (onde fica hoje a rua do mesmo nome) umas casas e um terreno no qual existia uma bica, designada pelos seus utentes como «Bica dos Olhos ». Em 1726, publicava-se em Lisboa no «Arquipégio Medicinal» um anúncio recomendando, como remédio infalível para terçolhos e outros males da vista, a lavagem dos olhos na «Bica do Duarte Belo ». Tinha de ser antes do Sol nascer, para garantir a cura.

O rei D.João III que estava no Paço de Benavente, teve ir para Alhos Vedros e depois para Azeitão, porque os seus aposentos de Benavente ficaram destruídos. Em Santarém, na Castanheira, em Vila Franca de Xira, na Azambuja, onde sacudidos pelo sismo os sinos tocaram sozinhos, no Lavradio, em Setúbal. Digamos que o terramoto de 1531 afectou toda a região de Lisboa e o vale do Tejo.

Os testemunhos, muito mais escassos do que os de 1755, existem, no entanto: Além do já citado António de Castilho, há uma carta de um anónimo castelhano ao marquês de Tarifa, Fradique Enríquez de Ribera, descrevendo as destruições em Lisboa, nomeadamente na Rua dos Fornos, onde ruíram numerosas casas e as da Rua Nova. Na carta, descrevia-se também o pavor da população lisboeta que dormia vestida para poder fugir ao primeiro sinal de novo sismo.

Em 1755, a par com as «explicações» tradicionais – castigo divino pelos desmandos humanos – surgiram abordagens diferentes, científicas umas (com os naturais limites da ciência contemporânea) e outras procurando explicar racionalmente o que sucedera. Em 1531, o estado dos conhecimentos sobre o mosaico multidisciplinar que permite compreender fenómenos naturais desta natureza, era mais do que incipiente.
Cálculo das ondas do Tsunami

No entanto, quando frades de Santarém relacionaram os danos verificados na cidade pela presença de judeus, ou melhor, de «cristãos novos», visto que os judeus haviam sido expulsos no reinado de D. Manuel, Gil Vicente combateu esta tentativa de culpabilizar os hebreus, numa carta que leu perante os próprios frades, atacou as prédicas dos clérigos que aterrorizavam os fiéis anunciando-lhes que os cataclismos eram resultado da ira divina contra os pecados dos homens.

Com o mesmo esclarecedor objectivo, escreveu uma carta a D. João III condenando a perseguição aos judeus. Curioso o facto de, em 1755, uma das tais «explicações» encontradas para o sismo, tenha sido a das perseguições feitas aos judeus, a par com hábitos debochados importados de França e de Itália e com a proibição de os crentes lerem a Bíblia.

Como ficou Lisboa depois deste terramoto, sabêmo-lo cruzando os dados que nos proporcionam as obras de Cristóvão Rodrigues de Oliveira, «Lisboa em 1551» («Em que brevemente se contêm algumas coisas assim eclesiásticas como seculares que há na cidade de Lisboa», «Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552», de João Brandão (de Buarcos) e na «Descrição da Cidade de Lisboa», de Damião de Góis. 

Uma gravura de Georgius Braun Agrippinensis, pertencente ao volume I de «Civitates Orbis Terrarum», publicada em 1593, permite compreender melhor aqueles livros, todos eles publicados em edições recentes prefaciadas e anotadas por José da Felicidade Alves. Um livro de António Borges Coelho, «Ruas e Gentes na Lisboa Quinhentista», muito ilustrado, mostra também a cidade entre os terramotos de 1531 e 1755.

MAGNITUDE dos Terramotos

Magnitude é uma medida quantitativa do tamanho do terremoto. Ela está relacionada com a energia sísmica liberada no foco e também com a amplitude das ondas registradas pelos sismógrafos.

Para cobrir todos os tamanhos de terremotos, desde os microtremores de magnitude negativas até os grandes terremotos com magnitudes superiores a 8.0, foi idealizada uma escala logarítmica, sem limites. No entanto, a própria natureza impõem um limite superior a esta escala já que ela está condicionada ao próprio limite de resistência das rochas da crosta terrestre.

Magnitude e energia podem ser relacionadas pela fórmula descrita por Gutenberg e Richter em 1935:

log E = 11,8 + 1,5M

onde:

E= energia liberada em erg;
M=magnitude do terremoto.

O erg é a unidade de energia ou de trabalho no sistema de unidades centímetro-grama-segundo (CGS), símbolo "erg". Etimologicamente, sua origem vem do Grego ergon que significa trabalho. O impacto gerado a partir da colisão de um pequeno mosquito com uma parede é aproximadamente 1 erg. O erg é uma unidade bastante pequena, equivalente a 1grama·centímetro/segundo. Assim, é igual a 1 × 10−7 joule ou 0.1 µJ.

1 erg = 5,0345 ×1015 cm-1

1 erg = 10−7 Joule = 100 nJoule

1 erg = 624.15 GeV = 6.2415 ×E11 eV

De acordo com esta fórmula, um sismo com M=9 como o Lisboa, libertaria uma energia de 1,995E25 ergs ou 1,995E18 joules ou 554E9 Kw/h ! Cerca de 22.170 vezes a potência da bomba atómica de Hiroshima (22Kilotons) ! Uma energia equivalente a uma bomba de cerca de 500 MegaTons !

A maior bomba que foi deflagrada até hoje, num teste, foi a TsarBomb na ex-URSS de 50 Megatons.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Baixa Pombalina



A Baixa Pombalina

A baixa de Lisboa, também chamada Baixa Pombalina ou Lisboa Pombalina por ter sido edificada por ordem do Marquês de Pombal, na sequência doterramoto de 1755, cobrindo uma área de cerca de 23,5 hectares. Situa-se entre o Terreiro do Paço, junto ao rio Tejo, e o Rossio e a Praça da Figueira, e longitudinalmente entre o Cais do Sodré, o Chiado e o Carmo, de um lado, e aSé e a colina do Castelo de São Jorge, do outro.

A freguesia de São Nicolau ocupa a parte central da Baixa, sendo rodeada, no sentido dos ponteiros do relógio, pelas freguesias dos Mártires, Sacramento,Santa Justa, São Cristóvão e São Lourenço e Madalena.

Urbanismo

Rua Augusta

Baixa é formada por um conjunto de ruas rectas e perpendicularesorganizadas para ambos os lados de um eixo central constituído pela Rua Augusta. Os edifícios têm uma arquitectura semelhante, com rés-do-chão comerciais e andares superiores para habitação. 

As dimensões de vãos e pés-direitos eram uniformes, o que permitiu a construção mais rápida com recurso a elementos pré-fabricados, como é o caso das cantarias das janelas de dois únicos tipos — um para as fachadas das ruas principais e outro para as fachadas das ruas secundárias.

As fundações dos edifícios assentam sobre estacaria em pinho verde, cravada em terrenos de aluvião abaixo do nível freático, servindo de embasamento para os alicerces. Ao nível das lojas, as salas são abobadadas com tijoleira e rematadas por arcos de cantaria. 

Os andares superiores foram construídos com uma das particularidades notáveis das estruturas pombalinas, a designada gaiola pombalina, uma estrutura interior de madeira com travamento, projectada para distribuir as forças sísmicas.

É um dos primeiros exemplos de construção anti-ssísmica. Os modelos  arquitectónicos foram testados com a utilização de tropas em marcha para simular um terramoto. Para a prevenção e combate aos incêndios, todos os quarteirões tinham poços de água nos saguões e as paredes entre os edifícios eram mais altas que o telhado para prevenir a progressão do fogo (paredes corta-fogo).


Praça da Figueira _ Local do antigo Hospital de Todos os Santos
A Baixa dispôs da primeira verdadeira rede de esgotos domésticos, dando para colectores subterrâneos sob as ruas. Foi apreciada como candidata portuguesa à lista de Património Mundial em 7 de Dezembro de 2004, declarando-a superior às áreas planeadas em Edimburgo, Turim eLondres; inclusivamente, a inscrição alega que os planos da reconstrução de Londres após o Grande Incêndio "não implementa princípios gerais" tais como os conseguidos na zona pombalina.


Arco do Triunfo na Rua Augusta
A parte central da Baixa corresponde à zona aplanada resultante do enchimento aluvionar do antigo esteiro do Tejo, onde desaguavam as (agora encanadas) ribeiras do Vale Pereiro e de Arroios. Ao enchimento aluvionar somou-se o aterro realizado com o entulho das ruínas e demolições da cidade pré-terramoto, elevando o nível médio da Baixa em mais de um metro.

No tempo dos romanos o esteiro era o centro de actividades portuárias, de salga de peixe e de produção de garum. As diferentes fases de evolução do esteiro e da ocupação da Baixa podem ser percebidas no Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros.




A família real escapou ilesa da catástrofe. O  rei D. José I e a corte tinham deixado a cidade, depois de assistir à missa ao nascer do sol , cumprindo o desejo de uma das filhas do rei para passar o feriado longe de Lisboa. Depois da catástrofe, D. José I ficou com medo de viver dentro de paredes , o tribunal foi acomodado num enorme complexo de tendas e pavilhões nas colinas da Ajuda, nos arredores de Lisboa. 

A claustrofobia do rei nunca diminuiu , e só depois da morte de Jose que a sua filha Maria I de começou a construir o Palácio Real da Ajuda , que ainda está no local do antigo acampamento de tendas . Tal como o rei, o primeiro-ministro Sebastião de Melo ( Marquês de Pombal ) sobreviveu ao terremoto. Quando lhe perguntaram sobre o que se tinha de fazer, Pombal teria respondido " Enterrar os mortos e curar os vivos " e começou a organizar ajuda e reabilitação . 

Brigadas de bombeiros foram enviadas para apagar os grandes incêndios, e equipas de presos e cidadãos comuns foram obrigados a remover os milhares de cadáveres antes de propagação de doença.  Ao contrário do costume, mas com a autorização do Patriarca de Lisboa, muitos corpos foram carregados em barcaças e deitados ao mar para além da foz do rio Tejo. Quando lhe perguntaram como fazer com os pedaços dos corpos despedaçados e que iam ser lançados ao mar, o Marquês respondeu : "Deus lá no Céu, saberá a que corpo pertencem". 

Para impedir a desordem na cidade em ruínas , os regimentos do exército Português foram chamados à pressa das unidades espalhadas pelo  país, impedindo os habitantes que não tinham qualquer tipo de ferimentos de fugir, e foram obrigados a trabalhar na limpeza e reconstrução da cidade. Para evitar e punir os roubos e o saqueio dos bens das habitações destruídas, criou equipas de três  funcionários, um juiz, um padre e um carrasco, e quem fosse apanhado a roubar ou a saquear, era ali mesmo julgado e pendurado nas muitas forcas que foram montadas para o efeito.

O rei e o primeiro-ministro tomaram imediatamente medidas para reconstruir a cidade . Em 4 de dezembro de 1755 , pouco mais de um mês após o terramoto, Manuel da Maia , engenheiro-chefe do reino , apresentou os seus planos para a reconstrução de Lisboa. Maia apresentou cinco opções de para a construção de uma cidade completamente nova .

O primeiro plano era reconstruir a cidade antiga , utilizando materiais reciclados , que era a opção mais barata .

O segundo e terceiro planos reconstruir na forma antiga, mas alargar as ruas,

A quarta opção e a mais corajosa era a de arrasar toda a baixa de Lisboa, e reconstruir,  impondo novas regras de construção. O ministro e o Rei escolheram a quarta solução.

Quem tinha já construido fora deste ordenamento, foi obrigado a demolir, pois caso contrário seria demolido pelo estado e os proprietários teriam que pagar essa demolição. Quem não tivesse fundos para a reconstrução, era obrigado a vender a propriedade ou o seu local.

Em menos de um ano, a cidade foi limpa de detritos.para ter uma cidade nova e perfeitamente ordenada, o rei encomendou a construção de grandes praças, retilíneas, grandes avenidas e ruas - Alargar - as nova divisa de Lisboa.

A Baixa Pombalina foi dos primeiros edifícios construidos na Europa com proteção anti-sísmica. Eram feitos pequenos modelos de madeira construídas para teste, e os terremotos eram simulados pelo marchar de tropas à sua volta. Cidade Baixa de Lisboa, hoje conhecida como a Baixa Pombalina (baixa de Lisboa), é uma das famosas atracções da cidade. Seções de outras cidades portuguesas, como a Vila Real de Santo António no Algarve, também foram reconstruídas de acordo com princípios pombalinos.

A Casa Pia, uma instituição fundada por D. Maria I (conhecida como "Maria, a Piedosa"), e organizado pela Intendente de polícia Pina Manique, em 1780, foi fundada depois da desordem social provocada pelo terramoto de 1755 em Lisboa.


quinta-feira, 30 de maio de 2013

Batalhas da Restauração



Batalhas da Restauração

Golpe palaciano que pôs fim a 60 anos de governo filipino em Portugal e colocou no trono o duque de Bragança, D. João IV. A 1 de Dezembro de 1640, um grupo de conjurados, membros da nobreza portuguesa, atacou o paço da Ribeira, prendendo a vice-rainha, a duquesa de Mântua, e matando o secretário de estado, Miguel de Vasconcelos. Poucos meses depois (Janeiro de 1641), era jurado o novo rei, repondo-se a legitimidade dinástica anterior a 1580.

Duq. de Mântua
A conjura dava tradução política ao divórcio que se vinha gerando entre os interesses portugueses e os espanhóis, cuja aproximação, por sua vez, estivera na origem da união dinástica de 1580. Sobretudo a partir de 1620, operara-se uma viragem na conjuntura económica e social.

 À crise comercial e militar no império português do oriente, com sucessivas perdas para os ingleses e holandeses, e à recessão e instabilidade no comércio do Atlântico (África e Brasil), veio juntar-se a agitação social no reino, sobretudo em Évora e no Algarve (1637-38). Como em outras regiões da Península Ibérica, estas rebeliões eram motivadas pela pobreza e pela fome nos campos, agravadas por constantes aumentos de impostos sobre os bens de primeira necessidade

A multiplicação dos sinais de revolta anti-castelhana nas classes populares foi acompanhada de uma insatisfação crescente ao nível das elites. A crise no império afectava os seus rendimentos e esfumara-se o desejo, alimentado durante décadas, de transferir para Lisboa a capital da corte ibérica. A partir de 1621, o governo do conde-duque de Olivares, o ministro todo-poderoso de Filipe III, introduziu reformas de pendor centralista por toda a península, crescendo a vontade separatista em alguns círculos da aristocracia portuguesa, que acabaram por se unir em torno do duque de Bragança.

A Restauração foi acompanhada de uma abundante literatura de justificação, com um pendor nacionalista e legitimador da nova dinastia. Os soberanos espanhóis foram considerados usurpadores e desrespeitadores dos privilégios e costumes que tradicionalmente teriam vigorado na monarquia portuguesa. Foi essa especificidade que o novo rei jurou respeitar nas cortes. Não por acaso, porém, algumas das medidas filipinas mais criticadas, como a criação de novos impostos, foram confirmadas por D. João IV, a braços com novas necessidades financeiras e militares do estado.

Guerras da Restauração Conflito militar travado entre os dois reinos ibéricos desde a restauração da independência nacional, em 1 de Dezembro de 1640, e a assinatura do tratado de paz, no ano de 1668.

D. João IV
Neste contexto, assistiu-se à criação de um Conselho de Guerra permanente e da Junta Privativa da Defesa das Fronteiras. Todavia, a primeira fase do conflito, que coincidiu, grosso modo, com o reinado de D. João IV (1640-1656), não foi caracterizada por intensos combates. Contribuíram para tal as circunstâncias de a Espanha estar envolvida na Guerra dos Trinta Anos e de Portugal estar carenciado de meios técnicos e humanos. Ainda assim, as hostes portuguesas registaram alguns sucessos moralizadores, por exemplo, na batalha do Montijo(1644).

A intensidade da luta armada aumentou, consideravelmente, na década de 1660, mercê do fim da Guerra dos Trinta Anos (1659). Sucedia que, nessa época, o exército português estava melhor preparado e equipado, em resultado de apoios franceses e alemães e da contratação de experientes mercenários estrangeiros.

Nestas condições, Portugal conseguiu virar o curso da guerra a seu favor, situação que se consolidaria após a batalha de Montes Claros (1665). Nesse mesmo ano morreu Filipe IV, o último rei da dinastia que governou Portugal de 1580 a 1640, pelo que ficou eliminado mais um obstáculo ao entendimento definitivo. Firmada a paz em 1668, a Espanha reconheceu a independência de Portugal, cujas fronteiras se mantiveram intactas, apenas se verificando, no plano ultramarino, a perda da praça marroquina de Ceuta.

Batalha do Montijo 

Primeiro confronto militar da Guerra da Restauração da independência, que teve lugar a 26 de Maio de 1644, numa veiga do Guadiana, a nordeste de Badajoz. O exército português, composto por cerca de 7000 homens, comandados por Matias de Albuquerque, tinha tomado de assalto a vila fronteiriça de Montijo. De regresso a Portugal, na margem esquerda do rio Guadiana, esperava-o um contingente militar espanhol de 8500 homens, comandados pelo barão de Mollingen. Depois de uma primeira fase desfavorável às forças portuguesas e perante o descuido dos espanhóis, distraídos na pilhagem, Matias de Albuquerque ordenou um contra-ataque que acabou por dar a vitória aos portugueses.

Cercos de Elvas 

Os mais importantes cercos feitos à cidade de Elvas datam das guerras da restauração. Assim, em finais de 1644, o exército espanhol, comandado pelo marquês de Torrecusa, atravessou o rio Guadiana. Reconhecida a importância de Elvas, tentou tomar a cidade, acabando por retirar nesse mesmo ano, face à resistência portuguesa. 

Em 1658, um novo exército espanhol, desta feita sob o comando de D. Luís de Haro e equipado para manter um cerco prolongado, atacou a cidade. EmJaneiro de 1659, um exército de socorro veio ao encontro dos sitiados, terminando o cerco com a batalha das linhas de Elvas, de que os portugueses saíram vitoriosos.

Batalha de Castelo Rodrigo 

Confronto militar integrado na Guerra da Restauração, durante a regência de D. Afonso VI, que teve lugar em1664 na vila fronteiriça de Castelo Rodrigo, entre os vales do Côa e Ribeira de Aguiar, no distrito da Guarda, contra a ofensiva espanhola. 

Monumento à Batalha de Fig. Castelo Rodrigo

 O exército português era comandado por Pedro Jacques de Magalhães e composto por 2500 homens contra os 5000 espanhóis comandados pelo duque de Ossuna. Os portugueses venceram a batalha obrigando os castelhanos a bater em retirada.

Batalha de Montes Claros 

Confronto militar travado em 17 de Junho de 1665, numa planície entre as serras da Vigária e de Ossa, na freguesia de Rio de Moinhos (Borba), opondo tropas portuguesas e espanholas.

Este recontro surge integrado na Guerra da Restauração da independência nacional relativamente ao domínio dos Filipes de Espanha. As tropas portuguesas eram constituídas por 15 000 infantes e 5000 cavaleiros, sob o comando do conde de Schomberg (militar profissional de origem alemã que introduziu em Portugal importantes alterações de táctica militar), contra um contingente militar inimigo composto por 25 000 homens comandados pelos marquês de Caracena. 

Os espanhóis foram derrotados, sofrendo pesadas baixas, pelo que esta foi a última batalha da Guerra da Restauração, sendo a paz restabelecida em 1668.

Batalha do Ameixial 

Schomberg
Batalha travada a 8 de Junho de 1663, no contexto da Guerra da Restauração, entre portugueses comandados por D. Sancho Manuel (conde de Vila Flor) e pelo conde de Schomberg, e espanhóis sob o comando de D. João de Áustria, filho ilegítimo de Filipe IV. 

 As tropas espanholas saíram de Badajoz, invadiram Portugal, tomando Évora e Alcácer do Sal, e aproximando-se de Lisboa. 

Os portugueses derrubaram as forças espanholas nos campos de Ameixial, a 5 km de Estremoz, razão pela qual os espanhóis chamam a este confronto batalha de Estremoz.

sábado, 25 de maio de 2013

As Invasões Francesas - A Guerra Peninsular


Invasões Francesas - Ibéria, o "Vietnam" de Napoleão!

Incursões militares de tropas francesas sobre o território português levadas a cabo, nos anos de 1807-1808, 1809 e 1810-1811, sob a direcção, respectivamente, dos marechais Junot, Soult e Massena.

A razão imediata das invasões relacionou-se com a recusa portuguesa em aderir ao Bloqueio Continental decretado por Napoleão em relação à Inglaterra, no ano de 1806. Para agravar a situação, em Agosto do ano seguinte, França apresentou um ultimato ao governo português: ou este declarava guerra à Inglaterra até dia 1 de Setembro ou as fronteiras nacionais seriam cruzadas pelos soldados franceses. Na medida em que a aliança anglo-lusa não foi quebrada, a ameaça foi cumprida em meados de Novembro.

O poderio militar gaulês aconselhou a que não fosse oferecida oposição de maior aos invasores. No entanto, a família real e a corte acharam por bem embarcar e instalar-se no Brasil de modo a evitar o seu aprisionamento e a manter a independência nacional.


Batalha nas Invasões Francesas

A resistência armada à ocupação ganhou fulgor após a chegada de um contingente militar inglês liderado por Sir Artur Wellesley (doravante conhecido como Lord Wellington), que infligiu duas derrotas aos inimigos nas batalhas de Roliça e Vimeiro. A conjugação de esforços entre portugueses e ingleses permitiu também obrigar Soult e os seus homens a abandonarem o País, em 1809.


Nesse mesmo ano começaram os preparativos para suster a nova invasão que se adivinhava. Neste contexto, foram levantadas à volta de Lisboa três linhas de defesa fortificadas (as linhas de Torres).



Ainda antes de as atingirem, em 1810, os franceses perderam a batalha do Buçaco. O exército napoleónico foi depois obrigado a suster o seu avanço ante as linhas de Torres, acabando por se retirar na Primavera de 1811

Portugal sofreu grandes danos materiais causados pela luta armada e pelos saques franceses, bem como pela táctica de terra queimada que ingleses e portugueses recorreram com o objectivo de evitar maiores proveitos aos invasores. 

No plano económico, a agricultura e, em particular, a criação de gado ressentiram-se a ponto de a subsistência alimentar não ter sido assegurada nos anos que seguiram a 1811.

Do mesmo modo, diminui a produção industrial, acarretando a redução de remessas para as colónias. 


Por outro lado, a impossibilidade de continuar a fazer-se a redistribuição dos produtos brasileiros através do território português obrigou, em 1808, à abertura dos portos brasileiros à navegação estrangeira.

Junot


Junot

General francês, natural de Bussy-le-Grand (Borgonha). Foi ajudante-de-campo de Napoleão, servindo no posto de sargento (1793), e tendo ascendido a general em 1801. Recebeu o título de duque de Abrantes em 1804, foi embaixador em Lisboa (1805) e governador de Paris (1807).

Comandou a primeira invasão francesa a Portugal (1807-08) à frente de um contingente militar composto por 25 000 homens divididos em três divisões de infantaria e uma de cavalaria. Partiu de Baiona e entrou em Portugal pela Beira Interior, com a missão de alcançar Lisboa no mais curto espaço de tempo possível.

Passando por Idanha, Castelo Branco e Vale do Tejo (Abrantes, Golegã e Santarém), as tropas francesas chegaram a Lisboa a 30 de Novembro de 1807. Era seu objectivo deter a família real e a corte, o que não chegou a acontecer porque D. João tinha já embarcado e saía da barra de Cascais escoltado por uma esquadra inglesa, no instante da sua chegada a São Julião.

Com um exército reduzido a menos de metade pela ocorrência de 15 mil baixas, Junot lançou uma proclamação em que se apresentava Portugal sob a protecção francesa e sob o domínio de Bonaparte.As reacções de protesto patriótico por parte dos portugueses, organizados em milícias populares com grande expansão no norte do país, conduziram a vários confrontos que contavam com a colaboração e o apoio militar dos ingleses a favor de Portugal. Junot saiu derrotado na batalha da Roliça (17 de Agosto de 1808) e na Batalha do Vimeiro (21 de Agosto de 1808), o que levou à sua retirada apressada do território português.

Regressou em 1810, integrado no exército de Massena, durante a terceira invasão francesa.Após o fracasso das tropas francesas na Guerra Peninsular, comandou, em 1812, um corpo de exército na Rússia. A sua incapacidade fez com que Napoleão o destacasse para o governo das províncias ilíricas. As perturbações nervosas acumuladas pelo seu insucesso conduziram-no ao suicídio em 1813. Foi casado com Laura Permon, duquesa de Abrantes.


Batalha do Vimeiro

Batalha travada em Agosto de 1808 entre as tropas anglo-lusas, chefiadas por Wellesley, e as forças invasoras francesas, comandadas por Junot. Ao fim de mais de seis meses de ocupação napoleónica, a Inglaterra decidira-se a auxiliar Portugal, cuja corte emigrara para o Brasil. Em dois combates sucessivos, em Roliça e Vimeiro (Estremadura), Junot era rechaçado, não tardando em pedir um armistício.

Linhas de Torres Vedras

Massena

Sistema defensivo de fortificações mandado construir em 1809 por Wellesley, comandante do exército anglo-luso, para defender Lisboa das tropas napoleónicas. Localizadas na baixa Estremadura, pretendiam barrar todos os acessos à capital, num eixo que ia do Tejo à costa atlântica.

Concluídas apenas em 1812, subdividiam-se em duas linhas mais avançadas e uma mais recuada, todas pontuadas por fortes estrategicamente situados (como os de São Julião da Barra, Sobral, Torres Vedras, Mafra, Montachique, Bucelas ou Vialonga).


Após a derrota na batalha do Buçaco (1810), a terceira invasão francesa, liderada por Massena, não conseguiu transpor as fortificações das linhas de Torres, confirmando-se assim a utilidade das obras levadas a cabo pelos engenheiros ingleses. .



A Guerra Peninsular


A Guerra Peninsular, também conhecida em Portugal como as Invasões Francesas e em Espanha como Guerra da Independência Espanhola, ocorreu no início do século XIX, entre 1807 e 1814, na península Ibérica, e insere-se nas chamadas Guerras Napoleónicas. A princípio, envolveu Espanha e França, de um lado, Portugal e Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, do outro. Porém, a guerra teve repercussões além da Europa, influindo na independência das colónias da América Latina.

Antecedentes

A Guerra Peninsular é uma sequência de eventos envolvendo a Península Ibérica que remontam à Campanha do Rossilhão (1793–95), quando tropas de Portugal reforçam as da Espanha, integrando a primeira aliança liderada pela Inglaterra contra a França revolucionária.

Invasões Francesas
A partir da ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder (1799), a Espanha alia-se à França para, por meio da invasão e da divisão de Portugal entre estes, atingir indirectamente os interesses comerciais do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda (Guerra das Laranjas, 1801).

Em julho de 1807, com os acordos secretos de Tilsit, vai no entanto abrir-se um novo capítulo na guerra europeia. Em agosto, enquanto Napoleão faz concentrar tropas em Baiona para invadir Portugal, os representantes da França e de Espanha em Lisboa entregam ao príncipe regente de Portugal, dom João, os seus “pedidos”: Portugal teria que se juntar no bloqueio continental que a França decretara contra a Inglaterra, fechando os seus portos à navegação britânica; declarar a guerra aos ingleses; sequestrar os seus bens em Portugal, e prender todos os ingleses residentes.

Monumento aos heróis da Guerra Peninsular em Lisboa.

Em 5 de setembro de 1807, o general Jean-Andoche Junot está já em Baiona, a cuidar dos últimos preparativos das tropas que irão invadir Portugal, antes mesmo de obter uma resposta definitiva do príncipe regente português, e antes de Napoleão assinar o Tratado de Fontainebleau com a Espanha (27 de outubro de 1807), definindo uma repartição do território português em três novas unidades políticas:

Lusitânia Setentrional – território entre o rio Minho e o rio Douro, um principado a ser governado pelo soberano do extinto reino da Etrúria (então Maria Luísa, filha de Carlos IV de Espanha);

Algarves – região compreendida ao sul do Tejo, a ser governada por Manuel de Godoy, o Príncipe da Paz, primeiro-ministro de Carlos IV, com o título de rei; e

Resto de Portugal – território circunscrito entre o rio Douro e o rio Tejo, região estratégica pelos seus portos, a ser administrada directamente pela França até à paz geral.

Tornando aparente à Espanha querer cumprir o Tratado de Fontainebleau, Napoleão ordena a invasão de Portugal, iniciando o que se denomina por Guerra Peninsular (1807–1814), cuja primeira parte é conhecida como invasões francesas a Portugal.

A primeira invasão


Embarque para o Brasil do príncipe regente de Portugal, D. João VI, e de toda a família real, no porto de Belém, em 27 de novembro de 1807.Gravura feita por Francisco Bartolozzi a partir de óleo de Nicolas Delariva.

Na iminência da invasão, o príncipe regente, D. João, fizera já saber a Napoleão que iria cumprir as disposições do Bloqueio Continental e, em 30 de outubro, declarara mesmo guerra à Inglaterra, mandando prender, em novembro, os ingleses residentes em Portugal. 

A Convenção secreta entre Portugal e a Inglaterra, assinada no dia 22 de Outubro, estabelecia com segurança a manobra luso-britânica de pôr a salvo a família real e o governo português no Brasil.

Sob o comando do general Jean-Andoche Junot, as tropas francesas entraram na Espanha em 18 de outubro de 1807, cruzando o seu território em marcha acelerada em pleno inverno, e alcançando a fronteira portuguesa em 20 de novembro. Sem encontrar resistência militar, uma coluna de tropas invasoras atingiu Abrantes em 24 de Novembro. 

Faminto e desgastado pela marcha e pelo rigor da estação, o exército francês teve dificuldade para ultrapassar o rio Zêzere, entrando em Santarém em 28. Instalando-se no Cartaxo, parte no mesmo dia, rumo a Lisboa, onde entrou em 30, à frente de dois regimentos em muito mau-estado, ao receber a noticia da fuga família real. 

Um dia antes, a família real e a corte portuguesa haviam-se transferido para o Brasil a bordo de uma larga esquadra naval, protegida por naus britânicas, e levando consigo cerca de 15 mil pessoas, deixando o governo do território europeu de Portugal nas mãos de uma regência, com instruções para não "resistir" aos invasores. Ficava vazio de conteúdo o decreto de Napoleão publicado pelo jornal francês Le Moniteur de 30 de outubro, dando como banida a Casa de Bragança do trono de Portugal .

Napoleão
Ao chegar a Lisboa, Junot tomou medidas para a instalação das tropas que o precediam. No dia 2 de dezembro de 1807, entrou na cidade o general Laborde, com os efectivos reduzidos e extenuados, com muitos homens montados em burros, mal podendo estar de pé. Três semanas depois de chegar a Lisboa, Junot tinha ainda apenas um efectivo de 10 mil dos 28 mil soldados franceses que tinham invadido Portugal, distribuindo-os ao redor de Lisboa. 

A divisão espanhola de Solano, saindo de Badajoz, tomara entretanto Elvas e Campo Maior, indo estabelecer o seu quartel-general em Setúbal, ocupando também Alcácer do Sal e, no Algarve, Tavira e Lagos. A divisão do general Francisco Taranco y Llano, com cerca de 6 mil homens, entrou por Valença e foi garantir a tomada da cidade do Porto, onde já estava o general Juan Carrafa com 4 mil homens, vindos por Tomar e Coimbra. Iniciava-se o período do domínio francês de "El-Rei Junot".

Em sinónimo da estabilidade faz abrir o Teatro de São Carlos incumbindo o maestro/ compositor Marcos Portugal do seu funcionamento, o qual, apresenta no dia do aniversário de Napoleão uma revisão do seu ''Demofoonte''.

Entretanto, Napoleão envia mais tropas para o norte de Espanha que, a pretexto de apoiar as tropas de ocupação em Portugal, tomam as cidades de Pamplona, Barcelona, Figueras (Catalunha) e San Sebastian. O marechal Joaquim Murat, cunhado de Napoleão, atravessa então Bidassoa e marcha com 100 mil soldados sobre Madrid. Antes de Murat chegar a Madrid, uma rebelião em Aranjuez, em 19 de março de 1808, depõe o rei Carlos IV, afasta Manuel de Godoy, e coloca no trono espanhol o príncipe das Astúrias, com o nome de Fernando VII.

O rei Fernando VII recebe o marechal Murat como aliado, confiando ainda que Napoleão cumprirá o Tratado de Fontainebleau. Em Abril, Fernando VII é forçado a abdicar em Baiona e a reconhecer José Bonaparte como rei de Espanha. Além de Fernando VII, são colocados na prisão o seu antecessor, Carlos IV, a rainha e Manuel de Godoy. 

Perante a anulação da Casa Real Espanhola, ocorre o levantamento de 2 de maio da população de Madrid contra os franceses, levando Murat a ordenar o fuzilamento de milhares de espanhóis, que Francisco Goya, em 1814, veio a homenagear no quadro "Os fuzilamentos de 3 de Maio". Durante o mês de Maio e Junho, eclodem insurreições populares contra as tropas francesas de ocupação por toda a Espanha e Portugal  .

Fuzilamentos de 3 de Maio - Goya
Em 9 de maio de 1808, o príncipe regente de Portugal, no Brasil, declarava nulos todos os tratados de Portugal com a França, declarando guerra aos franceses e amizade ao seu antigo aliado, a Grã-Bretanha. No Porto, em 6 de junho, vai abrir-se um período de revoltas populares contra a ocupação francesa, em resultado das quais as populações de Chaves, Miranda, Torre de Moncorvo, Ruivães, Vila Real, entre outras, responderam imediatamente à chamada. Sob o comando do tenente-general Sepúlveda o movimento de Trás-os-Montes voltou ao Porto, onde foi nomeada a Junta Provisional do Supremo Governo do Reino (1808), sob o comando do bispo do Porto, D. António de Castro.

A notícia do levantamento do povo espanhol levou o general Solano a retirar com as suas tropas para Espanha. O general Quesnel, um francês que substituíra Tarrancos por morte deste, é preso pelas tropas espanholas de Balestra que, entretanto, recebera também ordem de regressar a Espanha.

Em Portugal, as tropas francesas sob o comando de Junot ficam reduzidas às concentrações numa área em volta de Lisboa, delimitada pelo Atlântico, o rio Tejo, e por uma linha que ia de Peniche até Abrantes. No resto do território, os franceses dispunham de forças em posições fortificadas em Setúbal, Almeida e Elvas. Fora dessa área e dessas localidades, os franceses deslocavam-se ainda com um certo à vontade, provocando baixas às forças portuguesas e às populações que se lhes opunham.

Porém a resistência portuguesa crescia dia-a-dia. Quando uma força francesa sob o comando do general Louis Henri Loison, sediada em Almeida, tentou marchar sobre o Porto, viu-se cercada por forças de guerrilha de camponeses rudimentarmente armados, mas muito aguerridos. Após três dias de combates, Loison é forçado a retroceder.

No sul do país, a tão esquecida revolta de Olhão teria mesmo tomado a dianteira nos combates corpo-a-corpo, no dia 16 de junho, tendo sido considerada pelo próprio príncipe regente como "o primeiro sinal para se restaurar a Monarquia" (ver Alvará Régio de 15 de Novembro de 1808), elevando o então lugar a Vila de Olhão da Restauração.

A Junta do Porto, sob o comando do bispo D. António de Castro, vai manter-se ao lado dos resistentes ao ocupante francês. No dia 24 de julho, depois de passar pela Corunha, desembarca no Porto o general Arthur Wellesley (mais tarde duque de Wellington), onde recebe algum apoio, mas sobretudo preciosas informações sobre a situação militar no conjunto do território português. 

No dia seguinte, Wellesley decide navegar até à entrada do Tejo para consultas com o almirante Charles Cotton, comandante naval britânico na área. O forte de Peniche estava ocupado por forças francesas e no Tejo estava por perto uma esquadra russa. Decidem fazer o desembarque das tropas britânicas na foz do Mondego.

No dia 1 de agosto, as tropas britânicas começaram a desembarcar perto da Figueira da Foz, marchando no dia 10 em direcção a Leiria onde se juntaram às forças portuguesas de Bernardino Freire, comandante do exército português em Montemor-o-Velho. No total seriam cerca de 20 mil homens; 14 mil britânicos e 6 mil portugueses. 

Do lado francês, havia inicialmente 30 mil homens, mas calculou-se que não haveria agora mais de 12 mil homens nos arredores da capital. Os restantes estariam distribuídos por Tomar, Abrantes, etc., a que havia que descontar o número de baixas provocados pelas guerrilhas populares e pelas deserções. Travaram-se, na sequência, a batalha de Roliça e a batalha do Vimeiro, vencidas pelos aliados Portugal/Reino Unido da Grã-Bretanha forçando à Convenção de Sintra.

A segunda invasão


Monumento à Guerra Peninsular, no Porto.


Enquanto em Portugal se lutava contra a ocupação francesa, Napoleão mantinha no trono espanhol o seu irmão José Bonaparte. Os Espanhóis, em revolta contra os usurpadores franceses, obtêm apoio das tropas britânicas estacionadas no norte de Portugal. 

Sob o comando de John Moore, os Britânicos passam a fronteira no início de 1809, para serem derrotados, na Corunha, pelo marechal Nicolas Jean de Dieu Soult. 

Obrigadas a retirar, deixaram a descoberto a fronteira com Portugal, permitindo a Soult invadir o país pela fronteira de Trás-os-Montes e Alto Douro (Chaves) em Março de 1809, vencendo a Batalha do Carvalho d'Este e avançando até à cidade do Porto, que ocuparam a 24 desse mês, fixando fronteira no rio Douro.

A 12 maio desse mesmo ano, tropas Luso-Britânicas sob o comando do General Arthur Wellesley e do comandante-em-chefe o Marechal William Carr Beresford, atravessaram o rio Douro e venceram a chamada batalha do Douro, reconquistando a cidade do Porto (29 de maio) e expulsando o invasor, que se retirou para a Galiza. Seguindo para o sul, as tropas de Wellesley travaram a batalha de Talavera em território espanhol e regressaram a Portugal.

É de salientar ainda a importância da escaramuça de Serém, Concelho do Vouga — região pantanosa do rio Vouga e do rio Marnel, actualmente pertencente ao Concelho de Águeda —, em que o capitão-mor do Vouga, José Pereira Simões, travou o avanço para o Sul do marechal Soult - cavalaria de Franceschi e a infantaria de Mermet - até à chegada do coronel Nicholas Trant e do Batalhão Académico e, posteriormente, do general Arthur Wellesley, com reforços. Como consequência, as hostes do marechal Soult não conseguiram atravessar o rio Vouga, perderam a escaramuça de Serém e foram obrigados a retirar-se para o Norte, tendo-se acantonado na cidade do Porto.

A terceira invasão

Uma terceira invasão francesa do território português teve início em 1810, sob o comando do marechal André Masséna. Penetrando pela região Nordeste de Portugal, conquistou a Praça-forte de Almeida (agosto), na fronteira, marchando em seguida sobre Lisboa. Interceptado pelas forças luso-britânicas, foi derrotado na batalha do Buçaco (27 de setembro). 

Batalha do Bussaco
Reagrupando as suas forças, retomou a marcha, flanqueando as tropas luso-britânicas e forçando-as a recuarem para defender a capital. Os franceses atingiram as Linhas de Torres a 14 de outubro, erguidas na previsão dessa eventualidade e onde as tropas luso-britânicas os aguardavam desde o dia 10, retirando-se, derrotados, ao final do dia seguinte.

A contra-ofensiva

A campanha dos exércitos britânico, português e espanhol, entre maio e agosto de 1813, culminou na batalha de Vitória, seguida um mês depois pela batalha dos Pirenéus. Em pouco mais de dois meses e depois de uma ofensiva de 600 quilómetros com mais de 100 mil homens das três nações em armas, o curso da história europeia foi modificado de forma decisiva. Seguiu-se uma série de batalhas em território francês até à vitória em Toulouse (10 de abril de 1814), que colocou fim à Guerra Peninsular.

Conclusão

O estudo das circunstâncias que envolvem a Guerra Peninsular são importantes pelos desdobramentos que encerram, debilitando as forças da França e consolidando a hegemonia inglesa que se afirmaria a partir de então. Ao eliminar a monarquia de Carlos IV na Europa, Napoleão abriu as portas que conduziram à independência da América espanhola (com importante apoio da Grã-Bretanha). O mesmo ocorreu ao permitir a saída de D. João VI para o Brasil, processo que criaria as pré-condições para a independência da América portuguesa. 

Ainda em 1808, ao aportar a Salvador, na Bahia, o príncipe regente assinou o Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, vindo a assinar, em 1810, os tratados que permitiram a hegemonia britânica nas relações comerciais entre ambos os países, abrindo as portas de um mercado em três continentes, com tarifas alfandegárias privilegiadas. 

Com fôlego renovado, sob o comando do mesmo Wellington, herói da Guerra Peninsular, a Grã-Bretanha derrotou Napoleão na batalha de Waterloo (1815), desfrutando de uma hegemonia mundial que conservaria até a Primeira Guerra Mundial (1914–18).

Por outro lado, embora com menor impacto, o governo de Portugal declararia guerra à França e à Espanha, ocupando a Guiana francesa (1809–15) e a Banda Oriental do rio da Prata, actual Uruguai (1810–28).

A crise económica e institucional em Portugal continental agravou-se com a permanência da corte portuguesa no Brasil, o que fortaleceu as ideias liberais no país, conduzindo à Revolução do Porto (1820) e forçando o retorno do soberano à Europa (1821). A tentativa de recolonização do Brasil levou à independência deste, no ano seguinte (1822). 

Enquanto franceses e ingleses continuaram com o seu desenvolvimento económico e industrial, Portugal viu o seu território transformado em campo de batalha, as cidades constantemente pilhadas pelos exércitos estrangeiros e a indústria estagnada.

Armas na Guerra Peninsular - O mosquete



O mosquete é uma das primeiras armas de fogo usadas pela infantaria entre os séculos XVI e XVIII. Trata-se de uma evolução do "arcabuz", semelhante a uma espingarda porém muito mais pesado, com o cano de até 1,5 metros sobre a culatra de madeira. Introduzida no século XVI, é a predecessora da espingarda moderna.

Esta arma de fogo portátil foi usada pela infantaria das potências européia, por um período, concomitante com a besta ou "balestra" até substituí-la integralmente.

De acordo com algumas fontes, a palavra teria origem no italiano, moschetto, que por sua vez viria de moschetta, uma pequena pedra disparada pela balista.

Moschetta, por sua vez, significa uma pequena mosca, o insecto.

Outras fontes afirmam que a origem do nome vem da palavra francesa mousquette, que é um gavião, sendo comum as armas de fogo receberem nomes de animais.